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terça-feira, 9 de junho de 2015

Por que preciso que Vitória vença?

Hoje, pela terceira vez, fui visitar Vitória. Ela não sabe quem eu sou, nem porque vou lá visitá-la, mas há algo que me impele e me faz querer vê-la. Eu tenho milhares de amigos que publicam nas redes sociais fotos e vídeos de cachorros, tanto os abandonados, os perdidos, os maltratados, como os fofos, lindos e bem cuidados. Confesso que nem todos me tocam, alguns mais, outros menos, de modo que minha vida segue sem interferências, sem que eu queira abrir uma ONG para salvar animais e etc. Trabalho que acho louvável, mas que sei que eu não daria conta de fazer.
Desde a infância, eu nunca tive um cachorro pra chamar de meu. Todos os que tive enquanto morava com meus pais e minha irmã, eram dela. Então, na verdade, a responsabilidade nunca foi minha de fato. Quando algum de nossos cachorros adoecia, minha irmã contava as moedas que juntava com os trabalhos que fazia (venda de doces, aulas de reforço para as colegas, etc), e pagava o tratamento. Minha irmã sempre foi mais esperta do que eu, que não sabia ganhar dinheiro nenhum e, portanto, não ajudava em nada. Quando muito, não atrapalhava.
Só fui ter cachorro depois que casei, porque o marido veio com a cachorra junto. Safira era o nome dela. Então, mais uma vez, não era uma cachorra pra chamar de só minha, até porque a preferência dela por ele era mais nítida do que a água mais límpida da história da humanidade. Assim como de todas as outras cachorras que tivemos depois. A July foi a segunda. E agora a Pucca, que faz uma festa de arromba quando ele chega e, pra mim, pouco mais que uma faceiricezinha modesta. Mesmo que eu lhe dê colo, coloque água e comida frequentemente, coce sua orelha, e essas coisas que se faz com cachorro, ela não esconde que seu amor por ele é muito maior. Mas ok, eu sobrevivo.
E eu disse tudo isso por quê? Ora, pra justificar que Vitória seja uma exceção na minha vida. Ela virou do avesso uma cena infantil que vivi. Que não poderia contar aqui, mas somente num divã de analista. O fato é que todos os dias eu tenho que saber dela. Visito a página de uma das pessoas que a resgatou para saber como ela está.
Em outro texto eu disse que, pra mim, não há teoria que explique tamanha crueldade. Mas sabemos que existe sim. Só que, naquele momento, nada poderia aplacar a angústia que eu sentia diante do Real cruel a que Vitória foi submetida. Sabemos do que o ser humano é capaz. Estamos de acordo que o humano não nasce bom e é corrompido pela sociedade, mas que nasce todo pulsional, de modo que não hesitaria em destruir o outro (qualquer outro) para satisfazer seu prazer, para gozar. Aos poucos isso vai sendo interditado, pelas leis, pela moral, pela religião, pela culpa, enfim. E que bom que assim o é, caso contrário estaríamos na barbárie. Da culpa a gente se livra no divã do analista.
Mas o que fizeram com Vitória esfrega na nossa cara – sujeitinhos bem educados, limpinhos e cheirosos, pagadores de impostos, dízimos e afins – o quão cruel podemos ser. Mesmo que passemos a vida sem matar uma mosca sequer, há em nós uma espécie de “tesouro” subterrêneo que pode vir à tona a qualquer momento. Nos toca tanto porque poderia ser um de nós, poderia ser um de nossos filhos, poderia ser nosso melhor amigo. E então? Isso é insuportável. Depois de alguns anos de análise consigo admitir, por exemplo, que todas as vezes em que vejo um motociclista empinando a moto e fazendo zoeira na rua, desejo do fundo do meu coração que ele caia. Não precisa morrer, mas que caia e se rale. Demorei muito pra conseguir dizer isso, mas foi preciso.
Hoje quando fui visitar Vitória, eu pensava que minha angústia tem a ver com a culpa que sinto pelo que fizemos com ela. Sim, nós fizemos. Nós humanos. Nós cruéis. E assim somos. Hoje durante a visita encontrei uma das pessoas que a resgatou. Ela passava e passava a mão na cabeça da Vitória. Chorei. Não só pela culpa, mas por acreditar na civilização. Chorei, talvez de alívio, por acreditar que há mais culpados nesse mundo do que cruéis sem pudores e culpas. A veterinária me dizia: “Não chore! A gente fica indignado, mas não há o que fazer quanto a isso”. E ela estava coberta de razão. Só podemos remediar os efeitos de nossa própria crueldade latente.
Todos precisamos que Vitória de fato vença, não como um Cristo que precisava morrer para expiar os pecados, mas que viva para que possamos provar para nós mesmos que, apesar de nossa crueldade latente, o amor (leia-se libido no sentido freudiano) que investimos em outrem tenha supremacia.
É só o que desejo: que Vitória vença para que eu continue acreditando que nem tudo está perdido.   


           
Isloany Machado, 09/06/2015

P.S.: Quem quiser ajudar financeiramente, Vitória está sendo tratada na clínica Petit Bichon, R. Joaquim Murtinho, 1177 - Itanhangá Park, Campo Grande - MS, 79003-020. Fone: (67) 3324-5500. Afinal, o amor é lindo, mas também tem um custo. 

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