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domingo, 18 de janeiro de 2015

Prefácio do livro Em defesa dos avessos humanos

PREFÁCIO

Por Maria Anita Carneiro Ribeiro
Psicanalista 


Isloany Machado é uma despensadora que com sua pena, ou melhor, com seu teclado, avessa o cotidiano e o expõe com o frescor de uma prosa num bar com uma amiga, com o gosto de uma confidência sussurrada, com o calor e o perfume do Planalto Central e da poesia de Manoel de Barros.
Isloany é despretensiosa, e por isto mesmo, o que ela faz é precioso. Diz que não sabe escrever teoria – mas fez Mestrado. Apesar do que diz, às vezes se arrisca a escrever sobre a teoria e a técnica da psicanálise. Mas bom mesmo é quando ela relaxa e se deixa atravessar pelos mistérios da Caverna do Dragão, descoberta por Freud, e que nós chamamos de inconsciente.
É então que sua prosa se torna mais saltitante e saborosa, menina sapeca e mulher sabida, recordando causos da infância, nos apresentando, com o entusiasmo de quem acabou de descobri-los, livros célebres, refletindo sobre detalhes, ou apenas resmungando.
Na sua Apresentação (incompleta), nos comunica com elegância econômica, e por isto mesmo mais tocante, a origem de seu escrevinhar: a dor de uma perda insuportável, de um companheiro de infância que escolheu cair fora da vida. Diz-nos então que “de um grito de dor, a escrita tornou-se um novo amor.” Mas não só, pois no desfiar das palavras, o amor perdido transforma-se em lembrança, junto com os significantes que “compõem” a autora: sopa, tigela, dias quentes da infância. Lindo trabalho de luto, em que “as palavras lambem suas feridas”.
Neste sentido, o livro é o relato de uma travessia, da dor insuportável à miséria comum, evocada por Freud. Só que a paisagem que se desenrola ao longo desta travessia não é de miséria, e muito menos comum. Claro está que a temática da angústia retorna, recorrente, repetitiva: angústia de Graciliano, de Tchekhov, do aposentado no ônibus, da moça pintada que, sem saber, procura o amor...E não poderia deixar de ser assim – é este fundo bem verdadeiro de angústia que faz brilhar o riso, a piada, a brincadeira, a recordação, o entusiasmo.
Comecemos pela Declaração Universal dos Avessos Humanos, um libelo enérgico em defesa das diferenças, em nome do desejo. Mas com direito a artigos bem peculiares, como o 7º, que resume de forma hilária e inesperada, porém eficaz, a interdição do incesto: “Todos são desiguais perante a lei paterna e não têm direito, sem qualquer distinção, de bulir com a mãe da horda primeva.” E o leitor descobre, ao mesmo tempo, que existe uma mãe da horda primeva (sempre desconfiei), e que bulir com a mãe é a própria essência do desejo incestuoso.
Do mesmo modo, o artigo 13, item 1, preconiza que: “Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção, ainda que sofra de conversão histérica.” E de súbito se torna óbvio que não há nada mais movimentado e buliçoso do que uma grande paralisia histérica.
Ao falar dos livros que lê e ama, Isloany deles se apossa e os torna pretexto para uma conversa íntima com a autora (Água Viva, de Clarice Lispector) ou para refletir sobre um tema; o feminino, por exemplo (Balzac e Flaubert). Mas é claro que não o poderia fazer de uma forma banal.
Balzac, por exemplo, é um velho conhecido, um “daqueles homens que veem beleza nas mulheres de semblante melancólico”. A mesma intimidade aparece na análise de Madame Bovary: a autora não gosta de Rodolfo, um pilantra “que conhece bem a alma feminina”, e é com deselegância que o safado “manda essa” para Ema, ao falar das almas atormentadas.  É a isto que chamo de se apossar do texto: é se intrometer nele, dele participar, mais do que usá-lo como ilustração de num ponto de vista. Afinal, Balzac é melhor do que Prozac, embora a autora prefira a desmedida da Ema de Flaubert.
Caverna do Dragão que é o inconsciente, as memórias da infância se misturam a livros infantis e ao desenho animado Madagascar. Com A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, nos deparamos com “uma bela metáfora do amor” no encontro entre a Guarda-Chuva, que não queria ser apenas bonitinha, e o galo Afonso, com seu medo de voar. No filme infantil, Madagascar, a autora descobre um ensaio sobre o desejo, e conclui; “um sujeito desejante é um viajante, que está sempre de malas prontas para uma nova partida”.
Sim, Isloany não foge ao óbvio também. Tem o despudor de se mostrar por inteira, com sua força e suas fraquezas, dor e alegria entusiasmada. Alguns dos textos parecem bem simples, quase banais, mas nunca verdadeiramente o são porque traduzem o esforço da autora de “virar bocó”.  Lacaniana verde, e não roxa, que é uma cor muito pesada, e inspirada, ou melhor, inspiramada por Manoel de Barros, eleva ser bocó à dignidade de uma posição ética: “toda palavra torta me conserta e me concerta de araras”.
Ser bocó é tomar o mundo pelo avesso (a tal da realidade psíquica), é se deixar desarrumar e consertar pelas palavras (a tal da psicanálise). Ser bocó é ser sujeito do desejo, afetado pela angústia e é ser também o objeto que causa desejo e angustia: ”Bocó é aquele que olhando para o chão enxerga um verme sendo-o.”
Ser bocó é tudo. Sejamos!

                                                                      

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