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sábado, 2 de dezembro de 2017

Cartarresenha do livro Pai, Pai

Campo Grande, 02 de dezembro de 2017.

Querido João,

       Espero que não te assuste a intimidade com que esta leitora te escreve, mas é que tenho cultivado o hábito de escrever cartas-resenha de livros que me tocam e cujos autores são contemporâneos. Não sei como te agradecer pela publicação de Pai, Pai. Ele me caiu em mãos num momento muito oportuno, pois estou às voltas tentando entender a minha própria relação com meu pai. Sim, estou em análise faz um tempo. Inclusive, veja que coincidência: sou psicanalista. 
A história é muito longa e talvez precisasse tomar Pai, Pai como exemplo para escrever sobre isso, mas o fato é que me identifico fortemente com muitíssimas passagens deste seu livro todo escrito aos pedaços. Eu gosto muito de dizer que a análise é um processo de montagem de um quebra-cabeças velho em que algumas peças foram irremediavelmente perdidas. Cavamos, mexemos e remexemos as lembranças para montar os cenários e alguns deles permanecerão com diversos furos que só podemos contornar, criar algo sobre. Acho que é exatamente esta a impressão que seu livro me causou, a de um quebra-cabeças em que você vai expondo ao leitor os fragmentos que conseguiu reconstruir desta história toda. 
Foram muitas as passagens que me deixaram sem fôlego, ou em prantos. A cada passo precisava parar um pouco para respirar, então, obrigada pelos capítulos curtos. Logo de início quando você diz do quanto a ausência da figura paterna marca sua literatura, me colocou a pensar na ausência de meu pai também nas coisas que escrevo. Pensei que fosse, ao longo da leitura, desenterrar alguma dor minha, uma mágoa com meu pai, mas surpreendentemente foram outras descobertas que fiz. Voltarei a isso depois. Ao mesmo tempo em que sua história dói, é lindo o processo de "lamber as feridas". Aliás, que metáfora...
Fiquei encantada com seu retorno à infância e, sobretudo, ao desamparo infantil. Engraçado como tudo está lá, todos os medos, as angústias, tudo sendo preparado desde que nascemos (ou até mesmo antes, nas histórias familiares). Um pai que não represente esta figura protetora, ao contrário, seja o verdadeiro ícone do medo e da violência, só pode ser devastador. Mas, ao mesmo tempo, esta ausência ou a própria violência, em alguns casos (como no seu e de algumas pessoas), é justamente o que faz com que busquemos a saída na arte. Há uma vontade de viver para ver que suplanta o desejo de inexistir, tão recorrente.
Assim, podemos amar os desamparados, como um franguinho manco. Sabe, achei tão lindo este seu texto sobre como se apaixonou perdidamente pelo  frango...desde criança eu sempre me apaixonei pelos desamparados, pelos que exalam o peso das asas quebradas no olhar. Fiz disso até ofício, veja. Então me apaixonei por você desde que comecei a ler Pai, Pai, desde a cena em que ressurge do seu Jordão, constatando que era um homem sim, mas não como aqueles seus algozes (a primeira passagem de redenção). Na cena do refrigerante, substituído cruelmente, fiquei com o estômago revolto, meu corpo sentiu a dor do desamparo que você descreve ali. 
Assim também fiquei, devastada com a destruição da árvore de natal. Quase pude ouvir seus berros, mas foi ali que comecei a ter pena do seu pai. E me lembrei de uma vez, quando era criança e tinha feito um presente para minha mãe. O presente tinha dado um trabalho do caramba, levado semanas para ser feito na escola por mim e minha irmã. Tínhamos feito nossos nomes em gesso para o dia das mães, fizemos desde a massa até o acabamento, pintura, etc. Era de pendurar na parede e minha mãe assim o fez: pendurou os dois nomes na porta do nosso quarto. Minutos depois de pendurados, o meu nome (maior e mais pesado, sempre mais pesado) caiu e estilhaçou-se no chão. Chorei como um bezerro.
Que linda também a forma como você pontua sobre a sexualidade infantil. Ainda que muitas pessoas reneguem, praguejem e etc, não há como negar a genialidade de Freud ao retomar este assunto que é tão crucial em nossas vidas e que efetivamente marca nossas histórias, seja pela culpa, pelo nojo, ou prazer. De qualquer forma, ela (a sexualidade infantil) é inegável.
Eu queria correr até você quando conta da morte de sua mãe. Sério. Uma morte tão precoce, com tantas consequências. Sabe, João, eu costumo dizer que sou uma pessoa urgente e você também usa esse termo em mais de um momento do livro. Minha tendência é de sempre sair arrebentando as portas ao invés de esperar que alguém as abra para mim, mas confesso que "piorei" depois de um episódio em que tive muito medo de morrer. Daí em diante passei a não adiar nem por um minuto as coisas que quero. Certa vez fui parar na porta da casa do escritor Manoel de Barros sem aviso, porque precisava conhecê-lo pessoalmente, e conheci, e chorei, e o abracei. Dois anos depois ele se foi.
Depois da morte de sua mãe, confesso que só consegui sentir pena do José e quase morri com este trecho: "Enquanto a sirena da ambulância fazia seu espalhafato para o mundo abrir caminho à morte, eu peguei nas mãos desse homem destroçado e me vi declarando, num repente: 'Pode parecer que não, mas eu sempre amei o senhor'. Não conseguiria expressar de modo mais simples e direto. Sei que ele me ouviu e entendeu, pois seus olhos se encheram de lágrimas que desceram pelo rosto vincado por rugas em todas as direções. Junto com as lágrimas, de sua boca e nariz saíram alguns grãos de arroz cozido, talvez porque o tivessem obrigado a comer. Um sentimento engasgado veio à tona. Meu pai compreendeu que eu o perdoava".         
Chorei como um bezerro, de novo. Quanto desamparo, quão frágil e fugaz a vida. E sabe, João, por ter rompido aos 17 anos com minha origem cristã, tinha problemas com a palavra perdão. Achava muito religiosa, mas você me fez repensar isso. Quando Freud fala no processo de elaboração (como no texto Recordar, repetir, elaborar), me pareceu de repente que é disso que está falando. Como se precisássemos, para arrancar as diversas dores do peito, perdoar. Não somente ao outro que não nos dá o suficiente (nunca dá), mas a nós mesmos por termos cobrado tanto sem enxergar que eram crianças, como nós (narcísicas). Me parece que tudo não passa de uma briga narcísica em que sempre exigimos do outro o que ele não tem para dar. Assim o perdão perde completamente, para mim, o sentido cristão e já posso pensar nele como saída.
Que lindo seu processo de cura, que lindo o perdão. A análise nos coloca num trem fantasma em looping e passamos por incontáveis vezes diante das mesmas cenas até que mudem de lugar, de formato, até que percam as cores. Até que possamos romper o looping porque não mais precisamos daqueles velhos fantasmas para justificarmos nossas dores. Ao fim, é como diz uma frase de Exupèry em Terra dos Homens: "Nada mudou,  no entanto tudo está mudado". 
Seu livro me emocionou muito e me fez pensar coisas impensadas até então. Descobri que meu pai não me dói a não ser pelos efeitos de suas recusas, mas, assim como você, descobri que mesmo sendo uma semente lançada fora, a vida explodiu de dentro da minha casca e caçou jeito. A vida sempre caça jeito. Obrigada mais uma vez e parabéns pela coragem.

Com carinho, 
Isloany

P.S.: É, nós não somos mesmo "escravos do destino de quem nos gerou".



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