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sexta-feira, 7 de abril de 2017

07 de abril de 2017



Oi.


Já faz tempo, né? Parece que foi ontem, mas lá se foram cinco anos. Às vezes ainda sonho com você, geralmente perto de alguma data importante, seu aniversário, sua partida, coisas assim. Nem sempre consigo te escrever porque quase nunca tenho o que dizer. É tão difícil às vezes. No último sonho você estava vivo, mas eu sabia que não. Muitas coisas mudaram nesse tempo todo, mas você não está aqui para ver. Fico pensando em como seria a próxima vez que nos encontraríamos. Frase cuja conjugação é até difícil: futuro do pretérito. Tempo verbal das coisas que poderiam ter sido, mas não serão. Eu não queria ficar lamentando as coisas que poderiam ter sido, mas às vezes é inevitável. Por outro lado, não sei se seria bom pra você se ainda estivesse aqui. É tanta merda acontecendo, não só aqui no nosso país como no mundo, que tem dias que acordo e nem sei o sentido de mais nada. Mesmo assim queria que você tivesse continuado, que sua vida tivesse continuado, mas sei que é egonarcisismo meu. A vida era sua, a decisão de continuar ou não também. Essa semana aconteceu um ataque com armas químicas na Síria, imediatamente pensei em você quando vi a notícia. Pensei em você porque eu também não queria ver essas coisas, mas estando aqui, não há como não ver. Eu tento fechar os olhos para que algo faça sentido, mas não faz. Nada nisso tudo faz sentido. Estamos, se você quer saber, mergulhados num mar da mais podre miséria humana. Somos miseráveis. Era isso que você não queria ver? Não queria saber? Ou será que havia um lodaçal interno que te afogava da vida? Como eu poderei saber? Sei bem que muitas vezes a fuga era sua melhor saída, mas eu não estava aí pra ouvir o que você poderia estar sentindo. Talvez eu esteja me dando uma importância que no fundo nem tinha. Mas o fato é que você foi embora mudo e calou a todos. Aqui no Brasil as coisas não estão das melhores também. Estou com o cu trancando de medo de elegerem um presidente completamente intolerante. Nem sei se concordaria com minhas ideologias políticas, mas se votasse num cara desses, eu mesma acabava com você. Que piadinha de mau gosto. Desculpe. Ia dizer que foi um ato de coragem o que cometeu, mas agora já não sei se é isso que eu penso. Foi covardia diante da vida? E então por acaso a corajosa sou eu, que estou aqui vendo tudo acontecer e não faço nada? E o que eu poderia fazer? Talvez você tenha percebido mais cedo do que eu o quanto somos impotentes diante da necessidade que nós humanos temos do nosso próprio extermínio. Não é exatamente o que estamos fazendo? Matando o outro, matamos a nós mesmos. Você cortou caminho. Preciso te dizer que acho que vou morrer do estômago. É onde minha impotência humana se canaliza, sinto dor, sinto queimação, sinto a vida arder dentro dele. Parece que está cada vez menor. Onde estava concentrada sua impotência? Na cabeça? Que coragem. Sabe, estando aqui, viva, as alegrias perdem um pouco a cor sempre que me lembro de tudo o que está acontecendo. Não sei onde foi parar minha coragem, minha vontade de mudar o mundo. Talvez o que me salve seja justamente a arte. Jesus salva? Porra nenhuma. Não tenha medo do inferno. O inferno é aqui, no mundo dos vivos.     

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