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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Por que Bolsonaro tem tantos eleitores?



Ontem me deparei com a postagem de um amigo de facebook que, de forma indignada, questionava: "Você que jamais agrediria alguém, mesmo assim você vota num cara desses?? Eu não entendo... juro que não". Eu tenderia a dizer que também não entendo. E você que está lendo este texto agora, entende? Mas não posso negar que sim, entendo. Por que o discurso de ódio de Bolsonaro ganhou tanta força? Para além de todos os motivos históricos, sociais e políticos que explicam essa necessidade de uma figura totalitária, que "salvará" o Brasil de todo o mal (amém), de toda a corrupção, de tudo o que é errado (não à toa compra muitos evangélicos), para além disso há um fato incontestável: o ódio é um afeto humano. Mas o que isso quer dizer?
Quer dizer que sim, humanos odeiam, mas que, no processo civilizatório (sempre a funcionar meia-boca) o "esperado" é que o recalque e toda a parafernália psíquica (deslocamento, sublimação, fantasia, etc) cumpra minimamente seu papel e nos permita construir laços com outros seres humanos sem levar ao ato a pulsão destrutiva/agressiva. O que Lacan chama de imaginário é essa instância na qual estaríamos presos à destrutividade ao outro, nosso semelhante, como aí estão presos os outros animais na disputa pela sobrevivência. Ocorre que aprendemos, via simbólico, que é possível sobreviver apesar do outro e com ele inclusive. Às vezes pode até ser gostosinho, ainda que o ódio possa se fazer presente vez ou outra.   
Voltemos aos porquês. Toda a parafernália psíquica é para que sejamos, com sorte, pessoas que lutam contra os impulsos destrutivos, a culpa inclusive, é civilizatória (uma análise ajuda a lidar com ela). Freud dizia que o perverso realiza aquilo que o neurótico recalca. Eu não poderia jamais afirmar que #elenão é perverso, mas seu discurso certamente o é. Quando alguém diz abertamente que estupraria uma mulher (a não ser que seja demasiado feia), que mataria veadinhos, que daria acesso legal a armas de fogo (ou seja, permitiria que matássemos com mais facilidade), que ter filha é fraquejar, e todas as outras pérolas a que já estamos enojados de ouvir, ele põe em ato aquilo que bem lá no fundo, secretamente, a maioria de nós já fantasiou. Então por que ele não leva 100% das intenções de votos? Porque, ainda que em alguma medida já tenhamos fantasiado inconscientemente qualquer umas dessas coisas, lutamos contra nossos impulsos mais destrutivos. Uma coisa é ter fantasias sexuais violentas com outra pessoa, outra bem diferente é ir até ela e estuprá-la. Não é por isso que os cinquenta milhões de tons de cinzas fazem tanto sucesso? Glória ao Senhor! Uma coisa é desejar que o outro morra (quem nunca?), outra bem diferente é matá-lo. Ainda bem que podemos sentir nojo desses discursos, sinal de que a parafernália funciona muito bem, obrigada. É porque funciona bem, é porque recalcamos, é porque não sabemos sobre nossa mais profunda miséria, que podemos nos perguntar com estranheza absurda: como alguém pode votar nele??
Comprar o discurso do Bolsonaro é dar vazão à nossa miséria, ao nosso ódio, porque ele legitima a destrutividade, é estar preso ao imaginário em grandes proporções e consequências. Não comprar e fazer campanha contra é para dizer que somos além disso que nos destrói e ao outro. Dizer não a ele e a quem tem a intenção de elegê-lo é gritar que não, não vamos parar de lutar contra o que faz de nós a pior espécie dentre os outros animais.  

P.S.: Ninguém precisa ser lulista, petista, feminista, "lgbtquista", comunista, etc., basta continuar querendo ser um humano dentre iguais que respeite as diferenças.
   

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