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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Minha carta ao pai

Pai,
Não encontrei uma maneira melhor de chegar até você, já que não saberia como falar isso ao telefone. Já que as palavras sempre lhe foram tão caras, creio até que minha relação com os livros tenha ligação direta com as vezes em que seus olhos estavam voltados para as infindáveis horas de leitura nas quais você se deleitava sublinhando cada palavra, foi pelo caminho da palavra escrita que decidi te (re)encontrar.
Não foi pra mim que você contou, mas minha mãe me disse que sua perna voltou a inchar e está com ínguas. Sem pudor nenhum ela me disse: “Foi assim com seu avô, pernas inchando, ínguas, e em seis meses ele morreu”. Ela falou ainda que você não quer saber de que se trata, assim morre mais rápido. Isso não é coisa que se diga a um filho.
O fato é que eu não quero que você morra. Eu sei que um dia isso será inevitável, todos morreremos e você não é imortal, mas não tem que ser agora, nem daqui a seis meses. Essa é a história do seu pai, não a sua. Seu pai viveu e morreu em uma época que os recursos eram poucos. As pessoas morriam mais cedo porque não tinham acesso a quase nenhum serviço de saúde. Eu sei que você deve ter ficado assustado. Pai, você está assustado, você é só um menino paralisado diante da possibilidade do fim. Mas além de ser esse menino, há 32 anos também é meu pai e isso te traz algumas responsabilidades. Agora que você já sabe que está colado nessa história do seu pai, é hora de se descolar dela.
O que você tem pode ser algo difícil como um câncer, mas pode também ser uma simples inflamação facilmente resolvida com algum remedinho, mas que se não for tratada pode sim arruinar de vez. Você nunca me pareceu o tipo de pessoa que só está viva para esperar a morte. Não pai, você não é assim! Foi você que me ensinou tanta coisa, me ensinou sem saber o amor às palavras, a importância de fazer o que a gente gosta, mesmo que já tenhamos passado dos 60. Ainda há tanto a ser feito. Você vive trabalhando duro para deixar algo para mim e minha irmã, mas de minha parte posso te dizer que me contentaria com a sua presença.
Estive pensando que você sonha em deixar para nós algo que nunca exigimos de você. Eu não quero como herança promessas de futuro. Quero o meu pai. Quero aquele pai que tanto esperava que eu fosse um menino e que chegou de viagem após minha mãe ter me parido. Lá estava eu: mais uma menina. Tentei ser o seu menino (lembra como eu te peitava?), mas não deu. É o que temos, que sempre  tivemos. A melhor herança que podia querer você já me deu: o amor pelas palavras. Hoje eu vivo disso pai, não preciso de mais nada, só de você vivo. Sabe por quê? Bom, é que agora eu tenho um menino de um ano cuja vida só está começando e é minha tarefa ensinar a ele que viver, apesar de tudo, vale a pena. Então pai, como eu vou explicar a ele que o avô não quis procurar ajuda médica, deixando de cuidar do corpo e desistindo de viver? Você só tem 64 anos. Vamos estimar que viva até os 84, ainda terá 20 anos para conviver com meu filho! Você terá coisas para ensinar a ele como só um avô pode fazer. Se nossa família se separou, isso não quer dizer que tenhamos que nos despedaçar. Eu não pude conviver com o seu pai, mas eram outros tempos em que a vida era mais penosa, agora não tem que ser. Precisamos que você cuide da sua saúde, pode gastar tudo o que pretende deixar para nós. Ainda há muito a ser feito. Descole-se já do fim trágico do seu pai e continue sonhando.
Você é meu pai e eu te amo.
          Isloany, 29/09/2016

P. S.: Ainda espero sua visita, como uma menina que fica grudada na janela no fim do dia esperando pelo retorno do pai. Venha e eu te farei um café. Mas venha logo porque o tempo corre depressa. Ah, e se for me responder, tente caprichar na caligrafia porque daquele bilhete que me deixou aos 17 anos não entendi quase nada. Sua letra é uma merda. 


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