Aqui você encontrará textos sobre psicanálise, literatura e meus escritos literários.

Precisa de revisão ortográfica? Venha para a Oficina do Texto: Clique aqui!

Leia aqui o texto que inspirou o nome do Blog!

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Uma escuta que suporta a dor



(Para meus colegas psicanalistas)

Hoje saí do consultório me sentindo moída. Geralmente saio leve, mas hoje, depois de passar o dia ouvindo pessoas assustadas e com medo, tanto quanto eu, percebi que estou envolvida nisso inclusive com meu corpo. O sofrimento com o caos geral afeta os corpos, que se encolhem na poltrona à minha frente, ou no divã. Dias atrás fiz um post no facebook dizendo que possivelmente não haveria lugar para a psicanálise num regime ditatorial, porque num regime assim, não há lugar para a subjetividade, para a liberdade de pensamento. Acontece que a "liberdade caça jeito", como disse Manoel de Barros, e a subjetividade não pode ser suprimida, jamais.

A história da psicanálise remonta a isso: a uma fala que queria dizer, mas não se fazia ouvir a não ser com o corpo. As histéricas com seus corpos diziam que havia algo a ser dito e não descansaram enquanto não se fizeram ouvir. Freud foi um dos que teve a sensibilidade de não tentar encaixotar o sofrimento humano.

O temor que está em jogo na fala de (quase) todos os pacientes é sobre a integridade física, trata-se de uma dor que já dói desde a ameaça, porque palavra também é ato. E eu, enquanto analista, não tenho como não sentir dor porque existe uma impotência no agir. Mas existe potência na política e na ética psicanalíticas. Se havia alguma crítica sobre a posição da psicanálise enquanto uma prática “burguesa”, agora fica muito claro, ao menos para mim, que ser analista em tempos sombrios (ou em qualquer tempo) é um ato político porque é dar lugar à palavra, é estar enlaçado desde seu próprio corpo para amparar de algum modo a dor que é do outro e também nossa.

A grande maioria dos meus pacientes está sofrendo brutalmente com a ascensão de um neofascista. Me parece que o divã é para os oprimidos, aqueles que não se "ajustam” aos imperativos do Outro. E não nos enganemos, se não nos reconhecemos como oprimidos, é porque estamos, direta ou indiretamente, do lado do opressor. Os opressores dificilmente chegam a um divã, ademais, como diria Lacan, "a psicanálise não é para os canalhas". Em um texto que escrevi falando sobre os motivos de um discurso de ódio ganhar tantos adeptos, fiquei estarrecida ao ler o seguinte comentário:

"somos todos iguais, essa dele ser racista, homofóbico entre outras não cola. Precisamos de uma pessoa imparcial doa a quem doer. Sou conservador. Sou negro sim, não quero privilégio por isso, sim direitos e condições igualitárias pra todos. O que importa é o respeito. Se uma pessoa falar que não gosta de negros, que não quer no seu lar, tranquilo, desde que respeite como cidadão".

Como alguém pode não se reconhecer como oprimido? Como alguém que não gosta de negro pode respeitá-lo como cidadão? Existe um hiato nesse discurso, e é justamente este hiato que chamamos de alienação.

A psicanálise é a peste, psicanalisar é um ato político. Nós psicanalistas, ainda mais num momento como este, fazemos parte de uma rede de escuta de um sofrimento atroz causado pela destruição dos corpos, da dignidade. Em alguns momentos não me restou outra opção a não ser compartilhar da dor que também é minha. Estaremos por aí, nos becos e nas ruas escuras, suportando a dor com nossa escuta. 



Nenhum comentário:

Postar um comentário