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sábado, 8 de agosto de 2020

Depois de um tempo

uma análise nos revira do avesso, e tudo o que antes queríamos esconder, se torna o jardim de nossas mais belas verdades.

Depois de um tempo de análise, a falta já não dói, porque você descobre que ela é feita de matéria intransitiva.
E depois de um tempo, todos os seus abismos continuam sendo abismos, mas o que antes parecia pertencer a um território estrangeiro, se reveste da língua materna, porque uma análise nos traduz de nós pra nós mesmos.
E todos os objetos caem por terra, um a um, por serem substitutos daquele primeiro, porque ele, o primeiro, é aquele que não é: sem substância, sem substituto, sem existência, pura presentificação da ausência.
Depois de um tempo, a solidão não é mais assustadora, porque mesmo sabendo ser uma fração, você ainda é um número inteiro. A matemática é outra.
Depois de um tempo você percebe que a dor do outro é do outro, que não diz respeito a você, assim fica mais fácil oferecer o bálsamo que é deixar falar. E falar é, a um só tempo, derrubar as paredes, conviver com os escombros por um longo tempo, e construir outra coisa, que é ainda a mesma coisa, só que diferente. O cimento é outro.
Com o tempo, você faz o luto de tudo aquilo que cai, mas o que antes era dor de morte, se torna celebração de vida. Porque o amor não morre, mesmo quando parece morrer. Ele atravessa o tempo e pode ficar encapsulado esperando a estação certa para germinar. O que morre é o invólucro, aquilo que precisa morrer para que haja a explosão da vida em sua existência mais bruta. E quando você cai em si, tem flor por todo lado, e dentro, e fora, porque não há mais dentro ou fora.
Depois de um tempo, as dores ainda doem, porque são dores, afinal, e só o que elas sabem fazer é doer, mas como tudo, nada é para sempre, e você se permite sentir, sem amortecedores.
Depois de um tempo, por mais que no início você quisesse se fazer outro, como se fosse possível abandonar a si mesmo, você chega ao seu início, momento princeps, numa arqueologia que te leva às suas pinturas rupestres, marcas iniciais, traço que te diz quem você é sem que precise emitir sequer uma palavra. Um traço que sempre esteve ali, mas só foi possível de frente para trás, depois de voltas e voltas, e voltas.
Numa análise a gente vai e volta, não só com as palavras, mas com o corpo, porque corpo também é palavra. Um corpo nunca é só um corpo, mesmo quando acaba, porque se tem uma coisa que não acaba é palavra. O que não quer dizer que não acabe nunca. Acaba. Palavra é infinita. Análise é finita. O inconsciente é um mundo. A castração, muro. E contornamos mais um pouco, e um pouco mais, ainda, sem saber o que está por vir, porque só agora a gente tem a coragem necessária para olhar de frente para adiante. Ainda que haja coragem do início ao fim, posto que nossos horrores provocam nauseangústias, há uma coragem de fim, porque agora tudo está reduzido ao mínimo. Não há bagagem depois que atravessamos a linha de chegada. Apenas com o essencial em mãos, entendemos que a linha de chegada é outro início, partimos do mesmo lugar, mas o destino é outro, novo porque desconhecido.
Só depois de um tempo de análise é que nos permitimos o novo.

Obs.1: perdoem a hora, perdi o sono, porque mesmo depois de um tempo de análise, nada garante uma noite tranquila.


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