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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Sou psicanalista porque fracassei



Mamãe queria que eu fosse médica. Era seu sonho. Desde criança ela o quis para si, ser médica. Não podendo, pediu a mim, desde criança, que realizasse seu desejo. Queria realizar seu desejo em mim, por procuração. Sempre tive na cabeça que faria isso, mesmo que em meu diário registrasse que estava a escrever um livro. Às vezes, os desejos da mãe são inquestionáveis. Mas não por muito tempo quando se tem uma filha histérica. Estudei a vida toda porque gostava de estudar e lembro que no terceiro ano fazia jornada dupla, manhã e tarde, para entrar na medicina. Chegadas as provas, não passei. Foi meu primeiro e grande fracasso. A reação de mamãe não foi boa. Ela esperava muito de mim. Disse que eu não havia feito tudo o que podia. Talvez não tivesse feito mesmo. Tinha motivos para isso.
         No ano seguinte, nada me esperava além do cursinho pré-vestibular. Uma chatice. As mesmas piadas feitas pelos mesmos professores. No fim do túnel, a medicina. Enquanto isso aprendia outras coisas, lia Machado de Assis, Clarice Lispector, Cecília Meireles...Ah, Cecília Meireles...De repente o professor disse sobre ela: “Sua escrita é intimista, muito influenciada pela psicanálise. A teoria do inconsciente que investiga as profundezas do ser humano através de um processo de análise”. Pergunto ao professor: "Como faz pra ser psicanalista?”. De seu conhecimento sobre o assunto, disse: “Creio que precisa fazer psicologia e depois uma formação em psicanálise”.
         Passados os dias, esqueci o ocorrido. Passados os meses, recebi um panfleto da UFMS fazendo propaganda da Medicina em Dourados, mas atrás, no lugar dos cursos esquecidos pela mídia acadêmica, estava listada a psicologia. O desejo foi maior do que eu e me engoliu. Cheguei em casa e disse pra mamãe: “Vou fazer psicologia”. Ela chorou, rangeu dentes, tentou demover a ideia da minha cabeça. Apelou a outras pessoas para que me convencessem de que isso não dava dinheiro. O pai também: “Filha, se for pra fazer qualquer cursinho, faz aqui mesmo”. Não dei ouvidos. O desejo é ensurdecedor.
         No mês seguinte estava estudando psicologia em outra cidade, 700km longe deles, mas trazendo na bagagem todos os meus fantasmas. Lá pelas tantas encontrei Lacan, nos estudos, na análise, nas palavras. Foi uma espécie de reencontro. Passei anos ouvindo as pessoas depois que me formei, até ter um estalo: eu estava sendo a primeira leitora de histórias que estavam sendo reeditadas. Coisa que só uma análise é capaz de fazer. Entendi finalmente o que quis dizer Lacan: “Fazer análise é escrever sem caneta”. Mas decidi meter a caneta quando entendi que as neuroses têm estrutura de ficção.
         Na infância, a literatura me salvou do tédio da vida religiosa imposta pela família. Na adolescência, me salvou disso também e ajudou a encontrar respostas para os absurdos da vida. No mestrado, me salvou da linguagem acadêmica. No suicídio do primo, me salvou da loucura. Foi quando comecei a escrever, de fato, e reencontrei a menina escritora do diário. Ou seja, a literaCura. Minhas duas profissões são quase idênticas: quando escrevo, edito meus próprios livros e textos, quando sou analista, ajudo, fingindo de morta, as pessoas a escreverem e editarem em tempo “real” suas próprias ficções. E tudo isso só é possível porque fracassei. Tanto a literatura quanto a psicanálise só sabem falar dos fracassos. Se houvesse sucesso, ninguém precisaria nem de uma nem de outra. Mamãe até hoje não se conforma com meu fracasso, mas eu não sabia que seria tão feliz sendo tão fracassada.      


Isloany Machado, 16/11/2016.

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