Aqui você encontrará textos sobre psicanálise, literatura e meus escritos literários.

Precisa de revisão ortográfica? Venha para a Oficina do Texto: Clique aqui!

Leia aqui o texto que inspirou o nome do Blog!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Cartarresenha E se eu fosse puta

Campo Grande, 20 de fevereiro de 2017.

Minha doce Amara,

Terminei de ler seu livro absolutamente capturada, estarrecida e completamente modificada. E que maravilha é poder te dizer isso. Escrever é algo tão corajoso! Escrever sobre prostituição é ousado. Mas ser protagonista do seu próprio enredo, sem medo do julgamento, sem pudores com a língua, é tão verdadeiro! É como alcançar o caroço de si cortando um atalho.

Para ler seu livro é preciso estar nu. Você me convidou a entrar em suas páginas despida de qualquer preconceito, porque para ler suas histórias é preciso enxergar além das narrações. É preciso ouvir sua humanidade. Ainda estou nua e não quero mais as velhas roupas.

O começo...ah, o começo é excitante! Mas na medida em que o prazer vai se transformando em uma certa revolta, muitas vezes senti vontade de pegá-la no colo e dizer que estava tudo bem, que nada de ruim poderia te acontecer. Mas ora, quem sou eu? Uma mulher, tal qual você, que deseja ardentemente ser vista, admirada, respeitada. E que precisa de tudo (ou só) isso para poder desejar também, e se sentir viva. Puta ou santa. Você conhece alguma santa? Nem eu.

Se ser santa é calar os próprios desejos, preferiria ser puta. Se ser puta é amar esse lugar de causar desejo, somos todas putas. Como na passagem em que você se entrega aos braços fortes do pedreiro, descobrindo um jeito de se sentir mulher, amolecendo-se em seus braços de homem que te achava linda. Acima de tudo, somos todas mulheres a construir nossa feminilidade, sempre.

Já dizia a sábia Simone: Ninguém nasce mulher, todas nos tornamos. Porque não há algo que nos defina a princípio. Ainda bem! Assim, temos a liberdade de sermos quem quisermos ser. Mas também é curioso isso de que o olhar do outro nos ajude (ou será que atrapalha?) nessa construção, inclusive da feminilidade.

Há uma pergunta que permeia essa sua trajetória: Qual é o meu valor como mulher? E parece que com o tempo você foi percebendo, no convívio com os “lixos”, que vale muito mais do que imaginava. Porque o que vale é o que você pôde fazer com isso: a escrita. Essa escrita revolucionária. 
Se inicialmente te excitava o cheiro de suor “de macho”, aos poucos, conforme se empodera como mulher, passa a incomodá-la a falta de higiene desses sujeitos que te procuram nos becos escuros, com suas bocas mal lavadas (achei isso tão forte e verdadeiro!), para realizarem aquilo que só admitiriam procurar na prostituição. Nas vitrines em que os corpos desfilam sob olhares que não dizem nada.

É como puta que você descobre seu valor de mulher. A que quer e pode ser desejada como quiser. Tomei emprestado alguns significantes seus que, no fim, se os emprestei é porque são meus também, e levei pra minha análise. Obrigada por isso. Já li um bocado de livros, de vários eu gostei, mas alguns, raros, já tiveram o poder de salvar minha vida. O seu é um deles. Estou modificada. Beatiputificada. Nudificada. Você me deixou eternamente nua. Obrigada.

Um abraço,
Isloany

P. S.: Ah, antes que eu me esqueça, doce amarga Amara, você é linda.


Nenhum comentário:

Postar um comentário