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segunda-feira, 9 de março de 2015

Carta 21 - Sobre o abandono das fraldas e o tempo, é claro

Meu querido, que saudade!

Já faz um tempão que não te escrevo, mas penso em você todos os dias. Andei um pouco ocupada com algumas coisas e ando demorando mais pra escrever mesmo, não só as cartas pra você, mas todas as outras coisas. Às vezes penso que gastei toda a minha inspiração, mas depois vejo que ela volta. Sabe que quanto mais tempo à toa eu tenho, mais penso coisas e mais consigo escrever? Pois é, o tempo é uma coisa magnífica, na minha opinião.
Nesse tempo que não nos falamos, sua mãe foi muito eficaz em me dar notícias suas. Soube que no início do ano você andou meio chateado porque mudou de turma na escolinha e teve que se separar da professora que tanto gostava. Soube que fez protestos com as professoras novas, não queria deixá-las tirarem suas sandálias e roupas pra tomar banho! Não queria nem mesmo ir pra escola. Tudo isso pra ficar perto de quem você gosta! Achei muito nobre da sua parte, apesar de que sua mãe já estava se descabelando sem saber o que fazer com suas recusas.
Todos tentavam acalmá-la dizendo que em breve você se acostumaria e tudo ficaria bem, mas eu acho que nenhuma mãe gosta de ver o filho sofrendo. E você estava sofrendo, ora bolas. Talvez essa professora tenha sido seu primeiro amor depois de sua mãe. E abrir mão de um amor é difícil mesmo, como dói. Você a via, todos os dias, cuidando de outras crianças que não eram você, deve ter ficado enciumado, eu te entendo. Vou te dizer uma coisa que eu sei que não consola, mas direi mesmo assim: com o tempo, outros amores virão. Além do mais, por mais que a professora goste de você, o amor que ela sente é de mãe também, é de cuidado, etc. Você não ia querer isso né? Já soube que está mais conformado com a separação, até já faz as coisas na escolinha sem chorar. Outro dia sua mãe me contou que entrou e nem deu tchau pra ela.
É incrível perceber o quanto você está crescido, como o tempo passa rápido. Agora você não tem mais cara de bebê e já não está mais agindo como um! Você já está falando Henrique, já está mais fácil sobreviver, não é? Com a linguagem, tudo fica mais fácil, e ao mesmo tempo – em breve você perceberá – tudo fica mais difícil também, mas ela te ajuda a fazer coisas legais como abandonar as fraldas! E não foi exatamente isso o que aconteceu semana passada? Fiquei emocionada ao saber, por vários motivos:
1.      A fralda devia esquentar sua bunda à beça e deve ser um alívio não ter mais que usar;
2.      As meninas e também seus colegas vão te olhar com outros olhos agora, pois você deu um passo a mais;
3.      Sua mãe está feliz por sua conquista;
4.      Seu pai, radiante porque economizará não tendo que comprá-las mais;
5.      Sua avó poderá contar para todas as comadres dela que o netinho não usa mais fraldas;
6.      Nem tão cedo você precisará andar com um cocô pendurado na bunda e nem precisará ficar melecado de pomadas contra assaduras. Pode ser que quando estiver bem velhinho precise de novo, mas até lá há tanto a fazer sem elas que você nem se lembrará mais como é.
Largar as fraldas é dar um grande passo rumo à independência, é poder ter mais controle do seu corpo. E tudo isso graças, mais uma vez, às palavras que te permitem gritar “Mãe! Cocô!” e correr pro seu vasinho sanitário. Depois virão ainda muitas coisas, mas existem alguns marcos na vida. A primeira palavra, por exemplo, inaugura sua entrada num universo que permitirá que você seja compreendido sobre o que deseja; o primeiro passo permite que você não dependa dos outros para levá-lo até seus objetivos, que por ora são mexer nas coisas de casa, mas futuramente te permitirão andar livremente pelas ruas, contemplando o que quiser; sobre as fraldas já falamos; aprender a ler e escrever também são dois grandes passos que geralmente vêm juntos.
Depois tem a troca dos dentes, na qual você abandona os dentinhos que carregava desde quando era bebê e ganha uns dentões que carregará pelo resto da vida, não os deixe estragarem! Mais ou menos aos doze você entrará numa fase chata da vida chamada adolescência, em que você fica chato, tudo ao seu redor fica chato, e não consegue definir se ainda é criança ou não. Depois vem a fase dos namoros da escola, prepare-se para sentir dores no coração, caso você seja parecido comigo, é claro. Depois, tudo passa muito rápido e você estará na faculdade, se esse for o seu desejo, e poderá morar sozinho, longe de seus pais. No começo será difícil, tanto pra você como para eles, mas depois fica bom, é como tirar as fraldas. Mas já estamos indo muito longe. Por enquanto concentre-se aí no cocô e no xixi, depois vamos conversando.


Isloany Machado, 09 de março de 2015.

P.S.: Te amo muito. Parabéns pela conquista!   

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