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domingo, 8 de fevereiro de 2015

Analista-mestre e Pequeno analisante-gafanhoto


Eu nunca gostei muito de filme de lutas, nem nunca me interessei em saber sobre artes marciais tipo kung fu, karatê, judô, etc. Mas como meu marido já foi judoca (se é que alguém deixa um dia de sê-lo) e apaixonado por Karate Kid 1, 2, 3, 4, 5, ad infinutum, vez ou outra me meto a assistir junto com ele. Fato que não me serve de moeda de troca, pois ele recusa-se veementemente a assistir comédias românticas comigo. E aí, acontece que somente na vida adulta descobri que existem os mestres e os pequenos gafanhotos.
Como pude viver até os trinta anos sem saber disso? O marido me explicava que um mestre só é mestre porque tem um pequeno gafanhoto sedento de saber. Ou seja, não existe mestre se não houver um pequeno gafanhoto para beber seu conhecimento, assim como não existiriam pequenos gafanhotos sem mestres. Intrigada diante do que me pareceu uma grande questão filosófica, fui buscar saber mais sobre a dupla e descobri diversas historietas envolvendo mestres e pequenos gafanhotos. A que mais me chamou à atenção foi esta que transcrevo aqui:

O GAFANHOTO*
Um pequeno gafanhoto havia sido encaminhado para aulas com um velho professor, o mais experiente da nuvem. No entanto a única coisa que o velho gafanhoto fez foi ordenar que o jovem sentasse num galho e aguardasse o retorno de dois outros gafanhotos. A um deles o professor dissera “Vá, e viaje por todo mundo exterior”. Ao outro, “Medite e viajes para dentro de ti mesmo, para reconhecer-te melhor”. Os dois gafanhotos fizeram o ordenado, e depois de saírem, o velho professor disse a lição ao jovem aprendiz. “Aguarde o retorno de cada um deles, e quando voltarem me chame.” E o jovem assim o fez. O primeiro até que não demorou muito para regressar, alegrando o menino gafanhoto que imaginou logo poder completar a lição. No entanto, ao esperar por aquele que precisaria viajar dentro de si mesmo, os anos passaram, passaram… Até que o jovem nem mais era tão jovem assim. Quando o viajante enfim retornou, o aprendiz chamou ao mestre, que simplesmente perguntou ao discípulo “então, o que aprendeste com isso?”. De pronto o gafanhoto respondeu “Que conhecer a nós mesmos pode ser mais complexo e demorado, que conhecer o mundo lá fora!”
* Postagem feita no site de Douglas Eralldo, no dia 12 de agosto de 2013 e disponível no link: http://douglaseralldo.com/o-gafanhoto/

Eu, que sou psicanalista, não podia deixar passar em branco o aprendimento que tive, e pensei: Por que não dizer ao mundo o que aprendi? Sou uma pequena gafanhota da psicanálise e gosto de entender as coisas de um jeito simples.
A formação psicanalítica, por exemplo, como indicado por Freud, seria feita a partir de um tripé: 1. Os estudos teóricos; 2. Atendimentos supervisionados e 3. Análise pessoal. Percorremos cada um desses três caminhos, ao mesmo tempo, sozinhos e acompanhados. Um verdadeiro paradoxo. Mas eu explico. Estudos teóricos: Podemos estudar sozinhos, mas o saber se enriquece sempre que fazemos isso acompanhados, e vice-versa, por isso o cartel é um dispositivo em que se faz um estudo solitário em grupo. Quatro pessoas e mais uma se reúnem em torno de um tema comum e, a partir do estudo, cada uma produzirá algo ao final de no máximo dois anos (tempo limite de funcionamento de um cartel). O mais um é aquele que fará provocações, como um mestre faria com os pequenos gafanhotos, o que não quer dizer que ele saiba mais, mas ele ocupa o lugar de provocador do saber. Digamos que é um gafanhoto eleito entre os outros para cutucar e fazer desenrolar o saber.
No segundo ponto, atendimentos supervisionados, nós, pequenos analistas-gafanhotos, levamos para supervisão os casos de nossa clínica, geralmente os que mais nos fazem questão, os que temos dificuldade de enxergar sozinhos sobre os detalhes do diagnóstico estrutural, quando temos dúvida quanto à técnica e mais uma série de possibilidades. O supervisor é alguém que escolhemos livremente a partir de nossa transferência. Não há uma lista de analistas-mestres que nós gafanhotos devemos seguir, caso contrário nossa formação não seria válida, pelo contrário, há que se ter liberdade de escolha. Não existe um momento em que o pequeno analista-gafanhoto dirá “Agora já sei tudo e não preciso mais do mestre”, de modo que analistas sempre serão gafanhotos, ou seja, aprendizes, o que vale também para os supervisores, que não sabem tudo ou são detentores máximos do conhecimento. Ora, podemos então dizer que os supervisores são gafanhotos eleitos livremente pelos outros para ajudar a ver um caso de outro ângulo.
Quanto ao terceiro e último ponto, a análise pessoal, o analisante-gafanhoto procura um analista-mestre e o que encontra não é um mestre que lhe dê lições ou diga o que deve fazer. Antes, o analista-mestre faz perguntas e coloca o analisante-gafanhoto para pensar em suas questões. Como o analista-mestre faz isso? Perguntando, escandindo os ditos, cortando as frases, fazendo com que um outro sentido advenha. O analista-mestre deve ser escolhido também de acordo com a transferência do analisante-gafanhoto, não deve haver uma lista dos escolhidos. É um caminhar, como eu disse, solitário, sem grudes e identificações entre gafanhotos, cada um deve se responsabilizar por suas escolhas. Ainda que solitário, o caminho da análise não é possível sem a presença do analista. Autoanálise é para os que não querem compromisso com a psicanálise. Ora, mais uma vez podemos dizer que o analista-mestre é um eleito, dentre os outros gafanhotos, pelo pequeno analisante-gafanhoto.
Nos três elementos há que se ter liberdade de escolha. É um caminhar solitário de gafanhoto, porque um mestre só faz semblante de saber. Ele não tem que saber tudo, basta que saiba propor boas questões. No fim, analistas e analisantes, somos todos gafanhotos e sabemos “Que conhecer a nós mesmos pode ser mais complexo e demorado, que conhecer o mundo lá fora!”, citando o pequeno gafanhoto da historieta transcrita anteriormente.       




Texto de Isloany Machado, escrito em 06/02/2015

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