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sábado, 7 de maio de 2016

Separar-se da mãe

Eis que chegou meu primeiro dia das mães. Ano passado ele ainda estava na barriga e ainda era o filho idealizado. Eu não sabia que ele seria melhor do que o tal filho idealizado. Eu não sabia que nunca mais dormiria do mesmo jeito de antes, mesmo que conseguisse dormir. Não sabia que a existência dele ocuparia meus pensamentos de tal maneira que nem dormindo eu conseguiria esquecê-lo. Certo, sabemos que ser mãe não é natural. Mesmo que sejamos mães biológicas de um filho, é preciso adotá-lo em pensamento. É preciso que sua existência ocupe um espaço em nossa vida que antes não existia.
Quando eu ainda andava às voltas com a questão de “adotar” ou não um filho, doar algo que eu não sabia se tinha, disse para meu médico: Tenho medo de ter filho. “De que você tem medo?” Ele me perguntou. De não saber cuidar; respondi. “Você só precisa amá-lo”. Seria só isso? Ah, então estava fácil. Mas o medo continuou. Lacan dizia que amar é dar o que não se tem. Amar é dar ao outro a própria falta. Para amar é preciso ser humilde. Para amar um filho é preciso dar a ele o desejo de desejar. Mesmo que isso custe uma dolorosa e lenta separação. Adriano iniciou sua separação de mim quando nasceu e precisou ser levado para atendimento emergencial. Depois, quando tinha pouco mais de um mês, separou-se mais um pouquinho quando não queria mais ficar no colo de frente pra mim, mas sim de frente pro mundo. Mais um tiquinho quando começou a comer e não queria tanto peito quanto antes.
Ainda essa semana ri com a minha mãe, que só me mandou embora de suas tetas quando eu tinha 4 anos e 20 dentes. VINTE DENTES! Ri ao pensar que se ela não tivesse me dado um chega pra lá, eu estaria pendurada até hoje e nada seria o bastante. Eu precisei separar-me da minha mãe para ser mãe. Eu precisei ser mãe para saber que minha mãe nunca poderia me dar tudo, mas que ela soube me dar o que não tinha.     
Há alguns anos, como um cachorro que corre atrás do próprio rabo, tenho pensado e falado sobre o mistério de minha mãe. Ora, todos sabem que se vai à análise para falar da mãe. Não da mãe real, essa de uma certa realidadezinha em carne e osso, mas dA mãe, aquela que nós criamos. Justamente daquela que um dia temos que nos separar. Perscrutar o mistério de minha mãe me ajuda a ser uma mãe melhor para o Adriano. Porque me ajuda a perdoar todos os erros que ela cometeu e aqueles que deixou de cometer. Porque me ajuda a perdoar os meus erros, antes mesmo que eu os cometa. Se eu não tivesse me separado dA mãe, me cobraria tanto com meu filho que não conseguiria ser sua mãe e ficaria ansiosa pela chegada do segundo filho, para só então fazer tudo certo e acabar fazendo tudo errado, de novo.
Cuidar de um filho é fácil. Basta lavar, secar, vestir, limpar, alimentar, ninar. Amar é uma construção que pode ir se tornando cada vez mais fácil, porque a cada dia nos sentimos mais à vontade pra nos permitirmos errar e, assim, transmitir o essencial: a falta. Deixar que se separem de nós pode ser um pouquinho mais difícil, afinal todos temos expectativas, mas é fundamental para que eles saiam por aí achando o que fazer com suas próprias faltas.
Por ora estou explodindo de alegria com meu primeiro dia das mães. Porque consigo me perdoar por não ser a melhor mãe do mundo, e assim consigo ser mãe. A minha mãe também não é a melhor mãe do mundo. Ainda bem. Mas hoje sei que ela é a melhor mãe que poderia ser. Eu sou a melhor mãe que posso ser.    




  

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