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quarta-feira, 12 de abril de 2017

O que faz de alguém um escritor?



Perdi o sono às três e meia. Durante uma hora me debati na cama, tentando dormir de novo, mas não consegui. A cabeça fervilhando, com nada digno de preocupação. Nas horas insones é como se a cabeça ficasse grávida de pensamentos. Então, tecnicamente estou em trabalho de parto.
Tenho andado às voltas com um significante que me acompanha não só em relação ao ofício da escrita, mas no da psicanálise também. Não é raro que as pessoas me digam: “Publicou um livro é? Mas tão novinha!”. É algo que tem seu lado lisonjeiro, já que passei dos trinta e os cabelos brancos estão gritando. Mas fiquei pensando nisso, já que ouço frequentemente a palavra e nunca sei o que dizer diante disso.
Então, insone, pensei: o que faz de alguém um escritor? São as experiências acumuladas ao longo dos anos vividos? Tanto melhor será aquele que mais aniversários comemorou? Um escritor só poderá contar das experiências que vivenciou? Fiz e refiz as contas, relembrei coisas da minha vida, tirei o mofo das memórias e pensei: se os escritores escrevessem narrativas sobre suas próprias vidas, seria um tédio. A vida real é contada no relógio, temos hora para dormir e acordar, comer e banhar, não podemos sair pelados gritando no meio da rua e passar ilesos, na vida real. Mas na literatura, podemos tudo. Podemos contar coisas que não vimos, mas imaginamos. Podemos dizer coisas que ouvimos, que desejamos.
É de uma liberdade que não tem nome, que não tem preço. Mas voltemos à questão: o que faz de alguém um escritor? Penso que tem que haver uma pitada boa de imaginação, mas não é só isso. Tem que habitar em seus próprios desejos e se haver com isso. O escritor é alguém cuja casca precisa ser fina para que as trocas com o meio sejam mais fáceis. Por isso arrancamos as escamas que vão se formando todos os dias com as durezas da vida, para que estejamos sempre à flor da pele. É preciso que o ouvido esteja sempre aberto, que os olhos se direcionem para aquilo que realmente importa. E o que realmente importa não tem nada a ver com o que está aí para ser visto. É preciso cultivar a sensibilidade em relação ao que se vive.
Para ser escritor, é preciso que as palavras ainda sirvam de brinquedo, como na infância. A pior coisa que pode acontecer é deixar que a língua fique endurecida pelas regras. O melhor é a língua solta, porque daí as possibilidades são infinitas. A escrita nada tem a ver com a idade da pessoa que escreve, mas com uma tendência de sentir a dor alheia. De se transvestir da pele do outro, seja ele quem for. O escritor é um que consiga se despir dos seus próprios preconceitos ou, dos que carrega, que possa ser sincero e falar sobre eles, até que caiam por terra. Amigos, não há outro modo possível que não seja a fala, a escrita, nos caso. Sentir as próprias dores é de todos nós, mas sentir as dores do outro, somadas às nossas próprias, e poder transformar isso em palavras é uma dor que faz sentido. Ousaria dizer que é gostosinho, ao menos para mim.
Já são quase cinco e meia e a vida real me chama. O relógio, por mais que eu quisesse esquecê-lo, desperta dizendo: “Vá, novinha, que você tem que trabalhar. Ou vai ficar aí catando borboletas?”. Me desculpem pelos devaneios e pelas borboletas. Deve ser efeito da insônia.        
   

Isloany Machado, 12/04/2017. 

2 comentários:

  1. ISloany felizarda! Consegue pensar em nada preocupante durante sua insônia! Esse post me fez pensar em outras coisas também na sua pergunta - não sei responder. Concordo super com vc: a sensibilidade ao outro é fundametnal à arte. Há uma coisa que gosto de chamar de urgência subjetiva, um sentimento de urgência, que me impele a escrever e se não o faço, sufoco... Um beijo, continua escrevendo porque leitores não se oferecem em número - né? - mas em qualidade.

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  2. Marcia Neder você falou em urgência subjetiva, de sentimento de urgência, sufocar, a pintura também é assim.Muitas vezes parece que explodirá se o ato não se completar. Engravida-Se também. Tania Nascimento

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