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domingo, 21 de maio de 2017

Uma nau de dor e salvação


Nau dos Amoucos é o primeiro romance de Isloany Machado, que já nos deu dois belos volumes de contos e crônicas sobre literatura e psicanálise, Costurando palavras e Em defesa dos avessos humanos. Mas enquanto esses livros são marcados pela leveza e a aparente despretensão, tornando a leitura amena ainda quando os temas são fortes, o début ficcional de Isloany tem como grande marca a ousadia, valendo-se, por vezes, de uma estética de extremos para tratar de um tema, aliás, dois temas igualmente extremos: o amor e a loucura.

A isso alude, naturalmente, o estranho título do romance. “Amoucos” não é, como cheguei a pensar – e a própria autora me corrigiu, me obrigando a recorrer ao Google –, um neologismo alusivo a essas duas palavras-chave, amor e loucura, mas a sugestão semântica certamente participou da escolha (até porque a referência direta parece ser a nau dos loucos de Foucault). “Cheio de fúria, votado à morte; desesperadamente obcecado”: de fato, um amouco não difere muito de um amante louco, de um louco que ama ou quer amar desesperadamente.

E é esse o caso de Inácio, o protagonista do romance, e mais ainda o de sua mãe, Custódia. Em linhas gerais, Nau dos Amoucos se compõe do entrelaçamento das histórias desses dois personagens, e embora ela, a feminina, ocupe muito menos espaço que ele, sua importância não é menos capital: não tanto, talvez, na trama quanto no “espírito” da narrativa, com o detalhe de que é à dimensão subjetiva dos acontecimentos que a autora dedica a maior parte de seu empenho.

Ao mesmo tempo, é a história de Custódia, com sua pequena mas tumultuada sucessão de fatos dramáticos, que mais se investe de um conteúdo fabulístico no romance. Naturalmente, seria um desserviço revelar esse conteúdo ao leitor; basta saber que justamente aí, nessa cruel fábula moderna com ares naturalistas, amor e loucura se enredam de forma mais trágica. E é a efetiva loucura de Custódia que permite a Isloany abordar um assunto muito real e que, por sua formação psicanalítica, certamente lhe é caro: o do horror dos manicômios. A autora não se furta a descrever a mórbida existência da personagem na triste “montanha mágica”, uma irônica alusão ao romance de Thomas Mann, em que é internada: “Moscas insistentes, que se atraem, doentiamente, por cheiro de carne podre, eram os inquilinos que mais movimentavam cada canto. As pessoas eram restos humanos ainda vivos”.

No entanto, é em seu pertencimento ao conjunto da trama que a história de Custódia se revela em toda a sua importância. Pois é nesse desdobramento que Isloany trabalha a “loucura”, com aspas ou sem, dos ditos “normais”, certamente com aspas. “O louco é quem grita o meu sufoco”, diz a sabedoria empírica dos pichadores, enquanto um cantor vira e mexe tido como louco ou “alienado” complementa: “A certeza da certeza faz o louco gritar”.

Em linhas gerais, a trama de Nau dos Amoucos gira em torno das escolhas amorosas de Inácio, e de como as consequências dessas escolhas afetam seu estado emocional. Ao abrir mão da livre afirmação de seu desejo, mais que isso, da própria evidência da felicidade que se revelava a seus sentidos e sua consciência, Inácio se vê envolto por um crescente abismo de solidão e desamparo. A ânsia de resgatar um ideal amoroso da infância remete a uma ânsia e um desamparo mais fundamentais, onde a loucura da mãe certamente marca presença. E é justamente no ato de encarar essa chaga viva que se abre a possibilidade de superação para o personagem. Como isso se dá, e com quais consequências, também é melhor o leitor descobrir por si mesmo.

Por outro lado, é natural que, diante da tortuosa magnitude de Custódia, a figura de Inácio se descolora um pouco. O protagonista parece, às vezes, um trapalhão a quem a autora leva um pouco mais a sério do que ele merece. Ainda assim, para além mesmo das intenções ou afetos que enformam a narrativa, ou até porque esses afetos como que invocam os nossos no trato com o personagem, este tem o grande mérito de nos parecer vivo; e esta, certamente, é pelo menos metade da arte do ficcionista. Mesmo as passagens que parecem um pouco forçadas ou de verossimilhança duvidosa, como a de certa reação fisiológica ao fim de um ato sexual, têm uma força caracterizadora no mínimo provocadora.

Resta sublinhar a importância das outras duas personagens que, constituindo os objetos de desejo, cristalizam também as atitudes existenciais básicas de Inácio. Pois se Fabíola representa o retorno irrefletido, a aposta ilusória no mito de origem, Diana se alia à chance de escolha consciente, de reescritura do destino rasurado. Por via de uma, o passado de Inácio se fecha em si mesmo; pela outra, abre-se – sem dissolver-se, simplesmente – para o futuro.

Também a solução em que se configura essa abertura pode parecer frágil, no sentido de uma concessão excessiva ao personagem, mas ela comporta algo, também, de uma aposta, de um voto de confiança no humano – ou, mais especificamente, talvez, nos homens, enquanto, digamos (e complicações à parte), metade da espécie. Marcada por uma escrita eminentemente feminina, a ficção de Isloany se investe de uma potência desconstrutora face às contradições da masculinidade, ao mesmo tempo que as absorve a uma espécie de ritualística expiatória. Nesse impasse entre a radicalidade crítica e uma demanda redentora, mais ou menos correspondente à oscilação entre a crueza naturalista e o sentimentalismo romântico, talvez resida a principal aresta a ser trabalhada pela autoconsciência ético-estética da autora.


No mais, o estudo das técnicas narrativas e de construção do enredo e do espaço diegético, a atenção às mudanças de registro estilístico – por exemplo, no trânsito entre a voz sentenciosa do narrador (ou narradora?) e as falas mais prosaicas dos personagens – e ao ritmo da narração certamente ajudarão a lapidar o talento da jovem ficcionista, que já de início se arrisca a um salto tão ousado. Quem embarcar nessa nau certamente ficará ansioso por outras viagens de sua brava condutora.


Ravel Giordano Paz - Docente do curso de Letras da UEMS.

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