Aqui você encontrará textos sobre psicanálise, literatura e meus escritos literários.

Precisa de revisão ortográfica? Venha para a Oficina do Texto: Clique aqui!

Leia aqui o texto que inspirou o nome do Blog!

terça-feira, 23 de junho de 2015

Vida de escritor: Fantasia X Realidade

Escritores, em geral, gostam de passarinhos. Os pequenos voadores nos inspiram, dão asas para a imaginação. Invejamos os pássaros, justamente porque têm asas, enquanto nós, “bípedes implumes” – como nos dizeres de Platão – só podemos voar quando embarcamos em um avião, ou quando – nossa maneira preferida – colocamos os pés em uma boa história. Os escritores, voamos quando lemos, quando escrevemos, quando sonhamos, ou quando admiramos o belo voo de um passarinho. Leia o “Poeminha do contra”, de Mário Quintana:
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Leia em Manoel de Barros:
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas
mais que a dos mísseis.
Tenho em mim
esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância
de ser feliz por isso.
Meu quintal
É maior do que o mundo.

            Amar um passarinho é gostar de olhar para o alto. Nada pode ser mais desalentador do que um passarinho caído no chão, de asas quebradas. Todo escritor busca seu momento de inspiração, aquele em que finalmente estará cara a cara com um exemplar bico e pena. Eu esperava meu dia chegar. Sonhava com o momento em que finalmente sentiria o doce soprar das asas tocando minha face lírica.
            Eis que finalmente o dia chegou. Estava na frente da tela do computador, a parir um texto, quando ouvi um ruflar de asas. Corri pra sala, de onde vinha o som inspirador. O passarinho era acinzentado, parecia uma rolinha. Não sei se era, já que a inspiração não depende de nomenclaturas. Fiquei a observar calmamente o bater de asas. Busquei fundo o ar para sentir mais de perto o cheiro da liberdade. Mas ele me pareceu meio perdido. Voava rente ao teto da minha casa e não encontrava saída. Por alguns momentos me deleitei com sua desorientação, pois só assim poderia ficar perto do que tanto nos inspira. A partir dali escreveria a melhor poesia.
            Foi quando de repente, o passarinho resolveu dar um passeio pela casa. Algumas pluminhas começaram a pintar o chão da casa. Ah, que coisa linda! Pensei. E num segundo o passarinho estava no meu quarto. Pousou docemente – talvez não tenha sido tão docemente assim – sobre o guarda-roupa. Em pouco tempo eu teria que sair de casa, então, como deixar o passarinho dentro do quarto? Subi na cama e tentei fazer com que ele voasse de lá para fora. Ele voou para cima do ar condicionado. Peguei a escada, subi e, ainda pacientemente, fiz com que ele saísse de lá. Pousou novamente sobre o guarda-roupa. Desci da escada, subi na cama e, munida de um cabo de vassoura, cheguei perto dele. Voou para o ar condicionado. Desci da cama, subi na escada, cabo de vassoura, guarda-roupa. Escada abaixo, cama acima, vassoura, ar condicionado. Cama abaixo, escada acima, vassoura, ar condicionado.
Ficamos assim por cerca de quinze minutos. Foi um exercício e tanto. O tempo estava passando e eu precisava sair pra trabalhar. Quando finalmente consegui fazer com que ele saísse do quarto, voou pelo corredor, até pousar no ventilador de teto, na sala. Havia ainda um fiapo de inspiração que eu insistia em manter, escritora que sou, mas foi completamente rompido quando, na guerra das espécies, ele cagou na minha cabeça. Enlouqueci. Gritei. Dei vassouradas a esmo até que o agora maldito passarinho encontrasse a saída da minha casa. Acredito que eu o tenha assustado com meus gritos. Mas ele me avacalhou quando cagou na minha cabeça. Poxa! Eu só queria um tiquinho de inspiração! Não precisava me mandar à merda!
 Esta crônica é pra dizer que nós escritores vivemos de inspiração. Vivemos das histórias que inventamos a partir de objetos ausentes. Quanto mais ausentes, mais inspiradores. Para escrever é preciso estar em falta, para alguns, ou em excesso, para outros tantos. A minha escrita é pela falta. Quando estou em excesso custo a escrever. Quando a realidade invade a fantasia e caga na nossa cabeça, lembramos que a ausência do objeto é sempre mais inspiradora. E assim vive um escritor. 

       

Isloany Machado, 23/06/2015 

Nenhum comentário:

Postar um comentário