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terça-feira, 10 de novembro de 2015

Direito à vida e direito à morte

Você que me lê, não me julgue antes de terminar de ler o texto. Não deixe que a repulsa que sente pelo suicídio escureça suas vistas e não permita que pense por outro lado. Lembre-se que numa história sempre existem dois lados. Há dias ando com uma vontade de escrever sobre isso...meus dedos estão coçando, mas me falta tempo. Tenho uma vida de dois meses em meus braços para cuidar, e há dois meses, esta vida é a coisa mais importante da minha vida.
            A vontade de escrever foi crescendo, crescendo, e hoje não pude mais resistir. Antes vou dizer de onde veio a vontade. Dias atrás li uma reportagem que contava a história de um homem, tetraplégico desde que sofreu um acidente de carro, que combinou com seu irmão mais novo uma forma de deixar esse mundo. Cansado de ser absolutamente dependente pra tudo, ele pediu ao irmão que acabasse com sua vida. Mas ocorre que a eutanásia é ilegal e, portanto, se o irmão atendesse seu pedido, tornar-se-ia um assassino. Mas foi isso o que fez. Ambos tramaram um falso latrocínio (roubo seguido de morte), no qual o irmão cuidador seria o bandido a matar o irmão inválido. História difícil de convencer. Que espécie de monstro roubaria um homem nessas condições? O irmão mais novo, o cuidador, matou o mais velho, inválido, com vários tiros na cabeça.
            Parece chocante né? Mas quem poderá julgá-lo? E se ele fez isso por amor? Depois de ler essa história, comovida, me coloquei no lugar tanto de um como de outro. Seria eu capaz de fazer isso por um irmão? Seria eu capaz de viver tetraplégica? Automaticamente meus pensamentos me levaram aos suicidas. Uma história de eutanásia como esta facilmente convenceria a opinião das pessoas sobre a impossibilidade de viver assim. Talvez ninguém tentasse convencer do contrário alguém que quisesse morrer, nessas condições. Mas daí pensei: em que isso é diferente do suicídio? Por que temos tanta dificuldade em lidar com ele?
            Se você ainda não me abandonou, espere. Se você acha o suicídio a coisa mais absurda do mundo, não vá ainda. Não deixe que a repulsa que este texto pode vir a causar tome conta de você antes da hora. Pense comigo: você entenderia se a pessoa que mais ama estivesse tetraplégica e quisesse morrer? Consegue imaginar a dor que ela deve sentir? Agora tente imaginar o tamanho da dor de existir de um suicida. Sabia que todas as declarações de Direitos Humanos e, inclusive nossa Constituição, garantem o direito à vida, mas não dizem nada sobre o direito à morte? É isso, ninguém tem o direito à morte.
            Calma, não vá ainda. Não saia por aí dizendo que eu sou uma defensora do suicídio. Se você quer saber, eu já perdi alguém assim. E sabe, logo que recebi a notícia, minha primeira vontade foi de matá-lo. Pensei no quanto sua atitude foi cruel e egoísta. Já se passaram anos desde que ele se foi e só agora consigo pensar nisso. Ninguém nunca soube exatamente o porquê. Ele não deixou nenhum bilhete, nenhuma carta. Agora, anos depois, consigo pensar e aceitar que deveria haver o direito à morte. Mas, na verdade, o preceito de direito à vida acaba se tornando um dever. Só agora consigo pensar que a egoísta fui eu.
            Sou psicóloga, mas não me julgue. Eu sei que no Código de Ética da profissão está bem claro que devemos trabalhar em prol da vida. E eu faço isso todos os dias, como psicanalista, desde que aqueles que me procuram queiram lutar pela vida. Andei pensando: em que uma total invalidez física seria diferente de uma dor de existir tão avassaladora que fizesse com que o sujeito desejasse, com todas as suas forças, morrer? Quando alguém decide morrer, por que isso é tão insuportável pra quem fica? A culpa, é claro. Sempre ela.
            Nós nos sentimos culpados porque alguém que amamos decide morrer, como se tudo dependesse de nós. O que fizemos de errado? Por que nosso amor não foi capaz de fisgar o outro dos braços pegajosos da morte? Ei, mas e o outro? Calma. Será que já paramos pra pensar que nem tudo é controlado por nós? Toma essa Ego filho da puta. Desculpe, me exaltei. É que esse nosso Ego às vezes não entende que existe algo para além dele que está fora do alcance. Ele acha que pode salvar o mundo.
Não sei por que me veio à cabeça agora a cena de um dos filmes do homem aranha em que ele não consegue salvar a mocinha e ela morre. Lembro que quando assisti, quase morri junto e o filme, pra mim, acabou ali. Poxa, ao menos nos filmes o herói sempre salva a pessoa mais importante da sua vida, da morte. Bem, na vida real não é assim e temos muita dificuldade em aceitar isso. Porque isso joga na nossa cara o quanto somos impotentes diante de uma dor de existir avassaladora. Isso expõe nossas fraquezas, nossas feridas. Isso faz com que, diante do olhar do outro, nos sintamos culpados. Lembra que eu já passei por isso? Não, meu caro, não falo só de teoria.
Aceitar que o outro, amado ou não, queira morrer, traz uma dor de morte ao nosso Ego. Onde foi que erramos? Mas e se ele quis morrer sem deixar carta? Te parece absurdo isso enquanto lê esse texto? E é. A morte é absurda. A morte é íngreme, como diria Manoel de Barros. Você ainda está aí? Pense então no que se faz com a libido, ou amor, que antes era dirigido a esse objeto/pessoa e agora está solto. No mar infinito à deriva. Pode ser que fique à deriva por muito tempo, misturada à dor e culpa. Ah, Ego filho da puta. Em algum tempo, diferente do tempo ditado pelos manuais de saúde mental, em que o luto deve durar 15 dias, em algum tempo a libido se orienta para outros objetos. Talvez a culpa se amorteça, talvez não. Talvez a libido escorra e se deite sobre o papel, como no meu caso.
Você ainda está aí? Então, por favor, não pense que estou fazendo apologia ao suicídio. Ao contrário, meu Ego gosta muito de viver. Só quero me ajudar a entender.
Você ainda está aí? Então não me julgue.  




Isloany Machado, 10 de novembro de 2015.

3 comentários:

  1. Por muitas vezes tentei o suicidio. Nao que eu nao o deseje mais. Penso nisso todos os dias mas como imputar a dor da minha morte ao meu filho e netos. Ao contrario das outras pessoas o existir para mim e avassaladoramente doloroso. Beco sem saida...

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  2. Por muitas vezes tentei o suicidio. Nao que eu nao o deseje mais. Penso nisso todos os dias mas como imputar a dor da minha morte ao meu filho e netos. Ao contrario das outras pessoas o existir para mim e avassaladoramente doloroso. Beco sem saida...

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  3. Confesso que por muitas vezes pensei sobre isso...se a pessoa não quer viver, porque lutar para que esta viva sofrendo??? Nunca tive coragem de escrever ou falar sobre isso... Parabéns!!!

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