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sábado, 4 de abril de 2015

A culpa é do Judas

Há muito, muito tempo, abandonei o Cristianismo. Foi desde quando tentaram me convencer de que era a única verdade. Não posso com verdades únicas, nunca pude. Posição que não é fácil de ocupar, nem admitir, desde que você viva em um meio cultural fortemente carregado de toda uma série de crenças cuja origem é cristã. Mas infelizmente, não há quem me convença dA verdade, seja A verdade cristã, ou A verdade muçulmana, ou A verdade niilista.
Apesar de há muito, muito tempo ter abandonado o Cristianismo, o Cristianismo não saiu de mim. Eu ainda choro assistindo a paixão de Cristo. Eu ainda sinto culpa quando sinto raiva, ódio. Sim, porque eu também sinto ódio. Quando pensei em ter um filho, se fosse menino, o primeiro nome que me veio foi Christian. Mas quando penso no peso das palavras, caio em mim e não poderia chamar meu filho assim. Imagino a cena: Venha aqui meu pequeno cristão! Você sabe que mamãe te ama né cristãozinho? Não posso.
Mas confesso que para mim o Cristianismo teve uma função civilizatória, porque, até certo ponto, há um quê de altruísta em ser cristão. Apesar de não gostar das verdades únicas, há verdades em que acredito, verdades que construí, que certamente tiveram influência do Cristianismo. Uma das coisas é que não posso causar dor ao outro, não posso roubar, não posso matar. Quem sabe um dia matasse, se estivesse com muito ódio, mas daí seria consumida eternamente pela culpa. Isso é cristão. Mas além de ser cristão, há algo que transcende, pois está presente em outras religiões que não são cristãs. Ou seja, é civilizatório.
Se falamos em civilizatório, como não lembrar de Freud com seu Mal-estar na civilização? Se não houvesse interdição, não poderia haver vida em sociedade. Eu diria mais, não haveria vida a dois. Imaginem o que seria dos casamentos se matar não fosse proibido? Mesmo havendo interdição, muitas vezes a pulsão destrutiva fala mais alto e nos deparamos o tempo todo com tragédias que talvez pudessem ser evitadas. Seria o Cristianismo uma tentativa de imprimir a culpa para que possamos viver sem o maldito medo de ser, o tempo todo, destruídos?
O fato é que eu ainda choro assistindo a paixão de Cristo. E todas as vezes fico me perguntando como isso pode ser encenado todos os anos e para sempre? Morei numa cidade que tinha uma encenação famosa da paixão de Cristo. Juntava gente da região toda, alguns fretavam ônibus para ir assistir. Em quase três anos morando lá, eu nunca fui. Eu dizia pra mim mesma: ah, eu já sei a história. Mas muitas pessoas iam todos os anos e continuam indo até hoje. É a mesma história de sempre. Então por que repeti-la sempre e sempre? Bem, isso também é freudiano. A repetição. Repetimos para elaborar? Ou seria para realizar novamente aquele gozo que só a repetição é capaz de nos dar?
No fundo, no fundo, acho que nunca fui porque tive medo de arrebentar os olhos de tanto chorar. Porque é a história de um escolhido para ser aquele que pagaria as contas. Ele tinha que morrer. Ele tinha que morrer? Encenamos ali a destruição humana. E, ao mesmo tempo, choramos de culpa. Mas ele tinha que morrer! É o que sempre me disseram. Ao ver a destruição de Jesus, gozamos e sentimos culpa, num ciclo infinito, que se repete todos os anos. No fundo, no fundo, acho que nunca fui porque tive medo de gozar. A culpa pode ser admitida, o gozo, jamais.
Mas se “ele tinha que morrer” – desculpa que criamos para gozar da destruição do outro – claro que a culpa tinha que ser de alguém. Assim, elegemos o Judas. O filho da puta que traiu Jesus. Assim malhamos o Judas, todos os anos. Confesso que nunca tinha pensado numa coisa, até ler Judas, de Amós Oz. Ora, vejam bem, se Jesus TINHA que morrer para expiar nossos pecados, Judas fez-lhe um favor! Jesus estava com medo, admitamos. Quem é que não teria medo de morrer? Ele dizia: “Pai, se possível, livra de mim esse cálice!”. Caramba, é óbvio que ele não caminhava saltitante de felicidade rumo à morte! Se não fosse Judas, talvez Jesus não tivesse morrido na cruz, talvez tivesse escapado. E não sou eu que estou dizendo isso, li em Amós Oz, antes que me apedrejem.
Gozamos todos os anos com a repetição da morte terrível de Jesus e quanto à culpa, ah, a culpa a colocamos em Judas! O gozo é mortífero, a culpa também. Mas o gozo está trancafiado no mais fundo calabouço dentro de nós. Já a culpa, podemos manuseá-la usando alguns mecanismos. Entretanto, não nos livramos nem do gozo e nem da culpa, jamais. Se lançar a culpa em Judas fosse suficiente, não teríamos a necessidade de repetir e repetir a história. Se culpar Judas fosse eficaz, eu não choraria assistindo a paixão de Cristo.




Isloany Machado, 04/04/2015 

Um comentário:

  1. Olá, ISLOANY MACHADO! Obrigado pelo texto.Li-o com prazer e interesse. Entretanto, permita-me observar duas coisas: 01) não creio haver a separação demarcada por você entre 'gozo' e 'culpa', ou seja, a narrativa judaico-cristã é do início ao fim sustentada pelo gozo com a culpa, gozo este sem o qual o Ocidente não existiria (aliás, Freud pontuara em 'Totem e tabu' [1913] que a culpa era um dos elementos constitutivos da identificação ao 'pai da horda' após o assassinato dele); e 02) a dita "paixão de Cristo" é reencenada a cada ano porque o real do gozo com a culpa é, como tal, ineliminável pela própria reencenação, e, pois, impossível de ser "completamente absorvido" pela significação (articulação entre o simbólico e o imaginário). Penso que é preciso, em termos psicanalíticos, ler os acontecimentos valendo-se dos três registros topológicos (real, simbólico e imaginário), sem os quais ficamos a meio caminho... {Abraços!}

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