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sexta-feira, 29 de maio de 2015

Pela terceira e última vez, então vou ser mãe de menino?!

Nas duas últimas vezes em que tentei escrever sobre como foi receber a notícia de que serei mãe de menino, não consegui ir direto ao ponto. Por quê? Ora, porque havia muito a dizer e sempre haverá mais, ainda. Já disse também que nunca imaginei como seria ser mãe de menino, mas na verdade, nunca imaginei como seria minha vida sendo mãe. Acho que a única coisa que pessoas como eu pensam quando decidem ser mães – sim, pois é sempre uma escolha – é no processo de tentativa de engravidar. Quanto tempo será que vai demorar? Esse mês será que foi? Muitas mulheres chegam a ficar tão ansiosas que faltam dizer: “Não converse comigo hoje, estou fazendo o controle da minha temperatura corporal para saber quando ovularei”. Graças ao senhor Jesus, este não era o meu caso. Sou histérica sim, da estrutura ao acabamento, mas isso seria ir além de todos os meus limites neuróticos.
De modo que estava numa boa, esperando o dia em que seria tomada pela graça, pelo desejo materno, que faria com que tudo dentro de mim mudasse. Eis que o dia chegou. Eu estava grávida e, de repente, minhas mãos ficaram maiores do que meus bolsos. Quis imediatamente jogar todas as coisas da casa fora para acomodar meu filho, e essas coisas de mães histéricas. Logo todas as pessoas começam a dar palpites sobre o sexo do bebê, que você, obviamente, ainda não sabe qual é e ainda demorará um tempo para descobrir. “Eu acho que é menino, você em cara de mãe de menino”. E eu sequer sabia que havia caras diferentes. “Ah não, eu sempre pensei que você seria mãe de menina”. Alguns chegaram mesmo a atribuir nome à menina que estaria a caminho: “Como está a fulana?”, metendo a mão na minha barriga, já transformada em coisa pública. Não duvido que tenham feito um bolão pelas minhas costas.
Na primeira consulta com o obstetra, na décima semana, durante o exame ultrassom, ele me pergunta: “Você tem alguma intuição sobre o sexo?”. Espantada com a pergunta inesperada, me senti a pior futura mãe do universo porque não tinha uma certeza interna de qual seria o sexo do meu bebê. Será que eu tinha que saber? Que espécie de mãe seria eu, que nem podia adivinhar, através do sangue compartilhado pelo cordão umbilical, o líquido amniótico, os cromossomos, o sexo do meu bebê? Saí da consulta arrasada, tentando cavar no fundo do meu ser uma resposta para aquela pergunta. O doutor tinha um palpite, de que era menino, mas me implorou que não comprasse toda a decoração do quarto, todas as roupinhas com motivos masculinos, já que ainda era muito cedo para dar certeza. “Não conte pra ninguém”, disse ele.
Incrédula, não achei que fosse mesmo possível já saber se era menino ou menina, já que a imagem na tela do monitor só me mostrava uma cabeça e quatro bolinhas que, segundo ele, eram os pés e as mãos do meu bebê.
Antes disso, em diálogo com meu marido, soube que ele não tinha preferência por menino ou menina, mas que se sentiria mais seguro se fosse menina porque sabia que ela teria a mim para ensiná-la as coisas de mulher. Pobre de meu marido, mal sabe que as mulheres aprendem isso sozinhas. Ainda na lógica dele de engenheiro, por outro lado, se fosse menino, como poderia ensiná-lo a se apropriar dos “documentos” ou das “insígnias” do pai? Nós psicanalistas estamos carecas de saber que nem as meninas aprendem a serem mulheres com as mães, e nem os pais conseguem fazer com que os “documentos” ocupem um lugar que é cativo da falta, seja em homens ou mulheres. Eu disse isso a ele para acalmá-lo, caso fosse mesmo um menino.
Na semana seguinte, o pai chegou em casa assustado e me disse: “Tomara que seja mesmo um menino porque hoje vi um velhote comer com os olhos uma menina de uns 12 anos. Ah, se fosse minha filha, eu seria capaz de matar um infeliz desses...”, e falou ainda por uma meia hora, enciumado, imaginando que sua menininha não poderia namorar antes dos trinta anos.
Quando de fato descobrimos que era menino, com catorze semanas, começamos a contar para as pessoas e não imaginávamos as coisas que ouviríamos. “Meus parabéns!”, “Nossa, vocês são sortudos hein?”. Ora, então se fosse menina seríamos azarados? “O pai deve estar feliz hã? Com um sorriso de orelha a orelha!”. Eu e meu marido nos olhávamos e não conseguíamos entender por que o fato de ser menino era tão aplaudido assim. Depois começamos a ouvir as explicações, principalmente dos homens, que se preocupam muito com dinheiro: “Meninas gastam o triplo”. E por aí vai. Mas particularmente, no fundo do meu ser feminino, achei que já começara ali a visão machista do mundo. Não vou entrar em detalhes sobre isso, porque não é este meu objetivo, mas meu orgulho ficou um pouquinho ofendido, já que não escolheria outra coisa senão ser mulher, ainda que eu não faça a mínima ideia de como combinar laços e sapatos até hoje.
Depois de saber que seria menino, comecei então a me acostumar com a ideia, e teria sido assim também caso fosse menina. E ele, o Adriano (precisarei de outro texto para contar a reação das pessoas com a escolha do nome), já se transformou no meu falinho. Sou a histérica mais feliz do mundo e confesso que enquanto via meu filho pela primeira vez, a única coisa em que pensava era: “Ufa, não era gravidez psicológica”.       



Esta é a fotografia da primeira vez que vi meu filho.
Quando ainda era cabeça e bolinhas.
      
   

Isloany Machado, 29/05/2015 

Um comentário:

  1. Falando agora sobre meu tema de TCC com vc, e lendo este texto.
    Viu como a relação entre mãe e Filha já começa conflituosa mesmo antes de saber o sexo? E como a sociedade enxerga isso?
    Mto interessante.
    Espero ler sobre o assunto mais vezes por aqui. Curiosa!
    Bjs

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