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domingo, 26 de março de 2017

Em cinco anos


O que se faz em cinco anos?
Em cinco anos se faz uma faculdade (foi o tempo do meu curso de Psicologia).
Há cinco anos a vida deu uma reviravolta desde que tomei um soco no estômago com a morte do meu primo. Morte que me fez repensar meus próprios julgamentos sobre o suicídio, sobre a autonomia do sujeito em poder e querer viver.
Há cinco anos, desde o soco no estômago, descobri que tudo o que eu quero é viver. Loucamente. Não viver loucamente. Mas loucamente, viver. É da ordem do desejo, do querer, inconsciente e consciente.
Há cinco anos, desde aquele soco, época em que estava a ler Água Viva, de Lispector, outro chute no saco (que nem tenho, mas descobri com a psicanálise que gostaria de ter), escrevi para ela (Lispector) uma carta. Ela já morreu, mas ontem entendi o que quer dizer a expressão lacaniana de que “uma carta sempre chega a seu destino”. A carta não era para ela, mas para mim. A carta, cujo destinatário era “mim mesma”, me disse que escrever pode aliviar algumas dores.
Há cinco anos, desde a carta, a palavra ficou solta em mim. Afrouxada. Facinha de ir pra ponta dos dedos.
Em cinco anos perdi as contas das palavras que escrevi.
Em cinco anos a vida muda. Em cinco anos, a vida, muda, agora fala.
Há cinco anos descobri ao mesmo tempo em que entendi que a vida tem mesmo estrutura de ficção. Despreguei-me aos poucos das palavras que me colavam à minha história. Assim pude inventar histórias.
Em cinco anos se tem filhos e o tempo fica mais curto. Ou mais longo, dependendo do ponto de vista. O tempo para as palavras escritas não é mais o mesmo, mas há um sujeitinho chamado Adriano composto de pura palavra e, se as palavras que me saíam da ponta dos dedos ficaram mais escassas, as palavras faladas entre nós são lambidas de lalangue.
Há cinco anos encontrei uma liberdade da qual ninguém mais me subtrai.
Em cinco anos nasceu em mim um desejo que já não me caibo. Trans-bordo.
Há cinco anos fui resgatada. De onde? Da teia que arranha o corpo.
Há cinco anos fui resgatada? Muito passivo. Talvez há cinco anos eu tenha resgatado a menina que fui, aquela que escrevia no diário: “estou escrevendo um livro”. Ah, como o desejo é capaz de não sofrer os desgastes temporais que minha pele ou meu cabelo, por exemplo, sofrem. Isso não é realmente impressionante? Em cinco anos são já incontáveis os fios brancos. É isso a teia que arranha o corpo. Fios tecidos pelo tempo.
Há cinco anos escrevo. Não só porque gosto, mas porque queria cravar com letras o destino escolhido por mim. Acho que é por isso que escrevo. E também porque queria que me lessem. Como na infância via meu pai pelos cantos a ler livros. Eu queria ser livro para que ele me lesse.
Há cinco anos, enfim, sou livro.
Há cinco anos, enfim, estou livre.
Há cinco anos, enfim, me livrei.


Isloany Machado, 26/03/2017

(aniversário de cinco anos do blog Costurando Palavras).

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