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domingo, 25 de novembro de 2018

Religião se discute?



Religião não se discute. (Tomo aqui a posição de Lacan no texto O triunfo da Religião, ao afirmar que “há uma verdadeira religião, é a religião cristã"). Este é um preceito básico caso alguém opte por seguir uma religião: não discutir, não questionar, porque é algo que se sustenta em dogmas, em certezas, apesar do rol das incertezas humanas. E por falar em incertezas humanas, como elas são insuportáveis, não? Para onde nós, pequenos seres limitados, podemos direcionar as perguntas sobre o que é a vida, de onde viemos e para onde vamos? Onde enfiar toda a nossa construção narcísica, necessária para que constituíssemos nosso eu, depois que descobrimos que um dia vamos todos morrer? A ideia da morte é insuportável, a noção de que temos um tempo determinado para viver, pois somos finitos, é angustiante (mais para uns que para outros, basta algum tempo de escuta clínica para sabermos disso).
A religião é algo que dá respostas, que apazigua os questionamentos e traz esperanças sobre um outro lugar, uma continuidade. Aos 16 anos, quando comecei a descobrir isso, me tornei uma pessoa cética e até mesmo debochada em algumas ocasiões, pois carregava aquela arrogância típica dos adolescentes que acham ter feito uma grande descoberta. Hoje, depois da psicanálise, eu acho (mesmo) que a religião é absolutamente necessária para algumas pessoas, justamente aquelas que não suportariam o desamparo que é saber da castração, da finitude, e todas as coisas que nos colocam numa posição de objeto dejeto: só humanos e nothing more (como diria o corvo de Poe). Existe algo mais angustiante do que isso?
Pois bem, a religião traz respostas, dá sentido. Lacan dirá que "ela encontrará correspondência de tudo com tudo”, sendo esta, inclusive, sua principal função. Por isso acredita que triunfará, por ser inquebrantável, por serem "capazes de dar um sentido realmente a qualquer coisa, um sentido à vida humana, por exemplo". A religião secreta sentidos o tempo todo e, para segui-la, não faz sentido questionar, mas, sim, tomar as respostas como verdades e acalmar o coração. Por isso, Lacan diz ser “impossível imaginar quão poderosa ela é”. Talvez não tão impossível para nós que acabamos de eleger um líder político cujo discurso se baseava na limpeza da corrupção, na palavra do Deus justiceiro (o do velho testamento).
Bolsonaro é, segundo ele mesmo acredita, o próprio Messias (está no seu nome). E seus seguidores acreditam no poder dessa "limpeza”. Pelo que me lembro, há pelo menos duas passagens bíblicas em que a humanidade é reiniciada pelos bons: 1. No dilúvio (em que todos morrem exceto a família de Noé),  e 2. A destruição de Sodoma e Gomorra (desta eu não me lembro exatamente como acontece, mas soube recentemente por uma colega psicanalista, que tem um lance das filhas se deitarem com o pai para dar continuidade à humanidade – tá lá gente, o incesto é bíblico). Quando o mundo está muito cheio de liberdades, muito adepto às diversas formas de gozar, o chamado do pai ordenador é necessário. Num contexto de tamanha instabilidade em diversos níveis, as vozes clamam pelo ditador e, no caso do Brasil,  aglutinaram-se no bozo várias coisas: o ditador, o justo, representante de Deus, o mito (só faltaram citar Freud quando fala sobre o pai da horda primeva, aquele mesmo que é devorado pelos filhos).
A religião é uma representação macro para algo que já temos desde nossa formação psíquica, que obviamente é influenciada pelo macro (o contexto histórico e social), isso de estar submetido ao Outro, posição que afinal, teoricamente nos protegeria do desamparo por nos dizer que caminhos devemos seguir. Mas aquilo que é indicado não é a partir de nosso desejo, mas do Outro. Para a psicanálise, o poder deste Outro pode sim ser questionado. Não é o que justamente representa o discurso histérico? Mas este é um questionamento sem volta, porque uma vez começado o processo de travessia do fantasma, cada passo faz ruir um pedaço da ponte que nos garantiria o retorno.
No Discurso aos católicos, Lacan cita Freud para dizer que "o eu é feito das identificações superpostas à maneira de casca, espécie de armário cujas peças trazem a marca do tudo-pronto, embora a combinação não raro seja bizarra". Numa análise trata-se de despir-se, arrancar a casca e deixar as coisas na carne nua, na pele viva, já que essa imagem anterior de nós mesmos não nos contém em nada. Ainda que pareça uma imagem "imóvel, apenas seu esgar, sua flexibilidade, sua desarticulação, seu desmembramento, sua dispersão aos quatro ventos esboçam indicar qual é seu lugar no mundo".
Então, se a religião é para "curar os homens, isto é, para que não percebam o que não funciona", a psicanálise está num lugar completamente diferente, Lacan dirá “de muda”, para olharmos de frente para o que não funciona, para encararmos o real. É preciso uma coragem absurda, brutal, para seguir este caminho de suportar e dar um sentido próprio ao desamparo, à castração. Não ter respostas prontas é das coisas mais difíceis da vida. A religião triunfou, mas e quanto à psicanálise? Enquanto houver resistência, enquanto houver perguntas, enquanto houver espaço para dúvidas, questionamentos, singularidades, estaremos de mãos dadas na contra-mão.

P.S.: Para quem está com os dedos no gatilho para me xingar por este texto, lembre-se que ter uma religião não é o problema, o problema é achar que todos devem pensar de maneira igual, impor uma "república fundamentalista", nos termos de Vladimir Safatle, em seu texto na Folha: (https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2018/11/republica-fundamentalista.shtml).

Isloany Machado, 25/11/2018.

sábado, 17 de novembro de 2018

Será que meu amigo psicanalista fica me analisando?



Esta é uma dúvida que muitas pessoas têm e uma frase que nós da área psi sempre ouvimos logo que conhecemos alguém, seja na rua, na balada, no supermercado, na sala de espera do médico, "na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê”: “Você está me analisando?”. Em geral, as pessoas ficam deconcertadas quando descobrem nossa profissão, porque pensam que nós analisaremos cada palavra que disserem. Nem todas as palavras, mas ah, nós pensamos coisas sim. Pronto, falei. Vou dar uma de Mister M.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Naná Doida




Sábado último conheci Naná Doida. Eu estava com um problema de saúde e fui a uma Unidade de Pronto Atendimento daqui de Campo Grande. Sistema Único de Saúde. Eu sentada no meu canto, tentando me distrair para não ver o tempo passar, vejo uma mulher se deitando no chão, porque estava com dor na coluna. Pergunto: não quer se sentar aqui? Ao que ela responde: "Não, tem que ser no chão, depois tomo um banho de álcool pra limpar as bactérias". Ainda não passamos pela triagem, mas assim que isso acontece, ela senta lá bem longe do lugar onde estou.

Uma escuta que suporta a dor



(Para meus colegas psicanalistas)

Hoje saí do consultório me sentindo moída. Geralmente saio leve, mas hoje, depois de passar o dia ouvindo pessoas assustadas e com medo, tanto quanto eu, percebi que estou envolvida nisso inclusive com meu corpo. O sofrimento com o caos geral afeta os corpos, que se encolhem na poltrona à minha frente, ou no divã. Dias atrás fiz um post no facebook dizendo que possivelmente não haveria lugar para a psicanálise num regime ditatorial, porque num regime assim, não há lugar para a subjetividade, para a liberdade de pensamento. Acontece que a "liberdade caça jeito", como disse Manoel de Barros, e a subjetividade não pode ser suprimida, jamais.

Por que Bolsonaro tem tantos eleitores?



Ontem me deparei com a postagem de um amigo de facebook que, de forma indignada, questionava: "Você que jamais agrediria alguém, mesmo assim você vota num cara desses?? Eu não entendo... juro que não". Eu tenderia a dizer que também não entendo. E você que está lendo este texto agora, entende? Mas não posso negar que sim, entendo. Por que o discurso de ódio de Bolsonaro ganhou tanta força? Para além de todos os motivos históricos, sociais e políticos que explicam essa necessidade de uma figura totalitária, que "salvará" o Brasil de todo o mal (amém), de toda a corrupção, de tudo o que é errado (não à toa compra muitos evangélicos), para além disso há um fato incontestável: o ódio é um afeto humano. Mas o que isso quer dizer?