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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Prefácio do livro Alma Desnuda



Conheci Gabriela em 2013, quando fui sua professora no curso de psicologia da UFMS. Depois nos reencontramos em outro contexto, por causa da literatura na fronteira com a psicanálise. Gabriela bateu asas e voou com suas letras e aqui está o resultado da poesia que corre em suas veias. Neste seu livro de estreia, a menina desnuda a alma diante do leitor e mostra a grandiosidade do que há do lado de dentro, desse avesso que tanto insiste. Os temas da dor de existir, do ser mulher em um mundo que nos tenta colocar cerca, da loucura, do amor, da paixão, dentre outros, estão presentes para capturar nossos olhos para além da efêmera beleza daquilo que um dia, certamente, morrerá. O eu lírico deixa turvamente claro, com seus gritos e paradoxos, que não há nada para além das palavras, coisa nenhuma para além dos buracos que nos preenchem e das dúvidas em que nos agarramos. A dúvida é sempre melhor do que a certeza – pressuposto psicanalítico.
            A poesia de Gabriela está toda permeada pela psicanálise, o que talvez seja o motivo do convite para prefaciar seu primeiro livro. Está tudo aqui: o inconsciente, a resistência, a latência, a psicose, a suspensão das certezas, o desejo, as pulsões, a vida e a morte. Mas tudo desenhado de uma forma tão sedutora que quem ler ficará imediatamente envenenado e morrerá docemente, sem saber do quê. Foi assim, envenenada pela poesia de Cecília Meireles, que conheci a psicanálise. Em muitos momentos as palavras de Gabriela me lançaram de volta àqueles tempos, e o que me veio à cabeça foi o poema Motivo: “Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta”. Qual é o motivo do poeta? O instante. Ele pode ser alegre ou triste, menina ou mulher, mulher ou homem. Não há limites para a escrita. Parece que Gabriela descobriu na escrita seu motivo, sua (des)razão e seu sentido. Tenho que concordar com ela de que não há salvação a não ser quando nos agarramos com dentes e “unhas vermelhas” nas palavras. A palavra corta a pele e tenta dar sentido ao que não pode dizer nada.
            Convido o leitor para entrar com os dois pés nesse obscuro mundo das palavras que recobrem uma alma desnuda, deixando-se seduzir pela beleza da poesia que vem da força de um grito mudo.        
Isloany Machado

Psicanalista e Escritora.

P. S.: Para quem tiver interesse em adquirir o livro, vejam o recado da autora:
"Oi, galera bonita! Hoje quero compartilhar com vocês uma realização minha. Estou prestes a publicar meu primeiro livro, que será recheado de poesias que falam sobre o amor, a loucura, a amizade, a mulher e também muita coisa sobre mim. Por esse motivo o nome do livro: Alma Desnuda. Pois me desnudo de maneira sutil e poética, entregando com delicadeza minhas experiências e sentimentos. O livro sairá por apenas 15 reais (+ taxas de entrega). Seria uma honra ter um pedaço da minha história com vocês! Para mais informações, mandem inbox ou me contatem pelo email: gabrielarichenaferreira@gmail.com 
Em breve trarei mais informações!"

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O tempo do fantasma em Meu malvado favorito 3

Quem me conhece sabe que eu adoro animações. Quem gosta de animações sabe que muitas delas não são feitas para crianças, mas para os pais, que têm nos filhos uma boa desculpa para ir ao cinema ver desenho. Pois bem, por que estou falando essa baboseira toda? Porque dias atrás, depois de uma abstinência de quatro meses, fomos ao cinema levar nosso sobrinho para assistir Meu malvado favorito 3. Se você não conhece, vou resumir o enredo da trilogia em algumas palavras.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Mar adentro



            No fim de semana passado estive em Aracaju a trabalho. Na verdade não sei dizer muito bem se o que eu faço é trabalho, já que falei de literatura num dia e psicanálise no outro. Mas a isso chamamos de trabalho de transmissão. Aproveitando a viagem, fomos todos: filho, marido, papagaio, periquito, etc. Ficamos empolgados porque Adriano, que ainda não tem dois anos completos, teria a oportunidade de conhecer o mar. Eu só o conheci aos 14 anos. Foi lindo, mas não teve uma vez que eu fosse e não tivesse alergia a não sei quê. Trabalho finalizado, nossa amiga Alba resolveu nos levar à praia. Ficou encantada quando soube que seria a primeira vez do Adriano.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Carta de uma psicanalista para uma puérpera



Minha querida,

            Já faz uns dias que queria te escrever, mas imagino que a correria aí esteja grande e pode ser que nem tenha muito tempo para ler esta carta. Bem, vou torcer para que sim. Serão apenas alguns minutos. São tantas coisas pra dizer e me pego sem saber por onde começar. Talvez deva começar te dando parabéns pelo nascimento do seu bebê. Não é o que todo mundo faz? Parece clichê ter que responder a isso o tempo todo, não é? “Obrigada”, você deve estar cansada de responder. Mas não precisa me dizer nada.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Sobre tudo o que excrevemos




Não, você não leu errado. Também não foi um erro de digitação. O “x” está sim no meio da palavra. Vou explicar. Desde que comecei a escrever, tenho andado às voltas com uma questão. É que inevitavelmente sinto uma repulsa pelas coisas que escrevo um tempo depois de tê-las escrito. Isso me deixava bastante chateada até um tempo atrás, porque, sendo uma autora independente, crescia a dificuldade em conseguir vender meus livros. De modo que meu desejo era sempre de publicar coisas novas, ainda que houvesse uma pilha dos livros já publicados todos por serem vendidos. Pois bem, ainda que Lacan seja incompreensível, tempos atrás, li no Seminário 20 a expressão: “publixo”. A escrita como algo que sai de nós para o lixo.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Cartarresenha sobre o livro Rebentar

Campo Grande, 05 de julho de 2017.
Querido Rafael,

            Quando te ouvi falando sobre a temática do Rebentar durante o evento do Sesc, meu primeiro pensamento foi: não conseguirei ler esse livro. Um filho extraviado da mãe há mais de trinta anos e um trabalho de luto que não se encerra. Pareceu insuportável demais pra mim. Mas mesmo assim me investi de coragem e decidi fazer a travessia. Só durante a leitura é que fui pensando no motivo da minha inicial covardia. Tem algo em mim, desde muito cedo, que treme diante da possibilidade de perder um filho. Desde a infância eu me esborrachava de chorar quando alguém cantava pra mim a música do galinho que se perde da família: “há três noites que eu não durmo, pois perdi o meu galinho, coitadinho, pobrezinho...”, conhece? Mas o medo não parou por aí.

sábado, 24 de junho de 2017

Cartarresenha sobre A instrução da noite



Querido Maurício,

            Ainda ontem te disse que minhas leituras andavam a passo de tartaruga e que provavelmente demoraria a terminar seu livro, mas acontece que depois do aparecimento do Lucas no meio da história, não consegui mais parar. Coloquei o menino pra assistir desenho e o pobre ficou sem comer até às oito da noite, quando terminei A instrução da noite. Só então voltei a ser mãe e a cuidar das outras coisas da vida. Eu sei que esta pode ser só mais uma resenha do seu livro, já tão bem-falado, mas escrevo mais por mim que por você. Era preciso dizer algo sobre ele, já que, ao contrário do seu personagem-narrador, eu sempre opto por desembuchar.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Eu nunca tinha amado assim


Dizem que o amor é algo que tira a gente de órbita. Você não consegue pensar em mais nada quando está nesse estado de apaixonamento. Mas o apaixonamento é algo passageiro, pois aos poucos você vai vendo os defeitos da pessoa, e, mesmo que o amor não acabe, a sofreguidão diminui. O enluaramento da mente diminui. Mas acontece que há um ano e três meses eu tenho experimentado um amor novo. Um amor de mãe. Me sinto boba desde o dia que ele nasceu. Mas o boba não é só no sentido de encantada, é no sentido de bocó mesmo. Isso não vai parecer nada amável, mas vamos lá. Há tempos estou devendo esta crônica para minhas amigas mães.

domingo, 21 de maio de 2017

Uma nau de dor e salvação


Nau dos Amoucos é o primeiro romance de Isloany Machado, que já nos deu dois belos volumes de contos e crônicas sobre literatura e psicanálise, Costurando palavras e Em defesa dos avessos humanos. Mas enquanto esses livros são marcados pela leveza e a aparente despretensão, tornando a leitura amena ainda quando os temas são fortes, o début ficcional de Isloany tem como grande marca a ousadia, valendo-se, por vezes, de uma estética de extremos para tratar de um tema, aliás, dois temas igualmente extremos: o amor e a loucura.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Relato de desejos sob custódia



Em tempos de uma liquidez que escorre por páginas literárias perdidas em discussões críticas bem mais afeitas às ânsias do mercado – lançamentos concorridos com o escritor em livrarias da moda; feiras e festas literárias em que a tônica são as ditas farsas e falas sobre cultura, como se a literatura não fosse cultura ou como não se bastasse para apresentação em público, mantendo seu trágico monólogo – do que à (in)satisfação de algo humano que resiste em nós, a Nau dos amoucos incomoda desde o título. Referência à obra A nave dos loucos, de Bosch? Paradoxo escondido no qualitativo “amouco”, designativo do sujeito obcecado pelo servilismo a algo, a alguém? Narrativa sobre a vida de um protagonista acostumado à loucura da mãe, alienada pela fúria paterna na contenção de seus desejos? Tudo ou nada disso?

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O que faz de alguém um escritor?



Perdi o sono às três e meia. Durante uma hora me debati na cama, tentando dormir de novo, mas não consegui. A cabeça fervilhando, com nada digno de preocupação. Nas horas insones é como se a cabeça ficasse grávida de pensamentos. Então, tecnicamente estou em trabalho de parto.
Tenho andado às voltas com um significante que me acompanha não só em relação ao ofício da escrita, mas no da psicanálise também. Não é raro que as pessoas me digam: “Publicou um livro é? Mas tão novinha!”. É algo que tem seu lado lisonjeiro, já que passei dos trinta e os cabelos brancos estão gritando. Mas fiquei pensando nisso, já que ouço frequentemente a palavra e nunca sei o que dizer diante disso.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Cartarresenha sobre Tekoha: em busca da terra sem males




Campo Grande, 10 de abril de 2017.

Querido Antonio,

            Há sete anos você foi meu professor de Direitos Humanos e já era possível perceber sua sensibilidade, mas o romance me surpreendeu, muito. Não porque eu não te imaginasse capaz de escrevê-lo, mas porque essa poesia é tão rara...

sexta-feira, 7 de abril de 2017

07 de abril de 2017



Oi.


Já faz tempo, né? Parece que foi ontem, mas lá se foram cinco anos. Às vezes ainda sonho com você, geralmente perto de alguma data importante, seu aniversário, sua partida, coisas assim. Nem sempre consigo te escrever porque quase nunca tenho o que dizer. É tão difícil às vezes. No último sonho você estava vivo, mas eu sabia que não. Muitas coisas mudaram nesse tempo todo, mas você não está aqui para ver.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Às cinco horas da manhã

São cinco horas da manhã e o sono me perdeu. Isso mesmo, foi ele que me perdeu. Dificilmente eu o perderia às cinco, já que mesmo quando me acontece de ter insônia, este é um horário em que o corpo já parou de se debater e está entregue, vencido. Mas eu preciso escrever e não tenho outro tempo. As pessoas me perguntam: por que não escreve mais? Então decidi que vou levantar todos os dias nesse mesmo horário para escrever, durante uma hora, até que eu tenha que acordar de verdade e me preparar para o trabalho. Como não me sobra tempo pra muita coisa, eu poderia usar esta uma hora para várias outras atividades.

domingo, 26 de março de 2017

Em cinco anos


O que se faz em cinco anos?
Em cinco anos se faz uma faculdade (foi o tempo do meu curso de Psicologia).
Há cinco anos a vida deu uma reviravolta desde que tomei um soco no estômago com a morte do meu primo. Morte que me fez repensar meus próprios julgamentos sobre o suicídio, sobre a autonomia do sujeito em poder e querer viver.
Há cinco anos, desde o soco no estômago, descobri que tudo o que eu quero é viver. Loucamente. Não viver loucamente. Mas loucamente, viver. É da ordem do desejo, do querer, inconsciente e consciente.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Carta sobre Em defesa dos avessos humanos



Olá Isloany,
Li "Em Defesa dos Avessos Humanos" em uma longa viagem para casa, entre aviões e 10 horas de espera em aeroporto, estava calor e eu não tinha dormido muito bem, primeiramente devo dizer que suas palavras foram boas companheiras nessa jornada cansativa. Assim como uma canção, a literatura marca em minha vida pequenos recortes temporais, releio livros e relembro o que sentia, quais eram meus dilemas, meus prazeres e em que ponto eu estava em minha jornada comigo mesmo; não foi diferente com "Em Defesa dos Avessos Humanos". Não foi a toa (nunca é) que suas palavras se marcaram nesse pequeno recorte temporal pessoal de uma viagem para casa, após 1 ano e meio distante, distante por escolha, distante de questões que precisava lidar e me implicar, justamente escolhi ler um livro que fala sobre desejo, relações familiares, literatura, psicanálise, morte, subversão, objeto "a", Manoel de Barros, amor e quantos mais significados pessoas e palavras possam desbravar. Relendo-o agora para escrever essa carta, relembro do quão angustiante foi essa viagem e como foi importante voltar pra casa e resolver pendências, falar o que deveria ser dito e reencontrar os prazeres de meu antigo lar. Seu livro tem temas diversos como se propõe a ser, alguns com uma escrita bem humorada, expressões divertidas e estranhas sob o olhar de um nortista como "o creme do verão", outros tem o peso da angústia nas palavras e outros possuem palavras sobre um olhar sutil do cotidiano. Os temas são diversos, porém sob minha ótica tocam na mesma questão, sobre a árdua tarefa de "ser" em um mundo modelado pelo outro, ser e sustentar seja lá o que desejarmos. Nos dias de hoje vemos a ascensão da intolerância e a tentativa de impor modos de vida conservadores, enquadrantes e sufocantes, os avessos sobreviveram, sobrevivem e quem sabe com muita luta, nós Os Avessos Humanos, pararemos de sobreviver e finalmente viveremos nossas vidas da maneira que quisermos viver. Costumo achar que um bom livro quebra não só nossas expectativas, como quebra nossas lógicas, preconceitos e implica-se como um novo significante que implicará em novos significados posteriores, um bom livro abre novas possibilidades de ser e estar, pelo menos é o que a literatura significa para mim. Seu livro se marcou e implicará significados em meu futuro, além de ser uma inspiração para entusiastas da escrita como eu, obrigado pela companhia e continue a escrever (se assim desejar) com essa leveza e fluidez bem humorada e também com o peso da angústia evanescente que se torna física através de palavras, palavras são navalhas como diria o sumido Belchior, são também um abraço em alguém que amamos após um longo período distante, palavras são ver e significar, construir nossos universos únicos e solitários com amor sobre a falta e a falta sobre o amor, com arte e vida. Virginia Woolf nos diz que um dos motivos para ler, seria torcer pelos autores em suas histórias singulares, repleta de experiências e uma vida que o levou a escrever o que escreveu, o outro motivo, este na pós-leitura, seria formar nossa própria opinião e ter um olhar crítico sobre o que lemos, porém o real motivo pra ler seria o prazer de ler, um prazer complexo e difícil, que varia de época para época e de livro pra livro, mas este prazer é suficiente, assim como a leitura de seu livro. "Na verdade o prazer é tão grande que não se pode ter dúvidas de que sem ele o mundo seria um lugar muito diferente e muito inferior ao que é. Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo." (Woolf, Virginia, mil novecentos e bolinha.)
Com apreço, Alain K.

PS: em Macapá usamos uma expressão parecida com "o creme do verão" que é "a polpa da bacaba".

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Cartarresenha Os filhos da mãe



Campo Grande, agosto de 2016.
Querida Marcia,

            Infelizmente não pude ir ao lançamento de seu livro aqui em Campo Grande, mas sabia que este era um livro necessário, ainda mais depois da maternidade. Por falar nela, tenho um Adriano que está para fazer um ano. E como as coisas mudaram desde o nascimento dele! Pra começar, o parto já foi o marco do quanto não temos nenhum controle sobre a vida do outro. Ele veio prematuro por causa de uma pré-eclâmpsia e descolamento de placenta, no oitavo mês. Ficamos 19 dias no hospital e eu não havia me preparado nem um pouco para isso. Foi caótico porque eu não conseguia dormir e, imagine, claro que fiquei meio “surtada” e “paranoica”, não querendo desgrudar dele nem por um momento, achando que só eu sabia cuidar dele. Só pude voltar ao estado normal (leia-se: escovar os dentes, pentear os cabelos e passar um batom) depois que uma pessoa bem importante para nós furou meu narcisismo e onipotência dizendo que eu não poderia dar conta de tudo. Eu sentia muito medo de perdê-lo. Enfim, desse quase um ano pra cá, claro que a vida mudou radicalmente. Assim como você, tive que reduzir minhas atividades, mas fiquei só dois meses completamente em casa. Aos poucos fui voltando a atender, a escrever, ler, e etc. Quando o Adriano estava com nove meses o pai dele saiu do emprego e aí o pequeno deixou de ser um “filho da mãe”.
            Eu comprei seu livro porque queria ler logo pra emprestar pra minha irmã. Quando comecei a leitura d’Os filhos da mãe, já achei fantástico o fato de você escrever em seu nome (primeira pessoa), assumindo a autoria de sua história com a maternidade. Marcia, seu livro é incrível. A minha vontade era de comprar uma caixa inteira dele e, depois de distribuir para todas as minhas amigas, sair pela rua panfletando Os filhos da mãe, dizendo para as pessoas: “Olá! Você gostaria de se livrar das culpas da maternidade?”, quase como as pessoas costumam dizer: “Oi, você já conhece a palavra de Deus?”. Todas as pessoas deveriam ler, pelos seguintes motivos:
- Mulheres que são mães: pelo motivo mais óbvio que é entender porque se sentem tão culpadas e poderem se livrar desse sentimento.
- Mulheres que ainda não são mães, mas desejam sê-lo: entender o peso histórico que nossa cultura coloca sobre a maternidade para que possam se preparam melhor, sabendo que incluir o pai é necessário. Para que saibam também que ter filhos não precisa ser um bicho de sete cabeças desde que se lide com isso de forma mais leve. Não acho que seu livro desmotiva as mulheres de terem filhos. Pelo contrário.
- Mulheres que não querem ser mães: para que saibam que não é preciso ter filhos caso este não seja um desejo. Desejando já é difícil, imagine sem esse quesito fundamental? Desobrigar-se da maternidade é amar um filho que nunca virá e, portanto, não terá que arrastar o saquinho de ossos das neuroses familiares. Isso também não é amor?
- Homens que são pais: para que entendam o peso histórico que nossa cultura coloca sobre a mulher/mãe e para que não sejam eles ainda mais um peso. Para que sejam pais de fato.
- Homens que ainda não são pais, mas desejam sê-lo: Para que se preparem para uma grande mudança na vida, pois a paternidade não é só estar com os filhos na hora de brincar.
- Homens que não querem ser pais: para que assumam isso e banquem seu desejo.
- Mulheres e homens cujos filhos já saíram de casa: para que se reconciliem com seu passado e se reinventem como homens e mulheres desejantes.
            Enfim, esse livro tinha que ser incluído como leitura necessária em todas as faculdades, devia ser prescrito como remédio para todas as mulheres que sofrem de depressão pós-parto, baby blues e similares, devia ser diluído na água dos bebedouros das escolas.
            Só fiquei com uma questão: será que os casais homo não repetem também o binarismo “função materna X função paterna”?
            Marcia, traduza seu livro para muitas línguas, todos precisam dele, mesmo os xiitas da maternolatria. Quem sabe mesmo sob pedradas você consiga furar essa onipotência?
            
Muito obrigada!

Um abraço,

Isloany

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Cartarresenha E se eu fosse puta

Campo Grande, 20 de fevereiro de 2017.

Minha doce Amara,

Terminei de ler seu livro absolutamente capturada, estarrecida e completamente modificada. E que maravilha é poder te dizer isso. Escrever é algo tão corajoso! Escrever sobre prostituição é ousado. Mas ser protagonista do seu próprio enredo, sem medo do julgamento, sem pudores com a língua, é tão verdadeiro! É como alcançar o caroço de si cortando um atalho.

Para ler seu livro é preciso estar nu. Você me convidou a entrar em suas páginas despida de qualquer preconceito, porque para ler suas histórias é preciso enxergar além das narrações. É preciso ouvir sua humanidade. Ainda estou nua e não quero mais as velhas roupas.

O começo...ah, o começo é excitante! Mas na medida em que o prazer vai se transformando em uma certa revolta, muitas vezes senti vontade de pegá-la no colo e dizer que estava tudo bem, que nada de ruim poderia te acontecer. Mas ora, quem sou eu? Uma mulher, tal qual você, que deseja ardentemente ser vista, admirada, respeitada. E que precisa de tudo (ou só) isso para poder desejar também, e se sentir viva. Puta ou santa. Você conhece alguma santa? Nem eu.

Se ser santa é calar os próprios desejos, preferiria ser puta. Se ser puta é amar esse lugar de causar desejo, somos todas putas. Como na passagem em que você se entrega aos braços fortes do pedreiro, descobrindo um jeito de se sentir mulher, amolecendo-se em seus braços de homem que te achava linda. Acima de tudo, somos todas mulheres a construir nossa feminilidade, sempre.

Já dizia a sábia Simone: Ninguém nasce mulher, todas nos tornamos. Porque não há algo que nos defina a princípio. Ainda bem! Assim, temos a liberdade de sermos quem quisermos ser. Mas também é curioso isso de que o olhar do outro nos ajude (ou será que atrapalha?) nessa construção, inclusive da feminilidade.

Há uma pergunta que permeia essa sua trajetória: Qual é o meu valor como mulher? E parece que com o tempo você foi percebendo, no convívio com os “lixos”, que vale muito mais do que imaginava. Porque o que vale é o que você pôde fazer com isso: a escrita. Essa escrita revolucionária. 
Se inicialmente te excitava o cheiro de suor “de macho”, aos poucos, conforme se empodera como mulher, passa a incomodá-la a falta de higiene desses sujeitos que te procuram nos becos escuros, com suas bocas mal lavadas (achei isso tão forte e verdadeiro!), para realizarem aquilo que só admitiriam procurar na prostituição. Nas vitrines em que os corpos desfilam sob olhares que não dizem nada.

É como puta que você descobre seu valor de mulher. A que quer e pode ser desejada como quiser. Tomei emprestado alguns significantes seus que, no fim, se os emprestei é porque são meus também, e levei pra minha análise. Obrigada por isso. Já li um bocado de livros, de vários eu gostei, mas alguns, raros, já tiveram o poder de salvar minha vida. O seu é um deles. Estou modificada. Beatiputificada. Nudificada. Você me deixou eternamente nua. Obrigada.

Um abraço,
Isloany

P. S.: Ah, antes que eu me esqueça, doce amarga Amara, você é linda.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Sou psicanalista porque fracassei



Mamãe queria que eu fosse médica. Era seu sonho. Desde criança ela o quis para si, ser médica. Não podendo, pediu a mim, desde criança, que realizasse seu desejo. Queria realizar seu desejo em mim, por procuração. Sempre tive na cabeça que faria isso, mesmo que em meu diário registrasse que estava a escrever um livro. Às vezes, os desejos da mãe são inquestionáveis. Mas não por muito tempo quando se tem uma filha histérica. Estudei a vida toda porque gostava de estudar e lembro que no terceiro ano fazia jornada dupla, manhã e tarde, para entrar na medicina. Chegadas as provas, não passei. Foi meu primeiro e grande fracasso. A reação de mamãe não foi boa. Ela esperava muito de mim. Disse que eu não havia feito tudo o que podia. Talvez não tivesse feito mesmo. Tinha motivos para isso.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Manoel de Barros e a histerização do discurso



  Ler Manoel de Barros, dependendo da fase da vida em que se está, pode ser perturbador. Se for uma época da vida em que o sujeito estiver bem calcado em suas certezas, a leitura pode ser devastadora. Para muitos, é mais fácil pensar que a poesia do ínfimo não quer dizer nada, é uma besteirinha qualquer de criança, sem nenhum tipo de valor estético no sentido da masturbação das palavras. Sim, porque há poetas punheteiros de palavras. Com isso quero enfatizar que em Manoel de Barros o que encontramos é uma estética avessa ao lirismo das belas palavras, das rimas e das construções rococós. Estamos muito mais no campo da desconstrução.