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terça-feira, 4 de agosto de 2015

A felicidade existe?

Este não é um texto de autoajuda. Também não é um texto que pretende dar resposta à pergunta do título. Você ainda está aí? Bem, se não desistiu é porque é do time de pessoas que gosta de ler pelo simples fato de que gosta de ler. Então seja bem-vindo ao meu blog, que ultimamente tem ficado de lado por causa de um ser que está dentro da minha barriga e toma meus pensamentos. A responsabilidade não é dele, é minha, sei disso. Mas por enquanto estou me inteirando sobre bodies e mijões, macacões e pagões, plush e malhas, fraldas de boca, fraldas propriamente ditas, toalha-fralda, cueiros, fraldas descartáveis e mais uma infinidade de coisas que um bebê, teoricamente, precisa para viver fora do meu útero.
E pra mim isso quase que tem sido mais complexo do que estudar Lacan ou escrever uma dissertação. Eu nunca sei as quantidades das coisas que devo comprar, sempre que uma amiga dá dica de promoção de fralda em tal ou tal lugar, eu sempre consigo comprar a fralda errada. Não sei como esse fenômeno acontece, mas acho que me atrapalho toda porque estou tentando ser mãe e me adiantar às necessidades do meu filho antes mesmo que ele nasça. Será que toda mãe é assim? Veja que já comecei a fazer perguntas idiotas! É claro que não. Nem todas as mães são iguais, nem todas as mulheres querem ser mães e isso não desqualifica ninguém em nada. Mas desde que se decide ser mãe, a vida vira do avesso. Não sei se posso falar por outras, então falarei por mim.
Uma das coisas que as mães fazem é o tal de chá de bebê, ou chá de fralda, ou chá de alguma coisa parecida com uma reunião de amigas que celebram juntas a chegada de um bebê. Como já disse em outros textos, eu sempre fui aquele tipo de pessoa que segura um bebê a meio metro de distância, não por não gostar, mas por não ter ideia do que fazer com ele. Quando alguém, não me lembro quem, ao saber que eu estava grávida disse: “Ah, que notícia boa! Me convida pro chá”, foi a primeira vez que me dei conta de que agora era a minha vez. Muitos não sabem, mas eu sou uma pessoa muito esquisita, e a primeira coisa que me veio à cabeça foi: “Que fazer chá, que nada, dá muito trabalho isso e eu não dou conta”. Eu faria outro mestrado, mas não daria conta de organizar sozinha um chá de bebê.
Resoluta, nem pensei mais no assunto. Até que minha irmã anuncia que ela, o marido, o filho e minha mãe virão me visitar. Então pensei: “Opa, será que ficaria legal fazer um chá quando elas estivessem aqui? Assim poderiam me ajudar e afinal, eu gostaria de compartilhar esse momento com elas”. Escrevi para as duas: “Estou pensando em fazer o chá de bebê quando vocês estiverem aqui”. As duas gostaram da ideia. Comecei a olhar na internet as ideias para saber como fazer isso, porque sempre fui uma negação em organizar qualquer evento, por mais simples que fosse.
Quando comecei a ver as fotos, me senti ridícula e quase desisti. As decorações de chá de bebê pareciam mais elaboradas até do que as de festas de um ano. E eu só pensava: “Onde foi parar aquela conversa de juntar as amigas na varanda de casa, pendurar umas roupinhas do bebê num varal, encher uns balões, tomar um lanche e pagar uns micos?”. Foi quando eu comentei com o marido e mostrei as fotos a ele, que gritou, exasperado: “Mas que diabo é isso?”. Pois é. Ainda bem que nos encontramos um dia, pois já fizemos uma festa de casamento que não se parecia nada com uma. A festa foi tão atípica que uma amiga comprou os noivinhos e colocou em cima do bolo, porque nem isso havíamos feito. Agora fizemos um filho e estamos juntos em continuar fazendo as coisas do jeito que acreditamos e queremos. Eu queria um chá que reunisse minhas amigas de verdade. Quase couberam nos dedos das mãos. Mas era exatamente isso que eu queria: gente que realmente sabe quem eu sou, gente que já me viu pelada, gente que já me viu chorando, gente pra quem eu posso reclamar da vida, gente que já dormiu na minha casa, gente que eu já vi chorar, sofrer por perder alguém ou por amor.
Começamos com os preparativos: o pai fez o convite virtual, compramos as coisas pra fazer as lembrancinhas, e agora era só esperar chegar mais perto do dia para que pudéssemos encomendar comes e bebes. Seria absolutamente sobre-humano pra mim fazer docinhos e salgadinhos. Então a amiga mais prendada pra essas coisas se ofereceu para fazer os docinhos e no dia chegou mais cedo para deixar aqui em casa. Enquanto preparava os doces, ela ia me mandando fotos, toda empolgada, das paneladas. E ela estava aqui no dia e na hora, antes da hora, feliz por mim e pelo filho que vai nascer.

A amiga que é meu guru da maternidade, que acabou de ter uma filha há um ano, me deu todas as dicas de como poderia organizar essa festa, me emprestou coisas, veio trazer mesas e cadeiras, toalhas de mesa (que eu nem lembrava que tinha que usar), bandejas, ajudou no orçamento até dos salgados, ufa. É ela a amiga pra quem não tenho vergonha de mostrar os peitos pra que me diga se está ficando bom pra amamentação. E ela estava aqui no dia, um pouco antes da hora, pra me ajudar a arrumar o que faltava, me olhava feliz por ver o quanto eu estava contente.


E a amiga de Cuiabá, mais que irmã, desde que tínhamos 15 anos, chegou de viagem no dia do chá, bem cedo, e me ajudou a picar as frutas para a salada de frutas que inventei de fazer, e me ajudou a colar as letras do nome do meu filho na parede, e juntou os balões e colocou nas paredes. Ela veio, mesmo tendo perdido um irmão pra morte há pouco mais de quatro meses. Ela estava aqui, pisando o mais fundo possível em sua dor para compartilhar minha alegria.

E uma ex-professora, que é uma pessoa aconchegante (não encontro outra palavra para falar dela) de quem gosto muito, e que participa tanto da vida de tantos de nós, que fez da relação na universidade uma amizade pra vida toda. Ela trouxe também a filha, que está grávida e linda, compartilhando esse momento surreal da vida.
E veio a moça que arruma minhas unhas toda semana, e se tornou amiga porque eu conheço os filhos dela, ela vê minha barriga crescer toda semana. Veio também a mãe dela, que me ajuda a cuidar da casa e por quem minha cachorra surda grita de felicidade sempre que vê. E veio a vizinha, que fez o bolo pro chá, alegria da mulherada de tanto chocolate que tinha.
Veio também a amiga da faculdade que fez mestrado junto comigo, que tem os olhos amendoados, eternizados num texto do meu primeiro livro. Nunca nos vimos peladas, mas já a vi chorar, o que dá na mesma. Veio a amiga que tem dois filhos, que a colocam de cabelo em pé e mesmo assim ela ama mais que tudo. Veio a moça que é namorada do colega de trabalho do meu marido, que eu fiz questão de chamar, porque há algo além no que sinto por ela mesmo sem conhecê-la muito bem. Não acredito em outras vidas, mas se acreditasse, facilmente pensaria que já nos conhecemos. Sabe aquele sentimento gratuito? É dele que estou falando.
Veio a cunhada, tia paterna, e a sogra, avó materna. Sempre às voltas com o tempo, chegaram depois do meio da festa, mas o que importa é que vieram, como puderam, e a tia passou a noite fazendo bombons para colocar nas lembrancinhas do chá. Estão esperando o novo membro da família para pegar no colo e dizer: “Olha como esse nariz parece com o do avô! E essa sobrancelha igualzinha a da minha mãe?!”.
Competirão com a tia materna, minha irmã, e a avó materna, minha mãe, que estavam aqui e, com seus jeitos tão desastrados quanto o meu, ajudaram na preparação das coisas da festa. E foi grande a ajuda. Minha mãe está de passagem comprada para vir quando ele nascer, e com certeza passará um mês inteiro tentando lambê-lo com a mesma lalíngua com que me lambeu quando nasci. E com certeza passaremos um mês brigando porque eu não vou deixar, e porque ela sempre acha que ele está com fome, desde que contei que estava grávida. Vocês entenderam? Ele ainda não nasceu e ela sofre por achar que ele está com fome! E a minha irmã, que se roeu de ciúme quando eu nasci, agora espera ansiosa pra ver o rosto do sobrinho.
Na festa, eu olhava pra todas elas e não tinha como não estar feliz. Entendi que pra mim é mais fácil fazer uma dissertação porque pra isso não preciso de ninguém além dos livros. Organizar esse chá mobilizou coisas e pessoas que eu sei que realmente gostam de mim, e às vezes, se sentir tão amado, dá até uma pontada de culpa na gente. Eu avisei que era esquisita. O pai do Adriano, além de tê-lo feito junto comigo, ajudou em todas as coisas da festa que exigiam coordenação motora fina, tais como amarrar um laço de fita de cetim. O tio, marido da minha irmã, encheu os balões até ficar com a boca azul. Mas todos os homens foram expulsos da casa, sob protestos. O pai queria se infiltrar como fotógrafo, não deixei. Eles querem sempre um dia de passe livre, mas nunca sabem o que fazer com ele. Saiu de casa acompanhado do cunhado e da filha mais velha, nossa cachorra que não deixaria ninguém em paz. Voltaram antes da festa acabar, é claro. 


E foi tudo exatamente como eu queria: no quintal de casa e sem frescura. É uma pequena felicidade, ou pode parecer pequena, mas fiquei agradecida por tudo o que senti naquele dia e nos que se seguiram. Ainda que todos digam que o difícil mesmo é depois que o filho nasce, não quero me preocupar com isso agora, cada coisa em seu momento. A felicidade pode ser apenas isso, não adiantar preocupações que certamente virão, mas que não precisam fazer sombra naquilo que é essencial: o momento.  

      
     

Isloany Machado, 04/08/2015 

Um comentário:

  1. É uma delícia ler seus textos! há tempos não passava por aqui, e me sinto feliz ao ler! Vc consegue descrever a felicidade do modo simples e enigmático, tal qual ela é!

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