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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Naná Doida




Sábado último conheci Naná Doida. Eu estava com um problema de saúde e fui a uma Unidade de Pronto Atendimento daqui de Campo Grande. Sistema Único de Saúde. Eu sentada no meu canto, tentando me distrair para não ver o tempo passar, vejo uma mulher se deitando no chão, porque estava com dor na coluna. Pergunto: não quer se sentar aqui? Ao que ela responde: "Não, tem que ser no chão, depois tomo um banho de álcool pra limpar as bactérias". Ainda não passamos pela triagem, mas assim que isso acontece, ela senta lá bem longe do lugar onde estou.
Depois de um certo tempo, um homem começa a esbravejar porque não atendem sua mulher. Ele grita, pega o sobrenome de outra pessoa que foi anunciada (Machado - pena que não era o meu, gostaria de ter emprestado meu Machado simbólico a ele), e diz: "Machado é? Eu vou é pegar um machado e quebrar toda essa porra aqui!". Passa andando de um lado a outro e eu pergunto o que foi. Ele me diz: "minha mulher está sangrando por tudo quanto é buraco e ninguém atende!".
De repente, no meio da confusão, outro homem grita: "Bolsonaro!, Só ele pode resolver essa droga aqui!". Foi então que aquela mulher, a mesma que havia deitado no chão perto de mim no início da espera, começou a dizer, sem nenhum medo (como senti inveja dela por isso): "Que Bolsonaro o que, rapaz?! Ele vai é matar nós tudo pobre, veado, puta, preto. Vai fazer um paredão e fuzilar todo mundo!". Do outro lado, o defensor só sabia gritar o mesmo ritornelo: "Bolsonaro!". Como se o nome em si bastasse para que os problemas fossem resolvidos rapidamente, magicamente, sem deslizamento. "Ele vai mudar tudo isso aqui, vai limpar tudo". Ela, a minha já ídola, dizia: "Ele vai é enrabar o cu de todos vocês que votaram nele, seus idiotas".
Mais uma penca de gente é chamada para a próxima fila: a do atendimento. Eu fico ainda no outro segmento: a triagem. Quando me chamam, junto a mais uma penca de gente, para a outra espera, encontro lá a mulher, ainda esperando. Digo: você ainda está aqui esperando? E ela: "Oh, milha filha. Senta aí e relaxa. Vai esperar". Eu digo que sim, sei e que concordava com tudo o que ela tinha dito antes. Pronto, começamos a conversar de política. Eu mais ouvia do que falava, estava extasiada. "Esse homem vai matar os gay, as puta, os pobre". Eu ia dizer que não? "Eu tenho um filho gay que é o único que cuida de mim. Não quero que ninguém encoste a mão nele". Pensava que se o meu filho for gay, também não vou querer.
Comecei a perguntar da vida dela, do que fazia, sobre a dor nas costas. Me disse que trabalhou 35 anos como cozinheira, até que se aposentou por causa da dor: "Esses dias uma mulher me disse: ‘não gosto que fale mal do meu candidato’, eu falei ‘ah, é? Por que você não vai lá bater na porta do seu candidato e pedir pra sentar na mesa pra comer com ele? Ele vai é te dar um tiro no meio da cara, sua encardida!'. Se hoje eu tenho uma casa e comida é porque meu filho gay me dá. Se eu soubesse que um homem gay é tão bom, tinha feito logo uns dez. Onde que ele mora? Mora em Porto Alegre, tem um hotel de cachorro. A cachorra dele se chama Maria, minha neta. Precisa de ver o cabelo dela, é mais bonito que o nosso. Ah, eu também tenho cabelo branco já. Eu? Gostava de tomar cerveja quando era jovem. Não tomo mais porque agora tomo remédio. Vixi, qual? Eu tomo QUATRO remédios psiquiátricos, nem lembro o nome. Não sei não, não confio em cerveja sem álcool."
Fiquei pensando: se de um lado está a massa, unida pelo ódio ao diferente, ou pelo anti-petismo, o que nos agrega do lado de cá? Pensei horas sobre isso e acho que é somente no um a um, nos posicionando como sujeitos em nossas singularidades que estamos contra a onda que se ergue pela identificação maciça. Cada um de nós não quer este candidato por motivos particulares, mas temos empatia suficiente para sentir também a dor do outro.
Mas voltemos a ela: "Meu nome? No meu bairro me conhecem como Naná Doida." Fazia tempo que não conversava com alguém tão lúcido. Senti inveja de sua coragem de expor em alto e bom som as próprias ideias diante de uma massa insatisfeita que ria dela, tomando-a como louca. 

P.S.: Quando entrei no consultório, me deparei com uma médica angolana. Ela me disse que a filha dela também tinha um nome diferente. Não me lembro como era a pronúncia, provavelmente de alguma língua africana, mas significava Alegria.


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