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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Resenha do livro Entropia, de Alexandre Marques Rodrigues



Quem acompanha meu blog sabe que, geralmente, minhas resenhas são cartas para os autores. Mas desta vez farei diferente, até porque fiquei algum tempo às voltas com Entropia e minha resenha é uma tentativa de montar um quebra-cabeças. Entropia caiu em minhas mãos porque fui convidada a mediar um bate-papo pelo Sesc em que o autor estaria presente. Este romance é daqueles que você começa a ler e, conforme os capítulos vão passando, em algum momento sente a necessidade de voltar ao início do jogo porque as coisas não estão fazendo muito sentido. Você volta e percebe que precisa anotar algumas coisas para não se perder na leitura.
Além disso, quando achei que havia alguma dificuldade minha na compreensão, parei tudo e fui buscar resenhas e comentários. Parecia, então, que a confusão fazia parte do processo. Mas acho que devo dizer algo já de início: para ler Entropia é preciso não estar com muita preguiça de pensar, porque se trata de um livro que demanda anotações, pesquisas, escavações, trabalho. Primeiro: o que é entropia? A definição só vem na página 109: “Grandeza termodinâmica que mede, em um sistema isolado, seu grau de irreversibilidade”. Antes disso é preciso querer saber. Então, para quem estiver interessado em fazer esta incursão, coloco aqui nesta resenha as “chaves de leitura” que usei. Vai que cola?
Primeira chave: Os capítulos são divididos em seis eixos:
Eixo 1 - História de Roberto (um homem casado) e Constantina (amante). Narrados em terceira pessoa.
Eixo 2 - História de Franz, narrado em primeira pessoa.
Eixo 3 - História de Cecília (esposa) e, a princípio ficamos sem saber se ela é a esposa do Roberto ou do Franz.
Eixo 4 - História de Bernardo, narrada em terceira pessoa. Bernardo em Franz têm algo em comum: ambos estão numa viagem. Bernardo procura o túmulo da mãe, mas ainda não sabemos direito o motivo da viagem de Franz até certo ponto do livro.
Eixo 5 - Biografia de Anton Stein em 4 + 1 capítulos (e só muito depois é que entendemos o motivo da biografia encravada no meio de tudo isso).
Eixo 6 – Estão preparados? Aqui você conclui, ao menos eu concluí (posso ter viajado na maionese) que Franz, Bernardo e Roberto são a mesma pessoa. Na verdade já dá pra ir sacando alguma coisa antes de chegar a este eixo em que os três são um só, narrados em primeira pessoa pela voz de Franz. Daqui puxo o gancho para a:
Segunda chave: A escolha dos nomes dos personagens
- Franz: significa francês.
- Bernardo (origem germânica): Ber [urso] + hart [forte]: forte como um urso.
- Roberto (origem germânica): Hruot [glória] + bertho [brilhante/afamado]: aquele que a glória tornou famoso.
Os significados dos três nomes remetem ao general francês Napoleão Bonaparte. Mas de onde diabos eu tirei isso? Da minha imaginação fértil? Não, senhores. Alexandre vai nos dando essa dica ao longo do livro. Durante as buscas do personagem três em um (Franz/Bernardo/Roberto), alguém diz a ele: você tem que estudar as batalhas perdidas por Napoleão, mas só aquelas que ele perdeu. Aí você, um leitor obediente, vai pesquisar e descobre que Napoleão perdeu quatro grandes batalhas:
- Trafalgar
- Moscow
- Leipzig
- Waterloo
Ora, vejam bem, são as quatro partes em que o livro é dividido! E por que Napoleão perdeu estas batalhas? Porque hesitou em atacar e foi atacado. Aí a sua imaginação de psicanalista que gosta dos significantes e dos pedaços deles te leva ao seguinte:
Entropia – En[trop]ia – tropo – tropista – tropa (do grego) tropos – ato de dar a volta.
E o que isso quer dizer? Não sei. Mas de alguma forma é como o livro faz você se sentir, dando voltas dentro de um sistema fechado.
Terceira chave: Principais temas
- Esgarçamento das relações representado pelo constante desencontro. Há desencontro de Franz/Bernardo/Roberto com as mulheres tanto no amor como no sexo, desencontro na busca pelo túmulo da mãe, e vários outros.
- Morte como um retorno ao nada, permanecemos no sistema fechado.
- Solidão e desamparo.
- O recuo diante das batalhas.
- Busca pela mãe (com quem não há nenhum laço, já que ela morreu quando ele era criança), como uma espécie de metáfora à busca pelo mito de origem.
Quarta chave: recursos de estilo
Aqui não tenho muita condição de esgotar os recursos utilizados por Alexandre, mas os que mais me chamaram a atenção foram:
- A mistura de tempos verbais numa mesma frase: “Sou quase virgem, ela disse, dizia, disse uma e outra vez”.
- Escrita entrecortada que lembra o trabalho de uma máquina. Este fato faz das cenas sexuais um trabalho mecânico e nada excitante para o leitor. O objetivo do Alexandre parece ser mais para falar do impossível do sexo do que do erótico em si.
Bem, foi assim que consegui decantar a leitura. Ainda que tenha feito assim, de forma esquemática, quero avisar a vocês que os temas trabalhados e a forma como o autor aborda são bastante tocantes. Espero que ajude!

Isloany Machado, 05/10/2017

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