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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Entrevista com Vanessa Teodoro Trajano




Entrevista com Vanessa Teodoro Trajano
Nasceu em Teresina-PI, atualmente mora em Brasília-DF. Além de escritora, é professora de língua portuguesa, mestre em estudos literários. Já publicou nove livros, entre antologias e obras individuais, dentre as quais se destacam: Mulheres Incomuns (2012), Poemas Proibidos (2014) e Doralice (2015).

Como se deu seu encontro com a literatura? Em outras palavras, como, quando e por que iniciou na escrita?

Eu não me lembro quando, exatamente. Quando eu era criança, uma leitora já voraz, via as fotos e biografias nas orelhas dos livros que eu lia e tinha a sensação de que gostaria de um dia estar ali, com alguma das minhas histórias inventadas. Por muito tempo, a realidade tentou calar este sonho e eu o esqueci. Pensei em fazer outras coisas, cursar moda por exemplo, mas na adolescência a ânisa de escrever me chamou novamente depois da leitura de Quincas Borba de Machado de Assis e de contos da Lygia Fagundes Telles. Vi que era tendenciosa para narrativas breves,  e eu explodindo de imaginação me dediquei a escrever alguns contos – fora os poemas de dor de cotovelo que a maioria dos jovens escrevem. Para minha sorte ou azar, minha fase poeta e contista nunca passou, e já enquanto adulta escrevi um romance. Creio que nunca mais vou sair dos livros, que era onde eu sempre gostaria de estar.


Uma das temáticas centrais de seu livro de contos Mulheres Incomuns é sobre o desejo e a liberdade feminina em relação ao prazer e à própria sexualidade. Podemos dizer que o que está por trás, o que faz pano de fundo ao aspecto erótico, seria uma luta por direitos?

Sim, certamente que sim. Vou dizer uma coisa que possa parecer abominável para alguns pseudo-intelectuais, mas observei, durante a minha adolescência a disparidade de discursos sobre o sexo entre o homem e a mulher. Minha referência mais próxima é a Valesca Popozuda, quando eu, com 15 anos, presenciei a sua carreira decolar com a música “de sainha”, cuja versão original é “sem calcinha”. Na mesma época, lembro perfeitamente de minhas amigas se reclamarem da imposição monogâmica ao sexo feminino, e para os homens, os garanhões, não eram afetados moralmente se ficassem com mais de uma mulher. Isso me incomodava. Acredito que as mulheres gostam de sexo mais do que os homens, mas há uma série de fatores sociais, resquícios do patriarcalismo, que as impedem de gozar de sua livre sexualidade. Mas voltando para a Valesca, há uma bela música do Chico que diz: “sou daquelas mulheres que só dizem sim”. Um verso invejável, mas me digam: será que a mulher do verso acima não deseja a mesma coisa que o “eu lírico” da Valesca? Claro que sim, o que muda é a composição da linguagem. Além disso, quando, na história da humanidade, uma mulher poderia cantar: “vou pro baile procurar o meu negão?” Isso para mim foi uma libertação, a enxerguei como uma. Rasteira, como queiram. Mas me voltava para inquietudes em relação à sexualidade e aos discursos que os considerava libertários, tentando transpassá-los a minha literatura.

Você classificaria a sua literatura como erótica? Se sim, como foi sua decisão por incluir elementos eróticos, em algum momento sentiu receio da reação do público, dos familiares, dos alunos?

É erótica mais como finalidade de nomenclatura, porque as pessoas tendem a nomear as coisas. Não vejo problema com o termo, e não me incomodo quem a classifica como pornográfica também. Nunca senti receio em relação à ninguém. Eu sabia o que estava fazendo. Se alguém estivesse incomodado, quisesse me excomungar ou me mandar para o fogueira, então eu havia alcançado meu objetivo. Minha família, tudo bem, não sou filha de católicos fervorosos ou coisas do tipo. E não chego numa sala de aula me apresentando como escritora. Alguns já descobriram por acaso, mas foram bem discretos.

Muitos autores não conseguem reler o que publicam. Como você se relaciona com uma obra já publicada? Também tem esta dificuldade?

Não leio, porque costumo odiar o que escrevi. Sempre desejo mudar. A obra nunca está pronta. A melhor parte de escrever é reescrever. Pelo menos eu queria viver nessa parte, eternamente reescrevendo.

Você já sofreu algum tipo de preconceito, em meios literários, por ser uma mulher?

A primeira vez foi foda. Envolveu meu trabalho. Pedi férias antecipadas porque um charlatão me falou que arranjaria um lançamento do meu livro em Paraty e fui. Chegando lá as coisas não eram bem assim como ele havia pintado, haveria uma condição. Bem, fico me perguntando em que momento dei a entender isso. Era como se somando os elementos mulher e erotismo só poderia resultar fatalmente para mim, como se fosse óbvio que por conta disso me vendesse. Isso é preconceito, não é? Outra situação, ao meu ver ainda mais pavorosa, foi quando fui atacada por outra mulher, que não teve respeito nenhum pela minha história e tentou me diminuir intelectual e moralmente na frente de todos. Eu não entendo porque as mulheres se fazem tão inimigas. Bem, aqui e acolá houveram outras ocasiões em que sofri preconceito, mas nada tão drástico como as que acabei de citar.

Acredita haver diferenças na maneira de escrever o erótico por homens e mulheres? A função ou a posição do erotismo na escrita de um é diferente do outro?

Anaïs Nin sempre fala que o erotismo da mulher não dissocia-se das emoções. Já Beauvoir afirma que o erotismo da mulher é mais complexo que reflete TODA a sua situação. Acredito que a mulher que escreve literatura erótica está protagonizando anseios e desejos que foram privilégio dos homens, assim como ocupar a posição de um sujeito falante – Virginia Woolf o fez muito bem, e se valeu como empurrãozinho para várias outras – também contribui para que tal produção reflita nessa função. É como se agora ela estivesse acendendo, desperta de um longo adormecimento. Os homens sempre escreveram literatura erótica, não nos esqueçamos de Ovídio. A mulher está tendo essa abertura só recentemente – recentemente demais até, se pensarmos em séculos – portanto a diferenciação de escrita de um e de outro seja ainda prematuro dizer qualquer coisa. Prefiro não pensar que por ser mulher escreve diferente, o que acontece é que desejos que sempre foram amordaçados estão vindo à tona através da literatura, e isto para a lei que vigora a for “da moral e dos bons costumes” (sempre) soará blasfemo.

Os leitores costumam fazer muita confusão entre autor e obra?

Claro, eu mesma faço isso, inevitavelmente. Mas não seria gostoso imaginar que é possível conhecer as sombras de alguém através de sua literatura?

Qual a função do erótico na literatura?

Respondi isso tantas vezes na minha dissertação de mestrado que não sei se saberei responder originalmente agora. Mas vamos lá. Muitos leitores confiam na literatura erótica como entretenimento. No mais das vezes pode até ser, mas se você observar bem muitas obras utilizaram-se do erotismo para tecer denúncias ou ironizar. O caderno rosa de Lori Lamby de Hilda Hilst, por exemplo, há quem diga que se trata de uma obra erótica, mas só consigo enxergar denúncia contra pedofilia e prostituição infantil. Outro livro que é o meu xodó é Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Quem não se identifica com Ema? Na verdade, a vida é tediosa mesmo, e os amantes para ela foram uma distração e tanto. Eu poderia citar inúmeras outras obras, mas cairia na mesma opinião, modificando-a aqui ou ali quando necessário. O fato que o erótico na literatura não precisa de uma função específica, ele existe, como o existe em nossas vidas. Não é a literatura imitação/representação/antecipação da vida?


Qual sua opinião sobre a entrada do politicamente correto (leitor sensível) na literatura?

Se isto vigorar estou lascada, não publico mais nada. Uma vez escrevi “Se eu fosse uma garota de programa” no meu blog, em que a personagem, prostituta de luxo, zomba das colegas de profissão que ganham a vida nas esquinas sujas e perigosas do centro da cidade. Fui acusada de várias coisas, das quais nem me lembro. Mas me diga: será se não existe essa prostituta que acredita ser melhor porque os seus clientes as levam para os melhores motéis e um único programa seu é mais caro do que as do centro às vezes trabalham o mês inteiro para ganhar? Saindo da prostituição: imagine um professor de faculdade, ou melhor, de pós-graduação, que faz questão de ser chamado de doutor e acredita ser ele mesmo um semi-deus? Jesus, se essas pessoas que se acham melhor que as outras por míseros detalhes não existem então eu devo estar ficando louca. E respondendo melhor a pergunta, a implantação do leitor sensível extingue, literalmente, a literatura sensível. Ela ficará exposta, sem poesia, hipócrita. Não quero imaginar como seria a literatura sem sensibilidade.

Você adota algum procedimento quando vai escrever? Espera a inspiração? Costuma ter um horário específico pra trabalhar?

Sou daquelas que espera o clarão vir me assombrar. Não sou prática. Deveria sê-lo, acredito no método da refeitura até a perfeição, e até o faço ou tento fazê-lo, mas só depois que me inspiro, não me obrigo a nada. Quando isso acontece, costumo fazer durante o dia, depois do café da manhã. É muito romântico imaginar um escritor que escreve à noite, mas eu não sou noctívaga. Já até tive a minha fase, porém a vida real nos convida para descansar a noite e funcionar de dia.

Existe um leitor ideal? Se sim, como ele seria?

Nunca pensei nisso como escritora, apenas como professora. Digo para os meus alunos que eles devem ter sempre uma caneta ao alcance para rabiscar as margens do livro, grifar as palavras que não conhecem a fim de buscar o significado delas, enfim, fazer um borrão só, o que muitos sentem ciúmes – eu mesma não gosto tanto dessa prática porque não quero sujar meus livros. Enfim, não gosto de pensar no  que seria o leitor ideal, pois sugere uma demarcação. Estas perguntas que me fez são fruto de uma leitura feita por você, que por sua vez poderia ser totalmente diversa se feita um ano depois ou atrás. A leitura é muito plástica para tentar medi-la.

Qual é a sua maior ambição no campo da escrita?

Quero me tornar uma polígrafa. A palavra parece não existir no feminino. Existe polígrafo, Machado de Assis o fora. Eu desejo sê-lo: publicar o máximo de gêneros possíveis, e ganhar um grande prêmio um dia. Não por vaidade. É porque é chato isso de mandar fazer os livros e eles ficarem empilhados em casa, oferecendo pros outros comprarem. Não desejo mais isso, é chato. Queria um prêmio que me garantisse publicar sem me preocupar com a distribuição, por menor que fosse.

Quais os principais autores e respectivas obras que influenciam sua escrita?

Anaïs Nin, minha musa etena. Machado de Assis, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Carlos Drummond, Charles Bukwoski, etc. Não sou de pensar em obras isoladas, porque já tive várias preferidas ao longo da vida. No momento, a minha maior influência são os contos de Anaïs Nin, Delta de Vênus e Pequenos pássaros.

A literatura exerce pra você uma função catártica?

Tanto na leitura como na escrita percebo que sou atravessada por algo que me faz diversas vezes submergir e voltar à margem como que sem ar. Então eu acordo, amaldiçoada ou revigorada, vai depender do que leio ou escrevo. Se isto não acontecer, faço outra coisa. Meu espírito não está preparado verdadeiramente naquele momento para aquilo, ou a obra não é suficientemente artística.

Qual a maior dificuldade que você encontra/encontrou nesse caminho de ser uma autora independente?

Como disse, vender é a pior parte. Às vezes me sinto esmolando. Parei com isso. Não ofereço minha obra pra mais ningém. Anuncio que publiquei, mais nada. No começo da carreira vendi livros em bares, e na época deu certo, ocorreu tudo bem, mas não consigo continuar a fazê-lo. Não me pergunte o porquê, não saberei responder.

Ao todo, você tem nove livros publicados. Tem um “filho” predileto? Se sim, qual deles?

Mulheres Incomuns, por ser o primogênito, me atrai mais. Porém não acredito que tenha sido minha melhor obra, tampouco acho que ela já foi escrita. Não diria preferência, mas Mulheres Incomuns tem algo que me arrebata, ele foi o passaporte inicial para a vida que escolhi; sua função também foi de me libertar como mulher, pois por meio dele dei vida à personagem Vanessa Trajano. Eu precisava me tornar uma mulher incomum, devo isso ao meu livro.

Existe algum livro que abriu uma cratera, fez uma hecatombe na sua vida a ponto de fazer com que as coisas passassem a ser vistas de outra maneira?

Doralice foi escrito de maneira muito peculiar. Eu viajava todo ano para Fortaleza, minha terra natal de coração (pois todos da minha família são de lá), e na estrada me inquietava com aquelas casas à beira da estrada no meio do nada, que só depois de muitos quilômetros havia outra. Também sentia um mal estar quando via alguém com os seus cinquenta e tantos anos dizendo que nunca realizou um grande sonho, e passou a vida trabalhando no banco ou em outras instituições burocráticas. Então eu criei Doralice, uma menina de um interior chamado Sonhança que nunca conseguiu realizar um sonho aparentemente besta, que era o de fazer teatro. Como ela iria fazer teatro, se o teatro não chegava até lá? Se as pessoas próximas a ela não sabiam nem o que era teatro? Comecei a ver, através de Doralice, como somos tolos por esperar melhoras sociais e econômicas para movimentar a própria vida em favor dos nossos sonhos. Os governantes, principalmente os nossos, querem é matá-los, um a um, até não restar nenhum sonhador que inspire outros. Doralice é a minha estrela guia porque não desejo acabar como ela.

Em seus escritos de Mulheres Incomuns há uma crítica à instituição casamento?

Não acredito em monogamia, e essa é a promessa do casamento, certo? Bom, eu até acredito que existam fases monogâmicas, e que algumas raras pessoas conseguem passar a vida nelas, mas o grande problema é conseguir reunir duas pessoas com essa obstinação. Alguém sempre acaba vacilando e o outro sofrendo. Terrível, não? Em Mulheres Incomuns, algumas personagens não ligam para o casamento. São infiéis, ousadas. Ainda bem que são mulheres. Muitas leitoras dizem que minha escrita é a de uma vingadora (risos). Deve ser, mulherada.


Você poderia viver se fosse privada da literatura (ler/escrever)?

Se um dia isso acontecer, e tomara que não, espero que exista um outro lugar, no cosmo, em que eu tenha infindos papéis para escrever depois de ler todos os livros que desejo ler.



quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Resenha do livro Entropia, de Alexandre Marques Rodrigues



Quem acompanha meu blog sabe que, geralmente, minhas resenhas são cartas para os autores. Mas desta vez farei diferente, até porque fiquei algum tempo às voltas com Entropia e minha resenha é uma tentativa de montar um quebra-cabeças. Entropia caiu em minhas mãos porque fui convidada a mediar um bate-papo pelo Sesc em que o autor estaria presente. Este romance é daqueles que você começa a ler e, conforme os capítulos vão passando, em algum momento sente a necessidade de voltar ao início do jogo porque as coisas não estão fazendo muito sentido. Você volta e percebe que precisa anotar algumas coisas para não se perder na leitura.
Além disso, quando achei que havia alguma dificuldade minha na compreensão, parei tudo e fui buscar resenhas e comentários. Parecia, então, que a confusão fazia parte do processo. Mas acho que devo dizer algo já de início: para ler Entropia é preciso não estar com muita preguiça de pensar, porque se trata de um livro que demanda anotações, pesquisas, escavações, trabalho. Primeiro: o que é entropia? A definição só vem na página 109: “Grandeza termodinâmica que mede, em um sistema isolado, seu grau de irreversibilidade”. Antes disso é preciso querer saber. Então, para quem estiver interessado em fazer esta incursão, coloco aqui nesta resenha as “chaves de leitura” que usei. Vai que cola?
Primeira chave: Os capítulos são divididos em seis eixos:
Eixo 1 - História de Roberto (um homem casado) e Constantina (amante). Narrados em terceira pessoa.
Eixo 2 - História de Franz, narrado em primeira pessoa.
Eixo 3 - História de Cecília (esposa) e, a princípio ficamos sem saber se ela é a esposa do Roberto ou do Franz.
Eixo 4 - História de Bernardo, narrada em terceira pessoa. Bernardo em Franz têm algo em comum: ambos estão numa viagem. Bernardo procura o túmulo da mãe, mas ainda não sabemos direito o motivo da viagem de Franz até certo ponto do livro.
Eixo 5 - Biografia de Anton Stein em 4 + 1 capítulos (e só muito depois é que entendemos o motivo da biografia encravada no meio de tudo isso).
Eixo 6 – Estão preparados? Aqui você conclui, ao menos eu concluí (posso ter viajado na maionese) que Franz, Bernardo e Roberto são a mesma pessoa. Na verdade já dá pra ir sacando alguma coisa antes de chegar a este eixo em que os três são um só, narrados em primeira pessoa pela voz de Franz. Daqui puxo o gancho para a:
Segunda chave: A escolha dos nomes dos personagens
- Franz: significa francês.
- Bernardo (origem germânica): Ber [urso] + hart [forte]: forte como um urso.
- Roberto (origem germânica): Hruot [glória] + bertho [brilhante/afamado]: aquele que a glória tornou famoso.
Os significados dos três nomes remetem ao general francês Napoleão Bonaparte. Mas de onde diabos eu tirei isso? Da minha imaginação fértil? Não, senhores. Alexandre vai nos dando essa dica ao longo do livro. Durante as buscas do personagem três em um (Franz/Bernardo/Roberto), alguém diz a ele: você tem que estudar as batalhas perdidas por Napoleão, mas só aquelas que ele perdeu. Aí você, um leitor obediente, vai pesquisar e descobre que Napoleão perdeu quatro grandes batalhas:
- Trafalgar
- Moscow
- Leipzig
- Waterloo
Ora, vejam bem, são as quatro partes em que o livro é dividido! E por que Napoleão perdeu estas batalhas? Porque hesitou em atacar e foi atacado. Aí a sua imaginação de psicanalista que gosta dos significantes e dos pedaços deles te leva ao seguinte:
Entropia – En[trop]ia – tropo – tropista – tropa (do grego) tropos – ato de dar a volta.
E o que isso quer dizer? Não sei. Mas de alguma forma é como o livro faz você se sentir, dando voltas dentro de um sistema fechado.
Terceira chave: Principais temas
- Esgarçamento das relações representado pelo constante desencontro. Há desencontro de Franz/Bernardo/Roberto com as mulheres tanto no amor como no sexo, desencontro na busca pelo túmulo da mãe, e vários outros.
- Morte como um retorno ao nada, permanecemos no sistema fechado.
- Solidão e desamparo.
- O recuo diante das batalhas.
- Busca pela mãe (com quem não há nenhum laço, já que ela morreu quando ele era criança), como uma espécie de metáfora à busca pelo mito de origem.
Quarta chave: recursos de estilo
Aqui não tenho muita condição de esgotar os recursos utilizados por Alexandre, mas os que mais me chamaram a atenção foram:
- A mistura de tempos verbais numa mesma frase: “Sou quase virgem, ela disse, dizia, disse uma e outra vez”.
- Escrita entrecortada que lembra o trabalho de uma máquina. Este fato faz das cenas sexuais um trabalho mecânico e nada excitante para o leitor. O objetivo do Alexandre parece ser mais para falar do impossível do sexo do que do erótico em si.
Bem, foi assim que consegui decantar a leitura. Ainda que tenha feito assim, de forma esquemática, quero avisar a vocês que os temas trabalhados e a forma como o autor aborda são bastante tocantes. Espero que ajude!

Isloany Machado, 05/10/2017

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Prefácio do livro Alma Desnuda



Conheci Gabriela em 2013, quando fui sua professora no curso de psicologia da UFMS. Depois nos reencontramos em outro contexto, por causa da literatura na fronteira com a psicanálise. Gabriela bateu asas e voou com suas letras e aqui está o resultado da poesia que corre em suas veias. Neste seu livro de estreia, a menina desnuda a alma diante do leitor e mostra a grandiosidade do que há do lado de dentro, desse avesso que tanto insiste. Os temas da dor de existir, do ser mulher em um mundo que nos tenta colocar cerca, da loucura, do amor, da paixão, dentre outros, estão presentes para capturar nossos olhos para além da efêmera beleza daquilo que um dia, certamente, morrerá. O eu lírico deixa turvamente claro, com seus gritos e paradoxos, que não há nada para além das palavras, coisa nenhuma para além dos buracos que nos preenchem e das dúvidas em que nos agarramos. A dúvida é sempre melhor do que a certeza – pressuposto psicanalítico.
            A poesia de Gabriela está toda permeada pela psicanálise, o que talvez seja o motivo do convite para prefaciar seu primeiro livro. Está tudo aqui: o inconsciente, a resistência, a latência, a psicose, a suspensão das certezas, o desejo, as pulsões, a vida e a morte. Mas tudo desenhado de uma forma tão sedutora que quem ler ficará imediatamente envenenado e morrerá docemente, sem saber do quê. Foi assim, envenenada pela poesia de Cecília Meireles, que conheci a psicanálise. Em muitos momentos as palavras de Gabriela me lançaram de volta àqueles tempos, e o que me veio à cabeça foi o poema Motivo: “Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta”. Qual é o motivo do poeta? O instante. Ele pode ser alegre ou triste, menina ou mulher, mulher ou homem. Não há limites para a escrita. Parece que Gabriela descobriu na escrita seu motivo, sua (des)razão e seu sentido. Tenho que concordar com ela de que não há salvação a não ser quando nos agarramos com dentes e “unhas vermelhas” nas palavras. A palavra corta a pele e tenta dar sentido ao que não pode dizer nada.
            Convido o leitor para entrar com os dois pés nesse obscuro mundo das palavras que recobrem uma alma desnuda, deixando-se seduzir pela beleza da poesia que vem da força de um grito mudo.        
Isloany Machado

Psicanalista e Escritora.

P. S.: Para quem tiver interesse em adquirir o livro, vejam o recado da autora:
"Oi, galera bonita! Hoje quero compartilhar com vocês uma realização minha. Estou prestes a publicar meu primeiro livro, que será recheado de poesias que falam sobre o amor, a loucura, a amizade, a mulher e também muita coisa sobre mim. Por esse motivo o nome do livro: Alma Desnuda. Pois me desnudo de maneira sutil e poética, entregando com delicadeza minhas experiências e sentimentos. O livro sairá por apenas 15 reais (+ taxas de entrega). Seria uma honra ter um pedaço da minha história com vocês! Para mais informações, mandem inbox ou me contatem pelo email: gabrielarichenaferreira@gmail.com 
Em breve trarei mais informações!"

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O tempo do fantasma em Meu malvado favorito 3

Quem me conhece sabe que eu adoro animações. Quem gosta de animações sabe que muitas delas não são feitas para crianças, mas para os pais, que têm nos filhos uma boa desculpa para ir ao cinema ver desenho. Pois bem, por que estou falando essa baboseira toda? Porque dias atrás, depois de uma abstinência de quatro meses, fomos ao cinema levar nosso sobrinho para assistir Meu malvado favorito 3. Se você não conhece, vou resumir o enredo da trilogia em algumas palavras.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Mar adentro



            No fim de semana passado estive em Aracaju a trabalho. Na verdade não sei dizer muito bem se o que eu faço é trabalho, já que falei de literatura num dia e psicanálise no outro. Mas a isso chamamos de trabalho de transmissão. Aproveitando a viagem, fomos todos: filho, marido, papagaio, periquito, etc. Ficamos empolgados porque Adriano, que ainda não tem dois anos completos, teria a oportunidade de conhecer o mar. Eu só o conheci aos 14 anos. Foi lindo, mas não teve uma vez que eu fosse e não tivesse alergia a não sei quê. Trabalho finalizado, nossa amiga Alba resolveu nos levar à praia. Ficou encantada quando soube que seria a primeira vez do Adriano.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Carta de uma psicanalista para uma puérpera



Minha querida,

            Já faz uns dias que queria te escrever, mas imagino que a correria aí esteja grande e pode ser que nem tenha muito tempo para ler esta carta. Bem, vou torcer para que sim. Serão apenas alguns minutos. São tantas coisas pra dizer e me pego sem saber por onde começar. Talvez deva começar te dando parabéns pelo nascimento do seu bebê. Não é o que todo mundo faz? Parece clichê ter que responder a isso o tempo todo, não é? “Obrigada”, você deve estar cansada de responder. Mas não precisa me dizer nada.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Sobre tudo o que excrevemos




Não, você não leu errado. Também não foi um erro de digitação. O “x” está sim no meio da palavra. Vou explicar. Desde que comecei a escrever, tenho andado às voltas com uma questão. É que inevitavelmente sinto uma repulsa pelas coisas que escrevo um tempo depois de tê-las escrito. Isso me deixava bastante chateada até um tempo atrás, porque, sendo uma autora independente, crescia a dificuldade em conseguir vender meus livros. De modo que meu desejo era sempre de publicar coisas novas, ainda que houvesse uma pilha dos livros já publicados todos por serem vendidos. Pois bem, ainda que Lacan seja incompreensível, tempos atrás, li no Seminário 20 a expressão: “publixo”. A escrita como algo que sai de nós para o lixo.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Cartarresenha sobre o livro Rebentar

Campo Grande, 05 de julho de 2017.
Querido Rafael,

            Quando te ouvi falando sobre a temática do Rebentar durante o evento do Sesc, meu primeiro pensamento foi: não conseguirei ler esse livro. Um filho extraviado da mãe há mais de trinta anos e um trabalho de luto que não se encerra. Pareceu insuportável demais pra mim. Mas mesmo assim me investi de coragem e decidi fazer a travessia. Só durante a leitura é que fui pensando no motivo da minha inicial covardia. Tem algo em mim, desde muito cedo, que treme diante da possibilidade de perder um filho. Desde a infância eu me esborrachava de chorar quando alguém cantava pra mim a música do galinho que se perde da família: “há três noites que eu não durmo, pois perdi o meu galinho, coitadinho, pobrezinho...”, conhece? Mas o medo não parou por aí.

sábado, 24 de junho de 2017

Cartarresenha sobre A instrução da noite



Querido Maurício,

            Ainda ontem te disse que minhas leituras andavam a passo de tartaruga e que provavelmente demoraria a terminar seu livro, mas acontece que depois do aparecimento do Lucas no meio da história, não consegui mais parar. Coloquei o menino pra assistir desenho e o pobre ficou sem comer até às oito da noite, quando terminei A instrução da noite. Só então voltei a ser mãe e a cuidar das outras coisas da vida. Eu sei que esta pode ser só mais uma resenha do seu livro, já tão bem-falado, mas escrevo mais por mim que por você. Era preciso dizer algo sobre ele, já que, ao contrário do seu personagem-narrador, eu sempre opto por desembuchar.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Eu nunca tinha amado assim


Dizem que o amor é algo que tira a gente de órbita. Você não consegue pensar em mais nada quando está nesse estado de apaixonamento. Mas o apaixonamento é algo passageiro, pois aos poucos você vai vendo os defeitos da pessoa, e, mesmo que o amor não acabe, a sofreguidão diminui. O enluaramento da mente diminui. Mas acontece que há um ano e três meses eu tenho experimentado um amor novo. Um amor de mãe. Me sinto boba desde o dia que ele nasceu. Mas o boba não é só no sentido de encantada, é no sentido de bocó mesmo. Isso não vai parecer nada amável, mas vamos lá. Há tempos estou devendo esta crônica para minhas amigas mães.

domingo, 21 de maio de 2017

Uma nau de dor e salvação


Nau dos Amoucos é o primeiro romance de Isloany Machado, que já nos deu dois belos volumes de contos e crônicas sobre literatura e psicanálise, Costurando palavras e Em defesa dos avessos humanos. Mas enquanto esses livros são marcados pela leveza e a aparente despretensão, tornando a leitura amena ainda quando os temas são fortes, o début ficcional de Isloany tem como grande marca a ousadia, valendo-se, por vezes, de uma estética de extremos para tratar de um tema, aliás, dois temas igualmente extremos: o amor e a loucura.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Relato de desejos sob custódia



Em tempos de uma liquidez que escorre por páginas literárias perdidas em discussões críticas bem mais afeitas às ânsias do mercado – lançamentos concorridos com o escritor em livrarias da moda; feiras e festas literárias em que a tônica são as ditas farsas e falas sobre cultura, como se a literatura não fosse cultura ou como não se bastasse para apresentação em público, mantendo seu trágico monólogo – do que à (in)satisfação de algo humano que resiste em nós, a Nau dos amoucos incomoda desde o título. Referência à obra A nave dos loucos, de Bosch? Paradoxo escondido no qualitativo “amouco”, designativo do sujeito obcecado pelo servilismo a algo, a alguém? Narrativa sobre a vida de um protagonista acostumado à loucura da mãe, alienada pela fúria paterna na contenção de seus desejos? Tudo ou nada disso?

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O que faz de alguém um escritor?



Perdi o sono às três e meia. Durante uma hora me debati na cama, tentando dormir de novo, mas não consegui. A cabeça fervilhando, com nada digno de preocupação. Nas horas insones é como se a cabeça ficasse grávida de pensamentos. Então, tecnicamente estou em trabalho de parto.
Tenho andado às voltas com um significante que me acompanha não só em relação ao ofício da escrita, mas no da psicanálise também. Não é raro que as pessoas me digam: “Publicou um livro é? Mas tão novinha!”. É algo que tem seu lado lisonjeiro, já que passei dos trinta e os cabelos brancos estão gritando. Mas fiquei pensando nisso, já que ouço frequentemente a palavra e nunca sei o que dizer diante disso.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Cartarresenha sobre Tekoha: em busca da terra sem males




Campo Grande, 10 de abril de 2017.

Querido Antonio,

            Há sete anos você foi meu professor de Direitos Humanos e já era possível perceber sua sensibilidade, mas o romance me surpreendeu, muito. Não porque eu não te imaginasse capaz de escrevê-lo, mas porque essa poesia é tão rara...

sexta-feira, 7 de abril de 2017

07 de abril de 2017



Oi.


Já faz tempo, né? Parece que foi ontem, mas lá se foram cinco anos. Às vezes ainda sonho com você, geralmente perto de alguma data importante, seu aniversário, sua partida, coisas assim. Nem sempre consigo te escrever porque quase nunca tenho o que dizer. É tão difícil às vezes. No último sonho você estava vivo, mas eu sabia que não. Muitas coisas mudaram nesse tempo todo, mas você não está aqui para ver.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Às cinco horas da manhã

São cinco horas da manhã e o sono me perdeu. Isso mesmo, foi ele que me perdeu. Dificilmente eu o perderia às cinco, já que mesmo quando me acontece de ter insônia, este é um horário em que o corpo já parou de se debater e está entregue, vencido. Mas eu preciso escrever e não tenho outro tempo. As pessoas me perguntam: por que não escreve mais? Então decidi que vou levantar todos os dias nesse mesmo horário para escrever, durante uma hora, até que eu tenha que acordar de verdade e me preparar para o trabalho. Como não me sobra tempo pra muita coisa, eu poderia usar esta uma hora para várias outras atividades.

domingo, 26 de março de 2017

Em cinco anos


O que se faz em cinco anos?
Em cinco anos se faz uma faculdade (foi o tempo do meu curso de Psicologia).
Há cinco anos a vida deu uma reviravolta desde que tomei um soco no estômago com a morte do meu primo. Morte que me fez repensar meus próprios julgamentos sobre o suicídio, sobre a autonomia do sujeito em poder e querer viver.
Há cinco anos, desde o soco no estômago, descobri que tudo o que eu quero é viver. Loucamente. Não viver loucamente. Mas loucamente, viver. É da ordem do desejo, do querer, inconsciente e consciente.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Carta sobre Em defesa dos avessos humanos



Olá Isloany,
Li "Em Defesa dos Avessos Humanos" em uma longa viagem para casa, entre aviões e 10 horas de espera em aeroporto, estava calor e eu não tinha dormido muito bem, primeiramente devo dizer que suas palavras foram boas companheiras nessa jornada cansativa. Assim como uma canção, a literatura marca em minha vida pequenos recortes temporais, releio livros e relembro o que sentia, quais eram meus dilemas, meus prazeres e em que ponto eu estava em minha jornada comigo mesmo; não foi diferente com "Em Defesa dos Avessos Humanos". Não foi a toa (nunca é) que suas palavras se marcaram nesse pequeno recorte temporal pessoal de uma viagem para casa, após 1 ano e meio distante, distante por escolha, distante de questões que precisava lidar e me implicar, justamente escolhi ler um livro que fala sobre desejo, relações familiares, literatura, psicanálise, morte, subversão, objeto "a", Manoel de Barros, amor e quantos mais significados pessoas e palavras possam desbravar. Relendo-o agora para escrever essa carta, relembro do quão angustiante foi essa viagem e como foi importante voltar pra casa e resolver pendências, falar o que deveria ser dito e reencontrar os prazeres de meu antigo lar. Seu livro tem temas diversos como se propõe a ser, alguns com uma escrita bem humorada, expressões divertidas e estranhas sob o olhar de um nortista como "o creme do verão", outros tem o peso da angústia nas palavras e outros possuem palavras sobre um olhar sutil do cotidiano. Os temas são diversos, porém sob minha ótica tocam na mesma questão, sobre a árdua tarefa de "ser" em um mundo modelado pelo outro, ser e sustentar seja lá o que desejarmos. Nos dias de hoje vemos a ascensão da intolerância e a tentativa de impor modos de vida conservadores, enquadrantes e sufocantes, os avessos sobreviveram, sobrevivem e quem sabe com muita luta, nós Os Avessos Humanos, pararemos de sobreviver e finalmente viveremos nossas vidas da maneira que quisermos viver. Costumo achar que um bom livro quebra não só nossas expectativas, como quebra nossas lógicas, preconceitos e implica-se como um novo significante que implicará em novos significados posteriores, um bom livro abre novas possibilidades de ser e estar, pelo menos é o que a literatura significa para mim. Seu livro se marcou e implicará significados em meu futuro, além de ser uma inspiração para entusiastas da escrita como eu, obrigado pela companhia e continue a escrever (se assim desejar) com essa leveza e fluidez bem humorada e também com o peso da angústia evanescente que se torna física através de palavras, palavras são navalhas como diria o sumido Belchior, são também um abraço em alguém que amamos após um longo período distante, palavras são ver e significar, construir nossos universos únicos e solitários com amor sobre a falta e a falta sobre o amor, com arte e vida. Virginia Woolf nos diz que um dos motivos para ler, seria torcer pelos autores em suas histórias singulares, repleta de experiências e uma vida que o levou a escrever o que escreveu, o outro motivo, este na pós-leitura, seria formar nossa própria opinião e ter um olhar crítico sobre o que lemos, porém o real motivo pra ler seria o prazer de ler, um prazer complexo e difícil, que varia de época para época e de livro pra livro, mas este prazer é suficiente, assim como a leitura de seu livro. "Na verdade o prazer é tão grande que não se pode ter dúvidas de que sem ele o mundo seria um lugar muito diferente e muito inferior ao que é. Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo." (Woolf, Virginia, mil novecentos e bolinha.)
Com apreço, Alain K.

PS: em Macapá usamos uma expressão parecida com "o creme do verão" que é "a polpa da bacaba".

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Cartarresenha Os filhos da mãe



Campo Grande, agosto de 2016.
Querida Marcia,

            Infelizmente não pude ir ao lançamento de seu livro aqui em Campo Grande, mas sabia que este era um livro necessário, ainda mais depois da maternidade. Por falar nela, tenho um Adriano que está para fazer um ano. E como as coisas mudaram desde o nascimento dele! Pra começar, o parto já foi o marco do quanto não temos nenhum controle sobre a vida do outro. Ele veio prematuro por causa de uma pré-eclâmpsia e descolamento de placenta, no oitavo mês. Ficamos 19 dias no hospital e eu não havia me preparado nem um pouco para isso. Foi caótico porque eu não conseguia dormir e, imagine, claro que fiquei meio “surtada” e “paranoica”, não querendo desgrudar dele nem por um momento, achando que só eu sabia cuidar dele. Só pude voltar ao estado normal (leia-se: escovar os dentes, pentear os cabelos e passar um batom) depois que uma pessoa bem importante para nós furou meu narcisismo e onipotência dizendo que eu não poderia dar conta de tudo. Eu sentia muito medo de perdê-lo. Enfim, desse quase um ano pra cá, claro que a vida mudou radicalmente. Assim como você, tive que reduzir minhas atividades, mas fiquei só dois meses completamente em casa. Aos poucos fui voltando a atender, a escrever, ler, e etc. Quando o Adriano estava com nove meses o pai dele saiu do emprego e aí o pequeno deixou de ser um “filho da mãe”.
            Eu comprei seu livro porque queria ler logo pra emprestar pra minha irmã. Quando comecei a leitura d’Os filhos da mãe, já achei fantástico o fato de você escrever em seu nome (primeira pessoa), assumindo a autoria de sua história com a maternidade. Marcia, seu livro é incrível. A minha vontade era de comprar uma caixa inteira dele e, depois de distribuir para todas as minhas amigas, sair pela rua panfletando Os filhos da mãe, dizendo para as pessoas: “Olá! Você gostaria de se livrar das culpas da maternidade?”, quase como as pessoas costumam dizer: “Oi, você já conhece a palavra de Deus?”. Todas as pessoas deveriam ler, pelos seguintes motivos:
- Mulheres que são mães: pelo motivo mais óbvio que é entender porque se sentem tão culpadas e poderem se livrar desse sentimento.
- Mulheres que ainda não são mães, mas desejam sê-lo: entender o peso histórico que nossa cultura coloca sobre a maternidade para que possam se preparam melhor, sabendo que incluir o pai é necessário. Para que saibam também que ter filhos não precisa ser um bicho de sete cabeças desde que se lide com isso de forma mais leve. Não acho que seu livro desmotiva as mulheres de terem filhos. Pelo contrário.
- Mulheres que não querem ser mães: para que saibam que não é preciso ter filhos caso este não seja um desejo. Desejando já é difícil, imagine sem esse quesito fundamental? Desobrigar-se da maternidade é amar um filho que nunca virá e, portanto, não terá que arrastar o saquinho de ossos das neuroses familiares. Isso também não é amor?
- Homens que são pais: para que entendam o peso histórico que nossa cultura coloca sobre a mulher/mãe e para que não sejam eles ainda mais um peso. Para que sejam pais de fato.
- Homens que ainda não são pais, mas desejam sê-lo: Para que se preparem para uma grande mudança na vida, pois a paternidade não é só estar com os filhos na hora de brincar.
- Homens que não querem ser pais: para que assumam isso e banquem seu desejo.
- Mulheres e homens cujos filhos já saíram de casa: para que se reconciliem com seu passado e se reinventem como homens e mulheres desejantes.
            Enfim, esse livro tinha que ser incluído como leitura necessária em todas as faculdades, devia ser prescrito como remédio para todas as mulheres que sofrem de depressão pós-parto, baby blues e similares, devia ser diluído na água dos bebedouros das escolas.
            Só fiquei com uma questão: será que os casais homo não repetem também o binarismo “função materna X função paterna”?
            Marcia, traduza seu livro para muitas línguas, todos precisam dele, mesmo os xiitas da maternolatria. Quem sabe mesmo sob pedradas você consiga furar essa onipotência?
            
Muito obrigada!

Um abraço,

Isloany

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Cartarresenha E se eu fosse puta

Campo Grande, 20 de fevereiro de 2017.

Minha doce Amara,

Terminei de ler seu livro absolutamente capturada, estarrecida e completamente modificada. E que maravilha é poder te dizer isso. Escrever é algo tão corajoso! Escrever sobre prostituição é ousado. Mas ser protagonista do seu próprio enredo, sem medo do julgamento, sem pudores com a língua, é tão verdadeiro! É como alcançar o caroço de si cortando um atalho.

Para ler seu livro é preciso estar nu. Você me convidou a entrar em suas páginas despida de qualquer preconceito, porque para ler suas histórias é preciso enxergar além das narrações. É preciso ouvir sua humanidade. Ainda estou nua e não quero mais as velhas roupas.

O começo...ah, o começo é excitante! Mas na medida em que o prazer vai se transformando em uma certa revolta, muitas vezes senti vontade de pegá-la no colo e dizer que estava tudo bem, que nada de ruim poderia te acontecer. Mas ora, quem sou eu? Uma mulher, tal qual você, que deseja ardentemente ser vista, admirada, respeitada. E que precisa de tudo (ou só) isso para poder desejar também, e se sentir viva. Puta ou santa. Você conhece alguma santa? Nem eu.

Se ser santa é calar os próprios desejos, preferiria ser puta. Se ser puta é amar esse lugar de causar desejo, somos todas putas. Como na passagem em que você se entrega aos braços fortes do pedreiro, descobrindo um jeito de se sentir mulher, amolecendo-se em seus braços de homem que te achava linda. Acima de tudo, somos todas mulheres a construir nossa feminilidade, sempre.

Já dizia a sábia Simone: Ninguém nasce mulher, todas nos tornamos. Porque não há algo que nos defina a princípio. Ainda bem! Assim, temos a liberdade de sermos quem quisermos ser. Mas também é curioso isso de que o olhar do outro nos ajude (ou será que atrapalha?) nessa construção, inclusive da feminilidade.

Há uma pergunta que permeia essa sua trajetória: Qual é o meu valor como mulher? E parece que com o tempo você foi percebendo, no convívio com os “lixos”, que vale muito mais do que imaginava. Porque o que vale é o que você pôde fazer com isso: a escrita. Essa escrita revolucionária. 
Se inicialmente te excitava o cheiro de suor “de macho”, aos poucos, conforme se empodera como mulher, passa a incomodá-la a falta de higiene desses sujeitos que te procuram nos becos escuros, com suas bocas mal lavadas (achei isso tão forte e verdadeiro!), para realizarem aquilo que só admitiriam procurar na prostituição. Nas vitrines em que os corpos desfilam sob olhares que não dizem nada.

É como puta que você descobre seu valor de mulher. A que quer e pode ser desejada como quiser. Tomei emprestado alguns significantes seus que, no fim, se os emprestei é porque são meus também, e levei pra minha análise. Obrigada por isso. Já li um bocado de livros, de vários eu gostei, mas alguns, raros, já tiveram o poder de salvar minha vida. O seu é um deles. Estou modificada. Beatiputificada. Nudificada. Você me deixou eternamente nua. Obrigada.

Um abraço,
Isloany

P. S.: Ah, antes que eu me esqueça, doce amarga Amara, você é linda.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Sou psicanalista porque fracassei



Mamãe queria que eu fosse médica. Era seu sonho. Desde criança ela o quis para si, ser médica. Não podendo, pediu a mim, desde criança, que realizasse seu desejo. Queria realizar seu desejo em mim, por procuração. Sempre tive na cabeça que faria isso, mesmo que em meu diário registrasse que estava a escrever um livro. Às vezes, os desejos da mãe são inquestionáveis. Mas não por muito tempo quando se tem uma filha histérica. Estudei a vida toda porque gostava de estudar e lembro que no terceiro ano fazia jornada dupla, manhã e tarde, para entrar na medicina. Chegadas as provas, não passei. Foi meu primeiro e grande fracasso. A reação de mamãe não foi boa. Ela esperava muito de mim. Disse que eu não havia feito tudo o que podia. Talvez não tivesse feito mesmo. Tinha motivos para isso.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Manoel de Barros e a histerização do discurso



  Ler Manoel de Barros, dependendo da fase da vida em que se está, pode ser perturbador. Se for uma época da vida em que o sujeito estiver bem calcado em suas certezas, a leitura pode ser devastadora. Para muitos, é mais fácil pensar que a poesia do ínfimo não quer dizer nada, é uma besteirinha qualquer de criança, sem nenhum tipo de valor estético no sentido da masturbação das palavras. Sim, porque há poetas punheteiros de palavras. Com isso quero enfatizar que em Manoel de Barros o que encontramos é uma estética avessa ao lirismo das belas palavras, das rimas e das construções rococós. Estamos muito mais no campo da desconstrução.