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quinta-feira, 30 de março de 2017

Às cinco horas da manhã

São cinco horas da manhã e o sono me perdeu. Isso mesmo, foi ele que me perdeu. Dificilmente eu o perderia às cinco, já que mesmo quando me acontece de ter insônia, este é um horário em que o corpo já parou de se debater e está entregue, vencido. Mas eu preciso escrever e não tenho outro tempo. As pessoas me perguntam: por que não escreve mais? Então decidi que vou levantar todos os dias nesse mesmo horário para escrever, durante uma hora, até que eu tenha que acordar de verdade e me preparar para o trabalho. Como não me sobra tempo pra muita coisa, eu poderia usar esta uma hora para várias outras atividades.
Poderia, por exemplo, acordar às cinco para ir fazer uma caminhada, fones no ouvido, tênis com amortecedores, para preservar a coluna que anda bem ferrada. Se bem que eu tenho uma leve desconfiança de que meu tênis já deve estar prestes a descolar-se todo, já que faz mais ou menos um ano e meio que não faço exercícios. Correr atrás de filho conta como atividade física? Mas essa minha hora é sagrada e eu vou usá-la para escrever.
Também poderia usar esse precioso tempo para dar uma faxinada na casa, tirar a poeira dos móveis, dar uma meia-sola no quintal que, com esse tempo, vive com caramujos subindo pelos muros. Dias atrás, inclusive, estávamos todos lá fora comendo pipoca e meu filho de um ano e meio andava pra lá e pra cá, brincando e comendo pipoca, notei que tinha algo na boca e pensei (na verdade nem sei se pensei mesmo): é algum piruá que está bamboleando na boca. Algum tempo depois ele chegou perto de mim e cuspiu: um filhote de caramujo. Isso mesmo, um caramujinho, daqueles que aprendemos na escola que dá um monte de doenças esquisitas, ex-quicitas, esquistossomose. Não é isso? Corri pro pai dele gritando: O guri tava chupando um caramujo! O pai, que é mais apavorado que eu, já estava prestes a pegar o kit primeiros socorros, quase quis fazer respiração boca a boca e massagem cardíaca no menino. Eu, apavorada, esquistossomada, gritava por calma.
Mandei mensagem pro médico explicando a situação: Doutor, estávamos comendo pipoca e achando que o guri tinha um grão na boca, mas quando vi era um caramujinho. Tem algo que devemos fazer? Três horas depois, quando já estávamos achando que éramos pais negligentes, quando rezávamos para que nunca uma assistente social colocasse os pés na nossa casa, ele respondeu: Fique tranquila. Desde então passei a ver com bons olhos os caramujos. Em outros lugares do planeta as pessoas comem, não é? Escargô que chama? Iguaria. Meu filho é que sabe o que é bom na vida, pois ele passou uma boa meia hora chupando o caldinho do bicho. Proteína. Nesses tempos de carne podre e papelão, um caramujinho até que vai bem.
Mas eu estou aqui enrolando, já são cinco e meia e eu ainda não escrevi nada. O dia está clareando. Fiquei pensando que eu podia ainda aproveitar esse tempo pra estudar, já que isso também me faz tanta falta. Despertador toca, interrompo o sonho, desgrudo os olhos, faço a verificação do lugar em que estou no mundo, levanto, faço xixi e em seguida pego algum texto dos Escritos ou quem sabe dos Outros Escritos para ler. Podia tentar iniciar a leitura do Seminário 23, sobre o sinthoma.
Ou quem sabe podia usar o tempo pra ler literatura clássica, já que me enveredei pro lado da escrita e todos prescrevem: há que se ler um clássico por pelo menos uma hora durante o dia. Devia começar por Ulisses, de Joyce que peguei emprestado de um amigo há meses e que todo mundo diz ser bom. Mas eu confesso que já comecei algumas vezes e não consegui entender a primeira página. Será que melhora depois? Eu podia tentar Ulisses em jejum, quem sabe? Tem gente que acorda às cinco e toma água de ameixa antes de levantar e ir pra academia, pra poder fazer o intestino funcionar. Joyce podia me servir de inspiração para a escrita, já que o intestino vai bem, obrigada. Ou será que é muito pesado pra esse horário?
Esse horário é bom porque o filho está dormindo. O marido também. A cachorra também e aí não fica latindo e não me atrapalha na concentração. Eu não consigo escrever com barulho. Até já escrevi um texto um dia enquanto coloquei o menino pra assistir desenho, mas ficou tenebroso. Enquanto todos dormem, fica perfeito. Mas eu não posso desperdiçar essa hora, preciso escrever, que é uma das duas coisas que eu mais gosto de fazer na vida. A outra é atender, mas duvido que alguém ia querer esse horário. Imagina só, uma pessoa me liga e pergunta qual o próximo horário em que eu poderia atendê-la e eu respondo: que tal amanhã às cinco da madrugada?
Mas acontece que eu não posso viver sem escrever. Preciso escrever porque isso me faz viver. Então, acordar às cinco vai ter que ser como um projeto fitness que as pessoas colocam em prática depois do carnaval todo ano. Tem que ter força de vontade. Assim poderei planejar o novo romance. Terei todos os dias das cinco às seis para escrever e está resolvido.
Rapaputaquepariu, já são seis horas e eu ainda não escrevi nada. Amanhã eu começo.  


    

Isloany Machado, 30/03/2017. 

Um comentário:

  1. Somos um pouco parecidos - às vezes o sono também me perde, só que isso costuma ocorrer às 2 hs da madrugada. É a hora que pululam na mente longos trechos de romances, contos, histórias incríveis, que jamais foram iniciadas. Sempre postergo a escrita para quando o dia clarear. Mas, como num passe de mágica, tudo desaparece, às vezes não me recordo sequer das linhas gerais do que havia urdido durante a vigília. Voce tá certa em se levantar, sentar-se diante da tela em branco e deixar registrado, no calor da inspiração, seus devaneios literários. É uma prova de compromisso e de amor pela literatura. Ass.: José Rubens - Advogado em Goiânia.

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