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terça-feira, 11 de abril de 2017

Cartarresenha sobre Tekoha: em busca da terra sem males




Campo Grande, 10 de abril de 2017.

Querido Antonio,

            Há sete anos você foi meu professor de Direitos Humanos e já era possível perceber sua sensibilidade, mas o romance me surpreendeu, muito. Não porque eu não te imaginasse capaz de escrevê-lo, mas porque essa poesia é tão rara...
            Tekoha chegou em boa hora, pois, coincidentemente estou revisando uma dissertação de antropologia que me fez ler os termos indígenas com uma grande familiaridade. Fiquei pensando no quanto sua formação, mas sobretudo sua vivência, te influenciou na escrita deste romance. É uma escrita de dentro, de quem viu, e não de quem só ficou sabendo do assunto.
            Achei linda a forma como você fala desse “sobrenatural” da cultura indígena, algo tão desvalorizado pela nossa sociedade embrutecida, enceguecida pelo dinheiro, pela produção, pela utilidade das coisas (aqui se incluem as pessoas). Se não serve pra nada, se não produz, pode/deve ser descartado. É uma lógica que não entra na minha cabeça. Faço e refaço as contas, mas confesso que não consigo entender. Será que nós estamos errados em nossos gritos de defesa pelos indígenas, pelos loucos? Às vezes parece que perco a voz.
            Seu romance me emocionou muito, pela beleza, mas também pela crueza de uma verdade que me parece tão difícil de engolir. Às vezes o amor nos parece tão potente que poderia vencer qualquer coisa, mas há aspectos dessa (des)humanidade que parecem invencíveis. A força bruta despedaça as delicadas pétalas do amor. Porque este é como a arte, a literatura: só podem ser um grito contrário a essa ordem maluca das coisas. Nem sempre vencemos, quase nunca vencemos. Mas sua história me fez pensar que há uma pureza que seguirá indestrutível.
            Seu casal, à la Romeu e Julieta, a-morte-cidos de amor e dor. Chorei muito pela perda da inocência. Essa perda é de cada um de nós. Seu urubu, companheiro da velha, me soou como o corvo de Poe, com seus tristes ais. Nunca mais olharei uma fuligem como uma fuligem, para sempre será uma borboleta negra morta e sem destino. Obrigada pela poesia desta metáfora.
            Quanto ao karaí (homem branco), eu queria ser o urubu, apesar de, estranhamente (no sentido do “estranho” freudiano) ter sentido uma pitada de captura pela força do desejo dele pela menina. Somos estranhos de nós mesmos. Não posso dizer porque queria ser o urubu para que esse texto não seja spoiler, mas você entenderá meus motivos.
            Você toca também em um assunto delicado, que é o decidir morrer, tão mal ou pouco falado em todos os cantos. Mas que não é tão incompreensível algumas vezes. Veja, naquele ataque químico sofrido pela Síria, vi a reportagem de um homem que enterrou 25 pessoas da família. Você ia querer continuar vivo? E quanto aos sobreviventes do holocausto? É possível continuar vivendo quando já se está morto há muito tempo? A velha, como um tronco de árvore, tinha a seiva vinda da menina, assim como Itakara. Isso é o amor, é fazer laços.
            Me emocionou muito a parte em que Xiru Mingué não sabe mais quem é sob os olhos e as palavras do karaí. Chorei muito, porque me dói a redução de um sujeito a nada, a um resto, a coisa nenhuma. É assim que nossa sociedade tem tratado os indígenas (não só eles), mas estão aqui do lado. Quando você (ou seu narrador) descrevia Narã Poty, parece que era de mim que estava falando. Me dói a minha própria impotência.
            Seu romance é lindo. Espero o próximo já.

Um abraço e parabéns,

Isloany

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