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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Cuidado, Eichmann poderia ser você!

Comentário do filme The Eichmann Show

            Onde estava escondida a humanidade daquele homem que esteve como cabeça em todo o processo que exterminou mais de seis milhões de judeus? É esta a pergunta que persegue o judeu contratado para fazer a cobertura “cinematográfica” do Julgamento de Eichmann na cidade de Jerusalém. Somente monstros fazem monstruosidades? Ou será que humanos, vez ou outra, perdem a noção e o limite de suas ações destrutivas contra os “pares”? Há dias estava enrolando para assistir de uma vez The Eichmann show, primeiro porque sei que tenho o estômago fraco, segundo porque sinto dor.
Bem, o filme conta a história do julgamento desse homem, famoso na história, que foi o responsável pela organização do massacre dos judeus. Quem era ele para além disso? Um pai? Um esposo? Um filho? O mais importante é a forma como ele se define: alguém que era leal às ordens que lhe eram passadas. Aliás, nenhum crime poderia ser pior do que descumprir um juramento. Dadas as circunstâncias, ele se considerava inocente de tudo o que estava sendo acusado. O julgamento acontece em Jerusalém, entre judeus. O responsável pela equipe de filmagem não queria despregar os olhos, ou as câmeras, do rosto de Eichmann, mais precisamente, do olhar. Procurava qualquer traço de desconforto, arrependimento, ou sarcasmo que fosse, diante de tantos depoimentos de pessoas que haviam sobrevivido ao holocausto. O que mais me revirou o estômago foi o de um homem, judeu, que descarregava os caminhões lotados de corpos de pessoas exterminadas por gás. Os corpos eram enterrados em valas comuns. Amontoados de osso e pele. E no meio disso tudo, o homem encontra a carcaça da esposa e dos dois filhos. Eichmann não move um músculo facial.
São dias de duração do julgamento que foi televisionado para o mundo inteiro. As vozes dos sobreviventes puderam ser ouvidas, daqueles que antes estiveram no lugar de puro objeto. É marcante, é doloroso. E era preciso que o mundo soubesse, para que assim, lembrando, não caísse na tentação de repetir. Não direi a sentença de Eichmann para que as pessoas não saibam o final, apesar de que nessa história, o que menos importa é o final. Até porque temo que esse terror nunca acabe.
Vivemos tempos difíceis em nosso País. Nossa democracia está no fio da navalha. Estamos retrocedendo em direitos humanos. Inacreditavelmente, muitas pessoas exaltam um Bostonaro que, por sua vez, exalta torturador dos tempos da ditadura. Em que isso é diferente de Eichmann? A quem essas figuras representam? Eu me pergunto se as pessoas não estão entendendo para onde estamos caminhando. A barbárie está balançando o rabo e quase podemos tocá-lo. Será que quem apoia Bostonaro tem noção do que um homem desses pode fazer se estiver no poder? O que me entristece é que ele não fará nada mais nada menos do que representar cada pequena intolerância do dia-a-dia: “Ah, eu não tenho nada contra gay, dede que não faça parte do meu mundo”; “Tinha que ser preto”; “É um viado mesmo”; “Tinha que ser mulher”; “Bandido bom é bandido morto”, “etc”. É o narcisismo das pequenas diferenças. A destruição arraigada em nós, que só pode ser “curada” fazendo laços.
Ao fim, uma fala do filme que me chamou a atenção, e transcrevo literalmente: “Quem já achou que Deus nos criou melhor do que outro ser humano, já ocupou o lugar que Eichmann ocupou uma vez. E quem permitiu que o formato do nariz de outras pessoas, a cor da pele, ou a maneira como elas veneram seu deus envenenem nossos sentimentos por elas, conheceram a perda da razão que levou Eichmann à sua loucura. Foi assim que tudo começou para aqueles que fizeram essas coisas”.
O mais assustador é que Eichmann, longe de ser um monstro, poderia ser qualquer um de nós. Estejamos atentos aos discursos de ódio que repetimos, atentos sobretudo às pequenas intolerâncias de cada dia, pois é daí que se originam os totalitarismos. Isso não é brincadeira. Chega uma hora em que é preciso se posicionar e parar de dar sorrisinhos amarelos.      
   


   Isloany Machado, 06 de junho de 2016.

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