Aqui você encontrará textos sobre psicanálise, literatura e meus escritos literários.

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Leia aqui o texto que inspirou o nome do Blog!

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Minha carta ao pai

Pai,
Não encontrei uma maneira melhor de chegar até você, já que não saberia como falar isso ao telefone. Já que as palavras sempre lhe foram tão caras, creio até que minha relação com os livros tenha ligação direta com as vezes em que seus olhos estavam voltados para as infindáveis horas de leitura nas quais você se deleitava sublinhando cada palavra, foi pelo caminho da palavra escrita que decidi te (re)encontrar.

domingo, 11 de setembro de 2016

Carta de aniversário - 1 ano

Filho, vê todas estas pessoas que estão aqui? Elas vieram comemorar junto com a gente seu primeiro aniversário. É incrível quanta coisa aconteceu neste ano, e estas pessoas, de uma forma ou de outra, acompanharam isso tudo. Eu e seu pai escolhemos fazer da sua festa um circo para que você saiba que, apesar de todas as tristezas e dores do mundo, haverá sempre um lugar em que as coisas parecerão mais leves, doces e coloridas.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

É tempo de ipês

É tempo de ipês. Numa época em que tudo está seco, de repente nos deparamos com uma explosão de várias flores que se juntam formando algo grandioso que enche nossos olhos. Estou há dias rodeando em torno disso porque passei por uma experiência que ainda não consegui dar nome. Foi uma coisa física, esquisita, um calafrio, sei lá. Pensei em escrever alguma coisa sobre meu encontro com a árvore florida, mas nem sabia por onde começar para não ficar parecendo aquelas pessoas meio malucas que saem por aí abraçando árvores e entrando em sinergia com a natureza. Nada contra, acho até bem interessante. O fato é que não sabia o que dizer.

domingo, 17 de julho de 2016

Se eu não vejo não existe

Se eu não posso ver o inconsciente, se eu não posso localizá-lo, é porque ele não existe.
Se eu não vejo doentes mentais sendo tratados pior do que animais em verdadeiras prisões, é porque eles não existem. Ah, esses mesmos que não existem, então é sempre melhor tirá-los de nossas vistas.
Se eu não vir as favelas do Rio tampando-as com painéis artísticos, elas não existem.
Se eu não vejo mulheres sendo estupradas por 30 homens, ou mais, isso não existe, ainda que eu tenha uma filha que poderia ser uma delas.
Se eu não vejo gente passando fome, nem a fome nem essa gente existem. Afinal de contas meu armário está cheio.
Se eu não vejo animais sendo cruelmente abusados em experimentos desnecessários, eles não existem.
Se eu não vejo gente doente, nem doenças nem gente que precisa de tratamento existem.
Se eu não vejo idosos sendo maltratados, eles não existem.
Se eu não pensar em crise e trabalhar, a crise não existe, mas o trabalho sim, existe e deveria ser de 80 horas semanais.
Se eu não me queixar de dor, ela não existe.
Se eu não falar, a palavra não existe.
Se eu não vejo
Se eu não
Se eu
Se
$
Isso é o que chamamos de desmentido, mecanismo típico do perverso. Eu vejo e em seguida nego, assim, isso passa a não existir.
O discurso “tolo” de um “cientista” chamado Ivan Izquierdo afeta não só psicanalistas como todos os que brigam todos os dias pelos direitos daqueles que nossa sociedade prefere não enxergar.
Lembremo-nos: tudo o que preferimos fingir que não existe, insiste, persiste.




Isloany Machado, 17/07/2016
   

  

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Você é um milagre em meio ao caos

No caminho que faço de ida e volta do trabalho tem um ponto que sempre atrai meus olhos. É a casinha de um casal de araras, que fica no alto de um coqueiro. O dono da casa em que fica esse coqueiro até construiu uma bela moradia para os dois. Pois bem, sempre que passo por lá fico olhando pra ver se os dois estão do lado de fora. Nem sempre estão. Mas esses dias eu vinha dirigindo e pensando em você, no dia dos namorados, e em tudo que conquistamos juntos. Quando passei pela casinha das araras tive um estalo e não consegui conter essas palavras. Pensei: Por que elas vivem juntas? Por que, mesmo tendo asas para ir a qualquer lugar, preferem estar ali? Voltei a pensar em nós. Há quantos anos? Estou perdendo as contas. Doze?

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Cuidado, Eichmann poderia ser você!

Comentário do filme The Eichmann Show

            Onde estava escondida a humanidade daquele homem que esteve como cabeça em todo o processo que exterminou mais de seis milhões de judeus? É esta a pergunta que persegue o judeu contratado para fazer a cobertura “cinematográfica” do Julgamento de Eichmann na cidade de Jerusalém. Somente monstros fazem monstruosidades? Ou será que humanos, vez ou outra, perdem a noção e o limite de suas ações destrutivas contra os “pares”? Há dias estava enrolando para assistir de uma vez The Eichmann show, primeiro porque sei que tenho o estômago fraco, segundo porque sinto dor.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

A análise é infernal

Flectere si nequeo superos, acheronta movebo!

            Todo psicanalista, pelo menos uma vez na vida, já leu essa frase de Virgílio. Justamente porque ela foi citada por Freud no prólogo daquela que é considerada a grande obra psicanalítica: A interpretação dos sonhos (1900). A famosa Flectere si nequeo superos, acheronta movebo, significa: se não posso dobrar os poderes superiores, moverei o inferno! Acheronta é o nome do rio que atravessa o inferno. Freud queria dizer que sua teoria não falava a respeito dos elementos da razão, bem explicadinhos pela ciência, bem mensurados, constatados e comprovados. A psicanálise é sobre aquilo que a razão insiste em esconder, recalcar.

sábado, 7 de maio de 2016

Separar-se da mãe

Eis que chegou meu primeiro dia das mães. Ano passado ele ainda estava na barriga e ainda era o filho idealizado. Eu não sabia que ele seria melhor do que o tal filho idealizado. Eu não sabia que nunca mais dormiria do mesmo jeito de antes, mesmo que conseguisse dormir. Não sabia que a existência dele ocuparia meus pensamentos de tal maneira que nem dormindo eu conseguiria esquecê-lo. Certo, sabemos que ser mãe não é natural. Mesmo que sejamos mães biológicas de um filho, é preciso adotá-lo em pensamento. É preciso que sua existência ocupe um espaço em nossa vida que antes não existia.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Existe cura em psicanálise?


Milhares de pessoas andam, todos os dias, de um lado para outro. Cruzam avenidas, sobem e descem escadas, aguardam o ônibus, o metrô, de vez em quando caem nos vãos da estação e acabam sendo mastigadas pela pressa supersônica de um tempo em que não se pode esperar. Alguns, ligados no automático, pilotam seus carros, que também são automáticos. Dirigem sem ter condições de digerir a vida. Assim é que vemos, todos os dias, uma dança de corpos. Um certo bailar de pessoas que até pra sofrer não podem demorar muito. Poderíamos dizer que essa dança maluca, que não dá espaço nem para o pensamento, seria uma forma de manter a dor guardada num canto pra ver se esquece de doer?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Pra quem serve a psicanálise?

  Ultimamente tenho pensado muito no chuveiro, na hora do banho. É um tempo que tenho para estar só com meus pensamentos. Não que me passem coisas muito filosóficas ou existenciais pela cabeça, pelo contrário. Penso, por exemplo, no que fazer para reverter o processo de bunda negativa que o pós-parto me deixou como herança. Essas coisas passam pela cabeça, além dos compromissos diários, as contas a pagar, enfim. Mas eis que ontem me veio uma lembrança da infância que casou com uma ideia para uma crônica que há tempos estava fermentando.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O sofrimento psíquico e as palavras

Por esses dias ando um pouco triste. Triste e angustiada. Não, não é verdade. Eu só queria saborear as palavras “triste” e “angustiada”. Se eu estivesse triste, acho que a palavra triste me definiria bem. Não a palavra triste no sentido de que a palavra esteja triste, mas no sentido de que a palavra “triste” definiria meu sentimento. O mesmo serve para a palavra angustiada, não a palavra estando angustiada, mas...bem, vocês entenderam. Fato é que as palavras dão forma aos sentimentos. Estar angustiado, por exemplo, é diferente de estar ansioso. Pense nas palavras, sinta a diferença. Diga: hoje estou angustiado. Tente sentir a angústia. Bem, agora diga: estou ansioso. Sentiu? A ansiedade faz cócegas no estômago e bem no comecinho do intestino delgado, já com a angústia, parece que o buraco é mais embaixo. Ou melhor, mais em cima. A angústia faz assim uma espécie de compressão no peito, atinge pulmão, traqueia, algo por ali. Ambos viscerais. Os sentimentos, as palavras.