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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Pra quem serve a psicanálise?

  Ultimamente tenho pensado muito no chuveiro, na hora do banho. É um tempo que tenho para estar só com meus pensamentos. Não que me passem coisas muito filosóficas ou existenciais pela cabeça, pelo contrário. Penso, por exemplo, no que fazer para reverter o processo de bunda negativa que o pós-parto me deixou como herança. Essas coisas passam pela cabeça, além dos compromissos diários, as contas a pagar, enfim. Mas eis que ontem me veio uma lembrança da infância que casou com uma ideia para uma crônica que há tempos estava fermentando.
Eu queria falar sobre o processo de análise, para tentar responder a pergunta: pra quem serve a psicanálise? Assim que me enrolei na toalha, a lembrança havia desaparecido, e eu fiquei com aquela mesma sensação de quando sonhamos algo importante, mas não conseguimos nos lembrar. Maldito recalque. O dia foi passando e eu fiz um esforço enorme para resgatar a lembrança que tinha a ver com o assunto da crônica que eu queria escrever. De repente lembrei.
Durante um bom tempo da minha infância, e toda a adolescência, morei numa mesma casa. Quando nos mudamos pra lá o quintal não era cimentado, nem gramado, de modo que eu brincava na terra. Lembro que eu gostava muito de cavar aquela terra porque sempre achava algo enterrado. Nada que tivesse sido enterrado de propósito, como um tesouro guardado para a posteridade. Eram pedaços de coisas velhas, lascas de brinquedos quebrados, objetos esquecidos no tempo, encobertos aos poucos pelos grãos de terra, pela chuva e o vento, pelas memórias. Não eram coisas minhas, eram de outras crianças que já haviam passado por ali. Quem sabe naquela época já nem fossem mais crianças. Aqueles cacos viravam brinquedos e eu gostava de saber que compunha meu mundo fantasioso infantil com coisas remontadas de histórias alheias.
Mas o que isso tem a ver com a pergunta: pra quem serve a psicanálise? É que eu só consigo pensar respostas metafóricas para esta pergunta. Acho chato tentar responder isso teoricamente. Uma das metáforas é a de costurar palavras. Penso que cavoucar o quintal em busca de cacos seja outra. Deitados num divã, não passamos de crianças futucando e remexendo a terra em busca de nossos próprios pedaços. Ora, mas eu não disse que todas essas lascas de coisas esquecidas eram de outros? Sim, foi o que eu disse. É preciso remexer a terra, resgatar aquilo que é do outro, mas que, ao mesmo tempo nos constitui.
A psicanálise serve para quem não conseguiu deixar pra trás a criança que foi um dia. Serve muito para aqueles que ainda não saíram da fase dos “por quês”. Quando começamos a descobrir o mundo, queremos saber os motivos, somos insaciáveis em busca de respostas que façam com que tudo o que vemos tenha uma explicação. Algumas pessoas abandonam as perguntas, mas aquelas que não o fazem, depois de um tempo começam a voltar seus questionamentos para si mesmos. Os que chegam a iniciar uma análise são os inconformados com as respostas que não atravessaram o limiar do óbvio demais. Analisandos são aqueles que não se contentam em olhar para a imensidão do quintal sem ir até lá dar uma mexidinha. E essa mexidinha passa, com os anos, a ser uma reviravolta em que nada mais será como antes.
Não são poucas as pessoas que nos questionam sobre a importância de uma análise. E claro que não é nossa função falar sobre teoria numa entrevista psicanalítica, mas ah, se naqueles primeiros contatos conseguirmos tomar de alguma forma aquele sujeito pela mão, travestirmo-nos de criança também e acharmos a primeira lasca de memória...Se algum desejo de saber adormecido puder ser despertado, o sujeito não quererá parar até que toda a terra do quintal esteja remexida, arada, ainda que as mãos estejam sujas constantemente, a ponto de calejar e sangrar. Criança lá se importa com isso?
A psicanálise serve, e só serve, para quem nunca parou de perguntar. Pra quem não aceita qualquer resposta. Serve pra quem tem um “quê” de arqueólogo das próprias lembranças.   





Isloany Machado, 05/02/2016 

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