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quinta-feira, 1 de março de 2018

Insônia

Acordo na madrugada com o peito esmagado pela velha insônia. Acaricio o travesseiro implorando que me devolva a paz perdida. Olhos fechados para não abrir mão do fiapo de esperança, ilusão de que posso acalmar a agitação da vida que urge à minha revelia.
Mau presságio, viver é um sopro entre o grito da chegada e o desespero da partida. Enquanto brigo para dormir, dormir, dormir, alguém foi embora. No instante em que todo o meu corpo, olhos fechados, se agita prenhe da angústia do futuro, alguém rasgava as cortinas, olhos arregalados, para que o espetáculo não se encerrasse.
Mantenho o corpo estático, tentando derreter, palavra por palavra, esta saudade embrutecida de tudo o que não alcanço. A noite é silenciosa, a madrugada grita em meus ouvidos que acorde, acorde. Quem sou eu desde a chegada?
Vá para o diabo com os calmantes.
E esta música infinita? Devo dançá-la? Não sei se meu corpo obedeceria a este ritmo. Eu só queria dormir, dormir, dormir e acordar livre desta vontade de tocar a pele do mármore, de lamber a boca do céu. Sim, este céu que não se sabe onde começa e termina. Onde não se pode pisar correndo o risco de cair numa dobra do tempo.
Um choro de criança me interrompe. É a vida em seu desespero secando meus olhos. O coração duro, tentando se proteger dessa pata do tempo que o esmaga. Não é o passado que me dói, mas o futuro com suas memórias inconstantes, com os cortes desnecessários daquilo que poderíamos viver e não viveremos, porque a música acabou e continuaremos dançando até gastar a sola do pé.
E se fosse meu o último suspiro esta noite, poderia dormir? Sinto meu corpo se batendo independente da minha vontade, ave agitando as asas ignorando a hora chegada. Olhos ainda fechados, mantendo a mentira de que voltarei a dormir.
Desisto. O frenesi venceu meu corpo. O dia clareia e já não preciso mais acalentar o sono que há muito me abandonou. Sempre sou abandonada pelas perguntas que nunca faço a tempo.


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