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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Relato de desejos sob custódia



Em tempos de uma liquidez que escorre por páginas literárias perdidas em discussões críticas bem mais afeitas às ânsias do mercado – lançamentos concorridos com o escritor em livrarias da moda; feiras e festas literárias em que a tônica são as ditas farsas e falas sobre cultura, como se a literatura não fosse cultura ou como não se bastasse para apresentação em público, mantendo seu trágico monólogo – do que à (in)satisfação de algo humano que resiste em nós, a Nau dos amoucos incomoda desde o título. Referência à obra A nave dos loucos, de Bosch? Paradoxo escondido no qualitativo “amouco”, designativo do sujeito obcecado pelo servilismo a algo, a alguém? Narrativa sobre a vida de um protagonista acostumado à loucura da mãe, alienada pela fúria paterna na contenção de seus desejos? Tudo ou nada disso?
            A leitura que me orientou foi a das referências e das coisas não ditas, tão somente sugeridas pelo narrador: um Camilo Castelo Branco com seus amores, ora de perdição, ora de salvação; uma folha flanando no parque, açodada pelo vento como no filme Beleza americana, contado por um sujeito de meia idade que redescobre o desejo pela vida próximo da morte; saber que nem todos os ditos loucos que passam por processo de educação para arte serão um Bispo do Rosário.
            No entanto, mais do que isso, foi a descoberta de que aquilo que usual e inadvertidamente se chama de loucura é um excesso de dor, de sofrimento, que precisa das palavras para que, oferecendo-se aos sentidos do outro, seja (su)portada, (trans)formada, adquirindo, quem sabe, seus primórdios de desejo.
            O próprio protagonista desta Nau, Inácio, percebe isso quando, retornado de suas andanças físicas ou não, escreve não somente um romance, mas sobretudo o bilhete final para Diana, alcunhada de “a caçadora”, caçada por ele durante 20 anos de sua vida.

            O romance de Isloany Machado é um belo exemplar de história de amor, de desejo e de loucura, guardada sob as asas de um olhar aparentemente esvaziado e morto de alguém que atende pelo nome de Custódia.

Rosana Zanelatto - Docente do curso de Letras na UFMS

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