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Filmes


OS DESCENDENTES

Mais uma edição do Sarau Cultural do Ágora Instituto Lacaniano aconteceu ontem em Campo Grande. O filme: Os descendentes. Vencedor do Globo de Ouro em 2012 como melhor filme. Gênero: Comédia dramática. COMÉDIA DRAMÁTICA? Foi o que pensei ao ler a descrição. Como pode ser este paradoxo? Até bem pouco tempo atrás, não concebia como um drama pode ser comédia, a não ser na vida dos outros, é claro, e não na minha. Mas isso não vem ao caso. Se em algumas outras edições recentes do Sarau ficamos angustiados ao final do filme, neste, ficamos mais leves. Sim, era um drama, mas nós ríamos ao assistir.

George Clooney faz o papel de Matt, um homem muito rico e voltado para seu trabalho até que sua esposa sofre um acidente que a deixa em coma. Sem retorno, a vida de Elisabeth está mantida apenas pelos aparelhos, mas o médico avisa que a morte é uma questão de alguns poucos dias. O casal tem duas filhas: Alexandra (17 anos) e Scottie (10). Matt recebe a notícia e precisa avisar aos familiares e amigos que venham despedir-se de sua esposa. Ele começa contando para a filha Alexandra, uma adolescente que estuda em outra ilha. Ah, esqueci de dizer que eles moram no Havaí, belíssimo lugar que aponta o contraste entre o paraíso onde moram e o inferno que tem sido a vida de Matt desde o acidente. Pois além de tudo, está como responsável para fazer a venda de uma terra que é herança familiar.

Uma participante comentou que o filme não tem exageros, mostra muitas cenas e conflitos que acontecem em nosso cotidiano: dificuldade para lidar com os filhos, com a doença, a morte, os ciúmes, etc. A filha adolescente é convocada pelo pai a dar a notícia da morte próxima de sua mãe. É neste momento que ela conta ao pai sobre a traição da mãe. Como uma outra participante comentou, no início, antes de saber da traição, Matt faz uma mea culpa por ter sido um marido e pai ausente. Depois, o que advém é a raiva. E já não há o que fazer para salvar a mulher.

Ele e suas filhas, acompanhados de Sid, um adolescente amigo de Alexandra, partem à procura do homem com quem Elisabeth havia se envolvido. Matt queria saber se sua mulher amava este outro. Todos mudam durante o filme. O pai, que precisa aprender a lidar com as filhas. A adolescente que, de rebelde passa a ter que ajudar o pai na difícil missão de contar sobre a morte iminente da mãe, além de ajudá-lo a encontrar o tal amante. Até mesmo Sid, o amigo de Alexandra, de bobo que era no começo, quase chega a dar conselhos a Matt sobre como lidar com suas filhas e com a traição. Algumas pessoas comentaram sobre o mundo adolescente, sua linguagem própria e apontaram que não podemos subestimar a forma pela qual lidam com a dor. Sid foi um amigo e tanto, e não descolou da família nem por um minuto. Mesmo depois de levar um soco do avô de Alexandra. Sid perdera seu pai recentemente, podia compreender a dor da amiga.

A esposa morre. Há apenas uma cena em que ela aparece de fato viva, sorrindo. É a primeira cena do filme. Depois ela somente aparece em coma. Mas ela é muito falada no filme. Podemos saber muito de quem ela é, ou foi na vida. Uma mulher desejante.

Matt desiste de vender a propriedade da família, o que causa furor entre os descendentes que estavam de olho na grana. Laços refeitos com suas filhas e também com seus ancestrais. O que Marilene Kovalski notou também foi a maneira como as questões são resolvidas falando. Ainda que com os enganos e desenganos das palavras, estas foram colocadas boca afora, não-todas, certamente. Acho que isso foi o que nos causou a sensação de leveza. Afinal, uma história pode ser dramática, ou cômica, ou isso ou aquilo. Mas nesse filme, notamos que um drama pode ter suas pitadas de comédia. Isso depende, de certa forma, da maneira com que falamos disso. Me parece que assim o paradoxo da “comédia dramática” fica parcialmente resolvido. Ao fim, saímos de lá leves e concluímos que George Clooney, além de excelente ator, é um colírio!    

Isloany Machado, 05 de outubro de 2012.



KARAKTER, DE QUE SE TRATA?

Será que escrever sobre o Sarau se tornou também um vício? Não sei. Ontem tivemos mais uma edição do Sarau Cultural do Ágora Instituto Lacaniano. O filme assistido é holandês, do ano de 1997 e chama-se Karakter, do diretor Mike van Diem. Conta a história de Jacob Katadreuffe, filho de Joba e Dreverhaven. Ela trabalhava como empregada na casa de Dreverhaven, um oficial de justiça implacável. Eles tiveram apenas uma relação sexual e Joba engravida de seu patrão. Conta a ele que está grávida no momento em que as malas estão prontas para sua partida. A resposta dele é: “e daí?”. Ela vai e ele não faz nada imediato.

Durante muitos anos, o oficial de justiça manda-lhe cartas com uma única pergunta: “quando será nosso casamento?”. Ela não responde. Aliás, Joba é uma mulher de poucas palavras. E é assim que ela cria seu filho Jacob. O refúgio dele são os livros que encontra abandonados em uma das casas que vão morar. Uma enciclopédia incompleta, pois só vai até a letra T, é o que faz companhia ao garoto na ausência de palavras da mãe. Na infância procura o pai, mas desiste diante do que ele diz: “nunca vi este garoto antes”. Seu apelo ao pai é vão e ele concorda com o que a mãe dizia: “não precisamos dele”.

Diante da falta de palavras da mãe, Jacob supõe que ela não o suporta e quer ir pra longe dela. Na tentativa de começar uma vida longe da mãe, Jacob contrai uma dívida que não consegue pagar. Descobre depois que o banco que lhe emprestara dinheiro era de Dreverhaven. Este lhe cobra a dívida, mas os bens de Jacob não passavam dos livros, que não valiam quase nada. Na medida de valor referente a bens materiais, seus livros velhos não valiam nada, mas seu conteúdo foi o de que se valeu para conseguir um emprego num escritório jurídico. É acolhido por um advogado que não deixa levarem seus livros, sabe que é tudo o que Jacob tem. Com aquilo que aprendera, até a letra T, Jacob pode demonstrar que era um rapaz inteligente e conseguiu o emprego. Assim, pagou sua dívida com Dreverhaven. Agora estavam quites, certo? Errado. Jacob Katadreuffe queria mais.

Ele contrai nova dívida com Dreverhaven, de um valor bem mais alto que o anterior, e usa o dinheiro para se tornar um advogado. O contrato de empréstimo previa que a dívida poderia ser cobrada a qualquer momento. Ambos, pai e filho, ficam numa disputa imaginária, que é interditada, como lembrou Andréa Brunetto, pelo advogado que “adotou” Jacob. No dia em que se torna advogado, Katadreuffe faz uma visita, cheia de ódio, a Dreverhaven. Talvez este tenha sido o dia em que estiveram mais próximos. Houve um embate físico e ao final, num certo momento, um lampejo de abraço entre os dois, como lembrou uma das pessoas que assistiu também. Mesmo tendo alcançado tudo que queria, Jacob estava insatisfeito, ele queria mais. E esse mais era ir ao encontro daquele pai que sempre o perseguira, tanto com a cobrança das dívidas, quanto com seus silêncios. Jacob teria realizado seus desejos? Alcançara seus objetivos? Eram mesmo seus? Pra quem era tudo aquilo que fazia? Foram algumas perguntas que uma outra participante fez. Nos parece, em psicanálise, que o desejo é sempre do Outro. O que construímos passa sempre pelo crivo da pergunta “o que o outro quer de mim?”, mas é algo para o que não temos resposta. Não sabendo se caminhamos no rumo certo, construímos também a partir de nosso desejo. Foi o que Jacob fez ao seguir seu caminho, ainda que colado ao ódio pelo pai. Naquele dia, ocorre a morte do oficial de justiça e quase todo o filme se passa em flashback. Jacob Katadreuffe está relatando como tudo aconteceu, desde antes de nascer até aquele fatídico dia em que é o primeiro suspeito da morte do pai.

Dreverhaven era um homem “cansado da vida”, como observou o advogado “pai simbólico adotivo” de Jacob. Era um homem que se colocava o tempo todo em risco de morrer, até em sonhos. E sonho não é realização de desejo? Jacob fica preso à divida com o pai, que somente pode assumir esse papel a partir da própria morte, em uma carta que deixa ao filho, na qual assina: “seu pai”. A falta de palavras é algo que grita no filme. Dreverhaven pede Joba em casamento inúmeras vezes, por escrito. Joba, que nunca diz nada ao filho, demonstra algum cuidado deixando um bilhete no meio de suas coisas quando ele se muda de casa. O pai se assume pai por uma carta, póstuma. Jacob ama uma moça, mas não consegue dizer a ela, talvez repita aí a história do pai, como apontou alguém durante o debate. Saímos de lá com a impressão de que uma frase ou algumas palavras bem-ditas poderiam resolver todas aquelas mágoas. Como lembrou Marilene Kovalski, ainda que as palavras, os significantes, sejam insuficientes, pior seria sem eles. Foi Jacob que matou o pai? Quem assistiu sabe a resposta, quem não, terá que assistir. O que posso dizer é que simbolicamente, podemos ir adiante a partir do fracasso do pai – enquanto função, de sua morte simbólica. E mesmo que as palavras sejam imprecisas, é preciso dizê-las, ou escrevê-las.

 

Isloany Machado, 14 de setembro de 2012.



FALANDO SOBRE KEVIN

Quem foi ontem ao Sarau Cultural do Ágora Instituto Lacaniano poderia ter saído de lá com um nó na garganta depois de assistir “Precisamos falar sobre Kevin”. Não sei se alguém saiu com esta sensação, mas, como disse Marilene Kovalski, o Sarau também é um espaço para falar, para desatar nós. Eu não sou nenhuma expert em análise de filmes, mas traçarei aqui alguns comentários de pontos que me chamaram a atenção, mas trarei também os comentários que foram feitos pelas pessoas que estavam lá. Me desculpem se não lembrar o nome de todos.

Em linhas bem gerais, o filme traz a história de uma relação mãe-filho estabelecida de maneira devastadora. Creio que o efeito de angústia produzido em nós, como disse Marisa Costa, além de toda a crueza e violência desta relação entre Ema e Kevin, é devido ao fato de questionar a raiz de nossas existências, ou seja, nossas relações primordiais com o Outro materno. O filme questiona o desejo de alguém que se torna mãe, como lembrou a professora Irma, e nos faz pensar que o amor materno é uma invenção, um mito. Kevin diz à mãe: “você se acostumou comigo” e ela não consegue respondê-lo. Obviamente que é um mito muito bem arraigado em nossa cultura e a história de seu nascimento é apagada por diversas ideologias. Para termos noção do poder que isso exerce sobre nós, basta constatarmos o fato de que, mesmo sabendo que se trata de uma construção social, provavelmente nos sentiríamos também culpados caso estivéssemos na pele de Ema.

Alfredo Salvetti destacou que não podemos culpabilizar a mãe pelo que se tornou seu filho, já que por nossa posição de sujeitos sempre somos responsáveis, nas palavras de Lacan. Em minha opinião, Ema era o alvo de Kevin (se vocês lembrarem a cena em que ele atira a flecha nela), mas a flecha não podia alcançá-la, pois estava essa mulher numa redoma de vidro (a janela). O alvo de Kevin é inalcançável, por isso ele acerta em tudo o que está ao redor, menos nela. O enigma que Kevin carregava consigo, como lembrou Marilene, era o mesmo a que todos estamos fadados: O que o Outro quer de mim? Na infância ela lhe dizia: “Antes do Kevin nascer, a mamãe era feliz, mas agora a mamãe tem vontade de ir para a França.” Na tentativa de realizar o que ele acredita ser o desejo dela, já que para esta pergunta nunca teremos uma resposta, Kevin liberta sua mãe tanto de sua presença quanto do marido e de sua outra filha. Agora ela está livre para ir para qualquer lugar do mundo, qualquer lugar dos mapas que colou na parede de seu “canto especial”.

Como apontou Daniel Foscaches, os ditos do filme ficam nas entrelinhas. Há muito silêncio na relação deles, o que fica nítido nas visitas que Ema faz a Kevin depois dele ser preso. Não há palavras que possam suprir o desencontro amoroso dos dois. Qualquer tentativa não passa de um “nhenhenhém”, como diz Kevin. Muito bem apontado por Marilene, o menino fica colado a duas cenas: a primeira em que ela lhe quebra o braço ao jogá-lo contra a parede (futuramente ele diz que foi o único momento em que ela foi verdadeira com ele), e a segunda, quando ela lê para ele as aventuras de Robin Hood, personagem com o qual ele se identifica na questão do arco e flecha.

A cor vermelha perpassa todo o filme. No início, Ema quando jovem é mostrada participando de um festival de tomates em que se cria um mar vermelho, no qual ela mergulha. O filme faz uma metáfora desse mar vermelho com o mar de sangue que Kevin dá para ela. Será que isso é possível? Que ele tenha feito para ela? Ao final ela lhe pergunta o motivo do que fez e ele fica surpreso: “eu sempre acreditei que você soubesse”. Só faltou ele dizer: “foi pra você”, mas o mais importante são as entrelinhas. Um Édipo mal resolvido? Será que nasceu assim? Será capaz de amar? Como poderia ter sido diferente? O que nós psicólogos poderíamos fazer num caso assim? Foram algumas das questões levantadas durante a discussão. Saímos com mais perguntas do que respostas. Ainda bem, pois as certezas são muito amigas das intolerâncias. A pergunta é o que marca nossa existência, a de Maria, de João, de Kevin, de Ema, enfim, de cada ser de linguagem.

           

Isloany Machado, 10 de agosto de 2012.

2 comentários:

  1. Me incomoda um pouco o fato de os nomes dos personagens que você citou não serem os nomes originais. O filme é apenas um conjunto desconecto entre o passado e o presente dos fatos citados nos livros. O filme é focado todinho no drama da mãe, quando, no livro, é somente ela contando a verdade que o marido acreditava ser mentira. O filme é uma adaptação muito mal elaborada do livro, não vale a pena nem um minuto sequer. E no final, Kevin não diz "eu sempre achei que você soubesse" mas sim "eu achei que eu soubesse, mas agora não tenho tanta certeza". O que é, pra mim, significa muita coisa. Como o post é antigo, não se se já teve a oportunidade de ler o livro, mas se ainda não fez, faça.

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    1. Obrigada pela dica, eu já estou lendo o livro há um tempo...

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