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sábado, 16 de novembro de 2019

Sobre o Coringa, ainda e mais




De tanto que falei do filme, fui convidada por um colega da psicanálise para fazermos um debate sobre o tão aclamado Coringa. Virou motivo de chacota o fato de eu ter ido três vezes ao cinema, até para mim, que nunca tinha ido mais de uma vez para ver a mesma coisa. Então, enquanto pensava no que falar durante o debate, para além daquilo que já havia escrito, pensei: mas por que diabos tive que ver três vezes, perigando ir a quarta vez?
Quando criança, eu tinha medo de palhaços. Claro que na época não entendia, mas depois, pensando e pensando já adulta, me parece que a figura de um palhaço é triste porque carrega um sorriso forjado e, ao mesmo tempo, uma lágrima, que está desenhada para expor a contradição entre o imperativo do riso enquanto o que se quer, no fim das contas, é chorar. Afinal, qual é a graça?

Na adolescência, meu livro favorito se chamava O dia do curinga (Jostein Gaarder – o mesmo autor d’O mundo de Sofia). Também tive que ler pelo menos umas três vezes, não porque fosse difícil de entender, mas porque em cada releitura podia enxergar coisas que não tinham sido possíveis antes. Trata-se da história de um menino em uma viagem com o pai, e o que motiva a viagem é a busca pela mãe/esposa que os deixou quando o filho tinha quatro anos e saiu pelo mundo para se encontrar. Lá pelas tantas da viagem, Hans-Thomas ganha uma lupa e um mini-livro, temos então uma história dentro da história e, obviamente, ambas estão entrelaçadas. Em uma ilha, um marinheiro náufrago vive sozinho por muitos anos até que as cartas do baralho que carregava numa caixinha de madeira ganham vida em forma de anões, cada um com seu naipe. Tudo está em perfeita ordem quando chega o Curinga. Cito um trecho:

Todas as cinquenta e duas figuras eram diferentes, mas tinham uma coisa em comum: nenhuma delas jamais perguntou quem era ou de onde tinha vindo. E por agirem assim, todas viviam em perfeita harmonia com a natureza à sua volta. Elas apenas viviam suas vidas dentro desse jardim exuberante e, como os animais, estavam íntima e despreocupadamente ligadas a ele...Até que chegou o Curinga. Ele se infiltrou no povoado como uma cobra venenosa. (...) Ele não apenas usava roupas engraçadas com guizos nas pontas, mas também não pertencia a nenhuma das quatro famílias, a nenhum dos quatro naipes. E, para completar, conseguia irritar os anões fazendo-lhes perguntas que não eram capazes de responder. (GAARDER, 1996, p. 210).

O Curinga, ou Joker, representa esta figura que faz questão, enquanto as outras cartas vivem sem que precisem fazer perguntas. No filme, há uma transformação de Arthur, esse “garotinho feliz”, de palhaço a joker. Enquanto palhaço, bem ou mal, ele se monta/desmonta e causa riso com suas palhaçadas, mas é alguém que está para ser batido, espancado, achincalhado. Ao fim do dia, remove-se a maquiagem, tira-se a peruca, roupas e sapatos, volta-se a ser triste. Enquanto Coringa/Joker, Arthur é a própria piada, uma piada que não tem graça. Há algo de identidade que passa a compô-lo. Não mais a peruca, mas o próprio cabelo pintado de verde. A maquiagem até por dentro da boca. A dança, o andar confiante, algo que lhe atravessa o corpo, uma verdade que vem à tona.

Arthur não pôde ser ouvido, primeiro por sua mãe (seja por ter sido tomada pela loucura [?], seja pela obsessão por um homem que não quis assumi-la, nem a seu filho). Começa aí a posição de Arthur como este objeto que resta espancado, recusado pelo pai, batido pelo(s) padrasto(s), cujo grito não é ouvido pela mãe. A posição do sujeito se repete na vida. Apesar de não se lembrar dos maus-tratos na infância, segue na vida sendo espancado gratuitamente por ser quem é: um cara estranho que tem um "distúrbio" de riso involuntário. Será coincidência que haja um sintoma assim para alguém que “veio ao mundo para trazer riso e alegria”? Também segue não sendo ouvido pelo patrão, pela assistente social, dentre outros. É uma voz que não tem lugar para o Outro.

Ao saber (como se tomasse um remédio amargo) de sua história, matar a mãe no real, ou seja, fazer uma passagem ao ato, é a saída que encontra para deixar a posição de objeto e colocar-se minimamente como sujeito. Arthur passa a ser visto, a ter uma ex-sistência, a custo da violência e não da elaboração. Sua passagem de palhaço a Coringa não tem como objetivo fazer um levante social, uma revolução de cunho político. É uma transformação que ocorre no nível micro, das primeiras e primordiais relações desse sujeito, mas o que ele reclama é para si, sua filiação, seu lugar. Arthur está matando a mãe, este primeiro Outro no real. Seria preciso fazer metáfora para que esta concretude pudesse ter sido ultrapassada. Que os outros o tenham como símbolo de uma revolução, trata-se de um deslizamento que já não lhe diz respeito.

Tanto no livro O dia do Curinga quanto no filme de Todd Philips, há uma questão com a mãe. No livro, um menino em busca de encontrar a sua, no filme, ao encontrá-la (saber quem ela realmente é e que mentiras carregou), há o deparar-se com o horror e a violência de quando não se é nada para o Outro.

A trilha sonora (que só pude reparar na terceira vez que fui ao cinema e por causa de um comentário que li na internet) remete ao imperativo da felicidade. Smile!!

Em outro comentário, de um psicanalista também, me deparei o com o tocante fato de que Joaquin Phoenix, aos 19 anos viu morrer de overdose em seus braços o irmão (também ator) River Phoenix. Foi ele quem ligou para o socorro enquanto seu irmão agonizava em um beco, como na cena do começo do filme, na qual é espancado por garotos e resta caído num beco. Há algo pungente na atuação de Phoenix que ultrapassa tudo o que é esperado. O artista finge sentir a dor que deveras sente.

Quanto à questão do "somos todos Coringas”, posso afirmar que não é Coringa quem quer. O Coringa é uma carta extra, que está fora do baralho, mas que pode causar um rebuliço e mudar as regras do jogo. Como Jostein Gaarder diz em seu livro: “somos bonecos vivos”, e o Coringa é a única carta que sabe disso.

Obs. 1: Agora juro que eu paro.

Obs. 2: Até a minha próxima ideia fixa. 

Referência:

GAARDER, J. O dia do Curinga. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Resenha do filme Coringa




TODOS OS QUE ACOMPANHAM MINHAS RESENHAS DE FILME
sabem que não está entre minhas preferências os de super-heróis. Primeiro por sempre ser algo muito surreal, segundo, e por isso mesmo, meu raciocínio não conseguir acompanhar todo o enredo, terceiro porque, não acompanhando, minha memória não funciona para que eu possa assistir as continuações. Pois bem, já assisti vários do Batman e sabia da existência do Coringa, mas então hoje fui ao cinema pela segunda vez assistir sobre sua história (eu nunca fui ao cinema duas vezes para ver o mesmo filme).

Logo no começo, primeira cena, Arthur Fleck está se pintando de palhaço, um sorriso forjado com os dedos e uma lágrima descendo pelo rosto. Não se trata daquela famosa lágrima desenhada, é uma real, que desce discretamente. Ele trabalha para uma empresa que “fornece" palhaços para eventos em geral. São tempos de violência gratuita, da banalidade do mal (salve Hannah Arendt), e Arthur é espancado por um grupo de meninos na rua. O motivo: porque querem lhe roubar a placa(?); porque só querem sacaneá-lo mesmo(?); sabe-se lá o que explica o prazer em causar dano gratuitamente ao outro. Ele leva uma bronca do patrão porque o cliente se queixou de seu sumiço, ao passo que ganha uma 38 do colega de trabalho.

Corta para a conversa com a assistente social que o "atende", e a pergunta de Arthur é: "É impressão minha ou o mundo está ficando mais maluco?”.

Arthur veio ao mundo sob a seguinte sentença: "aquele que nasceu para fazer rir e trazer alegria”. Sua mãe o chama de "Feliz”. O local onde trabalha se chama Haha’s e seu slogan é "coloque um sorriso nessa cara”. Há um imperativo à felicidade, à alegria, ao riso indispensável, a que Arthur obedece, tanto se tornando palhaço, como sonhando em ser comediante, mas, sobretudo, colocando o imperativo no real com seus ataques de riso a que ele chama de distúrbio neurológico. E todos perguntam, quando acontece: “do que você está rindo, idiota? Não tem graça". São tentativas de cumprir o destino do dizer da mãe, agora uma senhora que é cuidada (alimentação, banho, etc) por Arthur, desde cedo “o homem da casa”. Ambos vivem uma loucura a dois, para ficar mais chique, folie à deux. A mãe vive repetidamente questionando por que Thomas Wayne não responde suas cartas. Ele, um homem importante, quer se candidatar a prefeito (sim! o pai do Batman!), ela, uma mulher que trabalhou na casa dos Wayne há trinta anos.

Vamos para o segundo momento em que Arthur está de novo como um objeto a ser batido, espancado, gratuitamente. Ele acaba de ser demitido porque a arma cai de sua perna no meio de uma apresentação num hospital infantil. "É um adereço, faz parte do show", mas seu chefe não acredita e o demite aos berros, por telefone. No metrô, três babacas, os típicos cidadãos de bem de Gotham (nada que lembre nossos cidadãos de bem por aqui) estão assediando uma moça e Arthur começa a gargalhar. Não tem graça, nunca tem. Os três homens começam a espancá-lo e ele reage matando os três a tiros. É difícil admitir isso, mas a gente torce e sente um alívio quando ele consegue se levantar do espancamento brutal e mata os três. Talvez isso seja material para a polêmica em torno do filme, de que incitaria à violência. Mas me parece que a arte imita a vida mais do que o contrário, e se sentimos um certo gozo na cena, é porque podemos fantasiar ao invés de ir ao ato (salve a arte!). Depois disso, ele corre, aturdido e entra num banheiro público. Lá se desenrola uma dança que parece quase involuntária, quase tanto quanto seu riso. Uma cena que me fez arrepiar inteira e eu queria abraçar aquele ator por ter escolhido ser ator e fazer aquilo tão bem. O assassinato no metrô causa rebuliço em Gotham e o candidato a prefeito e empresário Wayne (o entojado) diz: “o problema dessas pessoas que fazem esse tipo de coisa é que não suportam as pessoas bem-sucedidas como nós, já que eles continuam sendo meros palhaços”. Arthur ouve esta fala que está sendo transmitida na televisão. Wayne é chamado a dizer algo, pois os três rapazes eram funcionários de sua empresa.

Em seu caderninho de piadas para o show de stand-up comedy que está preparando, escreve: "A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você aja como se não tivesse uma”. Na conversa com a assistente social, ela sempre lhe faz as mesmas perguntas e ele diz: “Você não escuta o que eu digo. Sempre pergunta como eu me sinto, se tenho pensamentos ruins. Eu sempre tenho pensamentos ruins. Sempre me senti como se não existisse. Você não me ouve". E parece que não ouve mesmo. Ao fim deste encontro, ela lhe dá a notícia de que a verba do programa de saúde foi cortado e, portanto, é o último atendimento. “E como vou conseguir meus remédios?". A pergunta cai no vazio.

A mãe de Arthur pede a ele que poste mais uma carta para Wayne. Ele decide abrir a maldita carta para saber o que tanto esta mulher tem a dizer. Ela pede ajuda: “somente você pode ajudar a mim e a seu filho". Estarrecido, aos berros, Arthur quer saber se aquilo é verdade. A mãe diz que na juventude, quando ela trabalhava na casa dele, se apaixonaram, mas ele achou melhor não ficarem juntos por questões sociais e que a fez assinar uns papéis. E nós ficamos sem saber se é delírio (eu ia dizer “se é verdade ou delírio”, mas um delírio não é uma verdade?). Pois Arthur vai até Wayne, que nega a paternidade e ainda diz que sua mãe é uma louca, que o adotou quando ainda trabalhava para sua família, mas que foi internada num sanatório depois. Decidido a saber de sua verdade (tanto quanto o pobre Édipo que acaba vendo justo aquilo que mais temia enxergar), vai ao sanatório e descobre que sua mãe foi diagnosticada como psicótica, que tinha um filho adotivo (ele) a quem deixava sofrer maus tratos por parte de seus namorados. Nessa cena, tudo acontece muito rápido e as questões que ficam são: a mulher era realmente louca? Ela adotou mesmo o menino ou foi obrigada a assinar papéis falsos segundo a versão da poderosa família Wayne? Se acaso não era louca, ela ficou a partir dali, a ponto de permitir que seu filho sofresse abusos físicos: “Eu nunca o ouvi chorar, ele sempre foi um garotinho tão feliz".

Ser feliz é o imperativo do Outro materno a quem Arthur está absolutamente alienado, sem corte, sem castração, foracluído. Uma psicose não tem como causa as mazelas sociais, ainda que a maneira como a loucura é tratada (ainda) seja um grave problema social, sim. Estando fora do discurso, Arthur se coloca fora da lei e, para romper com o imperativo da mãe, precisa matá-la no real. Enquanto um “neurotiquinho" qualquer passaria anos em análise, deitado no divã, matando o Outro aos poucos, Arthur faz uma passagem ao ato e diz, enquanto a sufoca com o travesseiro: “É muito difícil tentar ser feliz o tempo inteiro. Eu nunca fui feliz nesta minha vida desgraçada. Lembra quando você dizia que meu riso era um distúrbio? Eu descobri que não é, eu sou assim mesmo". Édipo mata o pai sem saber que é seu pai. Arthur mata a mãe porque sabe (o saber psicótico é intransitivo).

Para saber o desfecho (mais do que já abri meu bocão) vocês precisarão ir ao cinema, até porque minhas palavras não conseguem transmitir o impacto que o filme causa. Não relatam sobre a atuação do Joaquin Phoenix (CASA COMIGO, JOAQUIN??). Tenho para mim que ele ganhará o Oscar de melhor ator.

Obs. 1: Alguém quer ir comigo ao cinema pela terceira vez?

Obs. 2: Eu pago a pipoca.