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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Carta sobre Em defesa dos avessos humanos



Olá Isloany,
Li "Em Defesa dos Avessos Humanos" em uma longa viagem para casa, entre aviões e 10 horas de espera em aeroporto, estava calor e eu não tinha dormido muito bem, primeiramente devo dizer que suas palavras foram boas companheiras nessa jornada cansativa. Assim como uma canção, a literatura marca em minha vida pequenos recortes temporais, releio livros e relembro o que sentia, quais eram meus dilemas, meus prazeres e em que ponto eu estava em minha jornada comigo mesmo; não foi diferente com "Em Defesa dos Avessos Humanos". Não foi a toa (nunca é) que suas palavras se marcaram nesse pequeno recorte temporal pessoal de uma viagem para casa, após 1 ano e meio distante, distante por escolha, distante de questões que precisava lidar e me implicar, justamente escolhi ler um livro que fala sobre desejo, relações familiares, literatura, psicanálise, morte, subversão, objeto "a", Manoel de Barros, amor e quantos mais significados pessoas e palavras possam desbravar. Relendo-o agora para escrever essa carta, relembro do quão angustiante foi essa viagem e como foi importante voltar pra casa e resolver pendências, falar o que deveria ser dito e reencontrar os prazeres de meu antigo lar. Seu livro tem temas diversos como se propõe a ser, alguns com uma escrita bem humorada, expressões divertidas e estranhas sob o olhar de um nortista como "o creme do verão", outros tem o peso da angústia nas palavras e outros possuem palavras sobre um olhar sutil do cotidiano. Os temas são diversos, porém sob minha ótica tocam na mesma questão, sobre a árdua tarefa de "ser" em um mundo modelado pelo outro, ser e sustentar seja lá o que desejarmos. Nos dias de hoje vemos a ascensão da intolerância e a tentativa de impor modos de vida conservadores, enquadrantes e sufocantes, os avessos sobreviveram, sobrevivem e quem sabe com muita luta, nós Os Avessos Humanos, pararemos de sobreviver e finalmente viveremos nossas vidas da maneira que quisermos viver. Costumo achar que um bom livro quebra não só nossas expectativas, como quebra nossas lógicas, preconceitos e implica-se como um novo significante que implicará em novos significados posteriores, um bom livro abre novas possibilidades de ser e estar, pelo menos é o que a literatura significa para mim. Seu livro se marcou e implicará significados em meu futuro, além de ser uma inspiração para entusiastas da escrita como eu, obrigado pela companhia e continue a escrever (se assim desejar) com essa leveza e fluidez bem humorada e também com o peso da angústia evanescente que se torna física através de palavras, palavras são navalhas como diria o sumido Belchior, são também um abraço em alguém que amamos após um longo período distante, palavras são ver e significar, construir nossos universos únicos e solitários com amor sobre a falta e a falta sobre o amor, com arte e vida. Virginia Woolf nos diz que um dos motivos para ler, seria torcer pelos autores em suas histórias singulares, repleta de experiências e uma vida que o levou a escrever o que escreveu, o outro motivo, este na pós-leitura, seria formar nossa própria opinião e ter um olhar crítico sobre o que lemos, porém o real motivo pra ler seria o prazer de ler, um prazer complexo e difícil, que varia de época para época e de livro pra livro, mas este prazer é suficiente, assim como a leitura de seu livro. "Na verdade o prazer é tão grande que não se pode ter dúvidas de que sem ele o mundo seria um lugar muito diferente e muito inferior ao que é. Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo." (Woolf, Virginia, mil novecentos e bolinha.)
Com apreço, Alain K.

PS: em Macapá usamos uma expressão parecida com "o creme do verão" que é "a polpa da bacaba".

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Cartarresenha Os filhos da mãe



Campo Grande, agosto de 2016.
Querida Marcia,

            Infelizmente não pude ir ao lançamento de seu livro aqui em Campo Grande, mas sabia que este era um livro necessário, ainda mais depois da maternidade. Por falar nela, tenho um Adriano que está para fazer um ano. E como as coisas mudaram desde o nascimento dele! Pra começar, o parto já foi o marco do quanto não temos nenhum controle sobre a vida do outro. Ele veio prematuro por causa de uma pré-eclâmpsia e descolamento de placenta, no oitavo mês. Ficamos 19 dias no hospital e eu não havia me preparado nem um pouco para isso. Foi caótico porque eu não conseguia dormir e, imagine, claro que fiquei meio “surtada” e “paranoica”, não querendo desgrudar dele nem por um momento, achando que só eu sabia cuidar dele. Só pude voltar ao estado normal (leia-se: escovar os dentes, pentear os cabelos e passar um batom) depois que uma pessoa bem importante para nós furou meu narcisismo e onipotência dizendo que eu não poderia dar conta de tudo. Eu sentia muito medo de perdê-lo. Enfim, desse quase um ano pra cá, claro que a vida mudou radicalmente. Assim como você, tive que reduzir minhas atividades, mas fiquei só dois meses completamente em casa. Aos poucos fui voltando a atender, a escrever, ler, e etc. Quando o Adriano estava com nove meses o pai dele saiu do emprego e aí o pequeno deixou de ser um “filho da mãe”.
            Eu comprei seu livro porque queria ler logo pra emprestar pra minha irmã. Quando comecei a leitura d’Os filhos da mãe, já achei fantástico o fato de você escrever em seu nome (primeira pessoa), assumindo a autoria de sua história com a maternidade. Marcia, seu livro é incrível. A minha vontade era de comprar uma caixa inteira dele e, depois de distribuir para todas as minhas amigas, sair pela rua panfletando Os filhos da mãe, dizendo para as pessoas: “Olá! Você gostaria de se livrar das culpas da maternidade?”, quase como as pessoas costumam dizer: “Oi, você já conhece a palavra de Deus?”. Todas as pessoas deveriam ler, pelos seguintes motivos:
- Mulheres que são mães: pelo motivo mais óbvio que é entender porque se sentem tão culpadas e poderem se livrar desse sentimento.
- Mulheres que ainda não são mães, mas desejam sê-lo: entender o peso histórico que nossa cultura coloca sobre a maternidade para que possam se preparam melhor, sabendo que incluir o pai é necessário. Para que saibam também que ter filhos não precisa ser um bicho de sete cabeças desde que se lide com isso de forma mais leve. Não acho que seu livro desmotiva as mulheres de terem filhos. Pelo contrário.
- Mulheres que não querem ser mães: para que saibam que não é preciso ter filhos caso este não seja um desejo. Desejando já é difícil, imagine sem esse quesito fundamental? Desobrigar-se da maternidade é amar um filho que nunca virá e, portanto, não terá que arrastar o saquinho de ossos das neuroses familiares. Isso também não é amor?
- Homens que são pais: para que entendam o peso histórico que nossa cultura coloca sobre a mulher/mãe e para que não sejam eles ainda mais um peso. Para que sejam pais de fato.
- Homens que ainda não são pais, mas desejam sê-lo: Para que se preparem para uma grande mudança na vida, pois a paternidade não é só estar com os filhos na hora de brincar.
- Homens que não querem ser pais: para que assumam isso e banquem seu desejo.
- Mulheres e homens cujos filhos já saíram de casa: para que se reconciliem com seu passado e se reinventem como homens e mulheres desejantes.
            Enfim, esse livro tinha que ser incluído como leitura necessária em todas as faculdades, devia ser prescrito como remédio para todas as mulheres que sofrem de depressão pós-parto, baby blues e similares, devia ser diluído na água dos bebedouros das escolas.
            Só fiquei com uma questão: será que os casais homo não repetem também o binarismo “função materna X função paterna”?
            Marcia, traduza seu livro para muitas línguas, todos precisam dele, mesmo os xiitas da maternolatria. Quem sabe mesmo sob pedradas você consiga furar essa onipotência?
            
Muito obrigada!

Um abraço,

Isloany

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Cartarresenha E se eu fosse puta

Campo Grande, 20 de fevereiro de 2017.

Minha doce Amara,

Terminei de ler seu livro absolutamente capturada, estarrecida e completamente modificada. E que maravilha é poder te dizer isso. Escrever é algo tão corajoso! Escrever sobre prostituição é ousado. Mas ser protagonista do seu próprio enredo, sem medo do julgamento, sem pudores com a língua, é tão verdadeiro! É como alcançar o caroço de si cortando um atalho.

Para ler seu livro é preciso estar nu. Você me convidou a entrar em suas páginas despida de qualquer preconceito, porque para ler suas histórias é preciso enxergar além das narrações. É preciso ouvir sua humanidade. Ainda estou nua e não quero mais as velhas roupas.

O começo...ah, o começo é excitante! Mas na medida em que o prazer vai se transformando em uma certa revolta, muitas vezes senti vontade de pegá-la no colo e dizer que estava tudo bem, que nada de ruim poderia te acontecer. Mas ora, quem sou eu? Uma mulher, tal qual você, que deseja ardentemente ser vista, admirada, respeitada. E que precisa de tudo (ou só) isso para poder desejar também, e se sentir viva. Puta ou santa. Você conhece alguma santa? Nem eu.

Se ser santa é calar os próprios desejos, preferiria ser puta. Se ser puta é amar esse lugar de causar desejo, somos todas putas. Como na passagem em que você se entrega aos braços fortes do pedreiro, descobrindo um jeito de se sentir mulher, amolecendo-se em seus braços de homem que te achava linda. Acima de tudo, somos todas mulheres a construir nossa feminilidade, sempre.

Já dizia a sábia Simone: Ninguém nasce mulher, todas nos tornamos. Porque não há algo que nos defina a princípio. Ainda bem! Assim, temos a liberdade de sermos quem quisermos ser. Mas também é curioso isso de que o olhar do outro nos ajude (ou será que atrapalha?) nessa construção, inclusive da feminilidade.

Há uma pergunta que permeia essa sua trajetória: Qual é o meu valor como mulher? E parece que com o tempo você foi percebendo, no convívio com os “lixos”, que vale muito mais do que imaginava. Porque o que vale é o que você pôde fazer com isso: a escrita. Essa escrita revolucionária. 
Se inicialmente te excitava o cheiro de suor “de macho”, aos poucos, conforme se empodera como mulher, passa a incomodá-la a falta de higiene desses sujeitos que te procuram nos becos escuros, com suas bocas mal lavadas (achei isso tão forte e verdadeiro!), para realizarem aquilo que só admitiriam procurar na prostituição. Nas vitrines em que os corpos desfilam sob olhares que não dizem nada.

É como puta que você descobre seu valor de mulher. A que quer e pode ser desejada como quiser. Tomei emprestado alguns significantes seus que, no fim, se os emprestei é porque são meus também, e levei pra minha análise. Obrigada por isso. Já li um bocado de livros, de vários eu gostei, mas alguns, raros, já tiveram o poder de salvar minha vida. O seu é um deles. Estou modificada. Beatiputificada. Nudificada. Você me deixou eternamente nua. Obrigada.

Um abraço,
Isloany

P. S.: Ah, antes que eu me esqueça, doce amarga Amara, você é linda.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Sou psicanalista porque fracassei



Mamãe queria que eu fosse médica. Era seu sonho. Desde criança ela o quis para si, ser médica. Não podendo, pediu a mim, desde criança, que realizasse seu desejo. Queria realizar seu desejo em mim, por procuração. Sempre tive na cabeça que faria isso, mesmo que em meu diário registrasse que estava a escrever um livro. Às vezes, os desejos da mãe são inquestionáveis. Mas não por muito tempo quando se tem uma filha histérica. Estudei a vida toda porque gostava de estudar e lembro que no terceiro ano fazia jornada dupla, manhã e tarde, para entrar na medicina. Chegadas as provas, não passei. Foi meu primeiro e grande fracasso. A reação de mamãe não foi boa. Ela esperava muito de mim. Disse que eu não havia feito tudo o que podia. Talvez não tivesse feito mesmo. Tinha motivos para isso.