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segunda-feira, 11 de maio de 2020

SOBRE A ANÁLISE, A CASTRAÇÃO E A PANDEMIA.



Além da felicidade de poder trabalhar com chinela e roupa “véia", tem uma coisa que ainda não disse sobre o privilégio de continuar sustentando as análises on-line: isto tem trazido alegria e sentido aos meus dias de confinamento. Ainda que como analista eu precise estar na posição de objeto causa de desejo, isto é, mesmo que não seja uma relação sujeito-sujeito, tem sido incrível dar alguma sustentação às falas dos analisantes. Nada disso é novidade, pois já é o que um analista faz em seu consultório "presencial” todo santo dia, mas agora, diante do escancaramento do real da morte e da castração, da falta de garantias, sustentar as transferências é poder esquecer um pouco do caos e apostar na vida.

Em meio a uma pandemia, mesmo que os analisantes saibam que o analista, enquanto Sujeito Suposto Saber, não sabe de nada mesmo, continuam apostando na pulsão de vida. E como apostam! Cada um, a seu modo, ludibriando o real da morte, elaborando, tentando acomodar isso que se expande e que não caberá novamente no mesmo lugar. O Covid-19 está esfregando na nossa cara a possibilidade da morte. Ora, o que é possível diante da morte? Viver, viver, viver. A vida pede pressa.

Agora de novo: isso já é o que acontece quando se faz uma análise. Certa vez, li em algum lugar que "fazer análise é economizar tempo de vida”. Ora, uma análise nos coloca para lidar com nossa castração. Nos faz olhar de frente para aquilo que somos em função dos (O)outros e, como na música do Belchior, trata-se de "uma roupa que não nos serve mais". Então, dentre muitas coisas, a análise nos leva a elaborar o luto daquilo que já não somos, nos faz colocar a libido em outras coisas, porque há muito desejo, há muita vida, ainda que o fim seja sempre a morte. Quem faz análise sabe que é preciso saber perder, deixar cair, abandonar o gozo a cada volta que se dá. Sabe também que não se pode abrir mão do desejo em detrimento da aposta no gozo, pois o jogo já está perdido por esta via, resta o sintoma.

A pandemia também nos apressa em querer viver, escrever todos os livros que carregamos na cabeça inteirinhos, ler todos os clássicos da nossa imensa lista, declarar o amor que está engasgado, fazer uma carta de despedida para quem fica. Não há tempo para os ressentimentos, tampouco para os amores longamente impossíveis. Quando a morte chega perto, a pulsão de vida se torna fervilhante para aqueles que querem viver. Ou, como disse hoje minha analista: "Uma vida é sempre curta para o desejo de viver”.

Se eu morresse amanhã, vivi todas as vidas.
Se eu morresse amanhã, entreguei todos os beijos.
Se eu morresse amanhã, levei todas as cores em meus olhos.
Se eu morresse amanhã, desejei.               

2 comentários:

  1. Você costura palavras e eu coloco em palavras para ludibriar o real, como vc escreveu. Tenho impressões parecidas nessa prática de escuta On Line.
    Essa sua costura fez um cobertor tão gostosinho pra eu me cobrir!

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  2. Você costura palavras e eu coloco em palavras para ludibriar o real, como vc escreveu. Tenho impressões parecidas nessa prática de escuta On Line.
    Essa sua costura fez um cobertor tão gostosinho pra eu me cobrir!

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