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domingo, 25 de julho de 2021

Resenha d'A casa dos espíritos (Isabel Allende)



NESTE DIA DO ESCRITOR, gostaria de falar um pouco sobre este livro da Isabel Allende que me fisgou completamente. A casa dos espíritos é classificado como Realismo Fantástico. Fui pesquisar mais a fundo e ele pertence, junto com Cem anos de Solidão, ao gênero conhecido como Realismo ‘Maravilhoso’. Esta categoria surgiu, pelo que entendi, na literatura latino-americana e seus expoentes são encontrados mais especificamente em países de língua espanhola. A expressão ‘maravilha’ era utilizada pelos espanhóis quando descreviam os territórios do Novo Mundo a ser colonizado (o que nos faz deduzir a ironia). Saga não muito diferente da história aqui em terras brasileiras e, justamente por isso, ao ler A casa dos espíritos, cujo enredo se passa em um país indefinido da América Latina, sabemos que o livro poderia ser sobre qualquer um de nossos irmãos-explorados. É a nossa famigerada história de tantas explorações, latifúndios, misérias, escravidão disfarçada de servidão. 


O livro traz o novelo familiar que enreda os Del Valle, os Trueba e os García. Por se tratar do mesmo gênero literário de Cem Anos de Solidão, é perceptível a semelhança, mas aqui o centro se desloca para as mulheres: Nívea, Clara, Blanca e Alba (além de outras figuras femininas igualmente importantes). Apesar dos nomes pertencerem ao mesmo campo semântico, não se trata de uma repetição como gostam os homens, “nomes repetidos dão muito trabalho para anotar no livro da vida”, diz Clara em seu diário (toma Gabo!). O grande patriarca é Esteban Trueba, latifundiário irado, de direita, abusador das camponesas, cão que mais ladra do que morde para defender sua virilidade. Esteban, no fim das contas, é um cachorro sem dono, que mendiga o amor das mulheres, sobretudo da esposa: Clara. Num ataque de fúria, dá nela um soco que lhe arranca os dentes. Ela jamais lhe dirige a palavra até o fim da vida. 


Como pano de fundo a história das desigualdades de um país que viu nascer o grande Poeta (Neruda). A autora não dá nome, mas sabemos que é do Chile que se trata. E a história caminha para nos contar sobre a ascensão de Pinochet ao poder. O golpe e a ditadura militar. É a mesma história de tantos de nossos países latino-americanos. É o mesmo enredo do golpe militar no Brasil.


Com a passagem dos anos, a velhice e as perdas sofridas por Esteban, o ódio arrefecido em um corpo que vai diminuindo a olhos vistos, trata-se de um livro sobre a possibilidade de redenção. Eu, que nem tenho como gênero preferido o Realismo ‘Maravilhoso’ (agora especificado), entendi que diante de tantas dores compartilhadas por nossos países vizinhos, só mesmo um pouco da perda de contato com a realidade nos faz capazes de continuar vivos e resistentes. Um livro publicado em 1982, parece que fala do que estamos vivendo agora mesmo. Só leiam.