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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Sobre a psicanálise, a física quântica e a existência de Deus

Fui convidada por um amigo muito querido a escrever sobre a importância de Freud nos dias de hoje. E quando falamos do tema, inevitavelmente veio na sequência: se é que ele é importante nos dias de hoje. Devo dizer que sou relativista, pois não acredito em nada absoluto. Faço então a velha oposição entre absoluto e relativo. Só acredito em verdades relativas. O absoluto é da ordem do dogmático, da crença. É claro que toda teoria começa com uma hipótese que poderá ser ou não comprovada, mas como o próprio Freud dizia em seu texto sobre a pulsão e seus destinos, nenhuma ciência, nem mesmo a mais exata, começa com conceitos claros e bem definidos. E ele exemplifica recorrendo à física: esta “proporciona excelente ilustração da forma pela qual mesmo ‘conceitos básicos’, que tenham sido estabelecidos sob a forma de definições, estão sendo constantemente alterados em seu conteúdo” (FREUD, 1914/2006). Assim é a ciência.
Agora imagine que num dia qualquer você acordasse e tivesse a impressão de que ainda é muito cedo, pois tudo está profundamente escuro. Tateando as paredes, vai até a janela do seu quarto e a abre. O escuro ainda está lá, dentro de seus olhos. Seu corpo é invadido por uma corrente elétrica alimentada pelo desespero de descobrir, sem mais nem menos, que você está cego. Não de uma cegueira branca, como a de Saramago em Ensaio sobre a cegueira, mas de uma escuridão densa e infinita. Você pede ajuda para alguém, para qualquer um, e neste momento sente agitar-se dentro de si o mais profundo mar de desamparo. Em sua cabeça, mil conjecturas sobre os motivos da cegueira, mas nenhuma delas é confirmada por todos os exames a que foi submetido durante horas de longa e surda espera. E você prefere acreditar que é o exemplar único de uma rara doença que ainda não foi catalogada do que acreditar que isso pode ser “psicológico”.
Um caso assim não tinha explicação “razoável” nem para a ciência da época de Freud, nem pra ciência dos dias de hoje. Eu jamais me atreveria a falar de mecânica quântica, mas se pegarmos uma definição simples, veja do que se trata: A palavra “quântica” (do Latim, quantum) quer dizer quantidade. Na mecânica quântica, esta palavra refere-se a uma unidade discreta que a teoria quântica atribui a certas quantidades físicas, como a energia de um elétron contido num átomo em repouso. A descoberta de que as ondas eletromagnéticas podem ser explicadas como uma emissão de pacotes de energia (chamados quanta) conduziu ao ramo da ciência que lida com sistemas moleculares, atômicos e subatômicos. Este ramo da ciência é atualmente conhecido como mecânica quântica. Freud fez uma espécie de teoria quântica, para dizer que o corpo é tocado por uma quantidade de energia (a famosa libido), que estaria ligada a uma ideia. E este é o aspecto genial de sua teoria: a representação. A “energia” que afeta o corpo, os afetos, nada são sem a ideia que os represente psiquicamente. Ficar preso à quantidade não leva a lugar algum, somente a uma cegueira escura e profunda. Fazer exames e exames, dar nomes e nomes, é o mesmo que andar às cegas.
Todos estão carecas de saber que é disso que se trata na descoberta freudiana. De algo que a ciência não dá conta de mensurar, explicar, mas que está aí diante de nossos olhos, por mais que quiséssemos ficar cegos. Mas com todo o avanço da ciência, com os exames mais precisos e absolutos, que lugar pode ocupar esta teoria de dois séculos atrás? Parece insano que uma comunidade de pessoas, psicanalistazinhos, ainda não tenham se rendido às neurociências. É porque não dá pra medir afetos, não dá pra medir libido. Só se faz alguma coisa com Isso a partir da representação. Se se quer saber de que se trata quando nenhuma ciência empírica consegue detectar onde está o erro do sistema, não cale o sujeito, faça-o falar. Ah, mas isso é tão velho quanto Freud! E tão atual! Não cale, fale. O erro está contido em uma letra. Às vezes uma letra é o que basta. A palavra afeta o corpo. A palavra cega, mas a palavra não é cega.

Jamais negaremos a importância dos avanços da ciência no sentido de precisão nos exames e etc, mas há no fundo do ser algo que insiste, persiste em não ser medido. “A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem nos encantos de um sabiá. Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare.” (Manoel de Barros, o eterno). E se você me perguntar: “será que Deus existe?”, eu te direi: depende da quantidade que ele representa pra você.       

Isloany Machado

12 comentários:

  1. Excelente texto...excelentes ideias!

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  2. Minha cara Isloany,

    Posso reproduzir seu texto em meu site (copiá-lo), mencionando a fonte?
    Abç

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    1. Pode sim Tiago, depois me passe o link para que eu possa compartilhar.

      Abraço

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    2. http://tiagolupoli.com/sobre-a-psicanalise-a-fisica-quantica-e-a-existencia-de-deus/

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    3. Muito obrigado! Abç

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  3. Gostei muito do texto e também acredito que Freud é atualíssimo, mais hoje do que já fora em qualquer outra época! Abraços.

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  4. não cale o sujeito, faça-o falar. Ah, mas isso é tão velho quanto Freud!
    Show!!!

    Bom saber que temos colegas de profissão bem lucidos, pois os dias estao dificeis......rsrsrs
    abçs

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    1. Parabéns pelo excelente texto. As respostas estão dentro de nós e para acessa-las basta clicar no botão"Fale"

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