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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Sobre o Livro absurdamente necessário: O CAPA-BRANCA, de Walter Farias e Daniel Navarro Sonin


Há poucas semanas estava, como de costume, passeando pelo facebook e vi uma publicação que me fez parar a correria do feed das notícias. Parei quando li sobre o livro: “O capa-branca – de funcionário a paciente de um dos maiores hospitais psiquiátricos do Brasil”. Quem me conhece mais de perto, por ser meu familiar, amigo, ou leitor de meus textos, sabe que a história da loucura, a psicopatologia e essas coisas sobre saúde mental me capturam. Não só porque sou psicanalista, nem porque já dei aula de psicopatologia, mas porque a loucura faz parte da minha vida. Digo em breve por que, para quem não me conhece.
Li os comentários do livro postados pelo próprio Daniel e imediatamente fiz contato com ele. Eu queria comprá-lo, mas queria que um dos responsáveis pelo livro fizesse uma dedicatória. Há pessoas que não são acessíveis, mas ele foi e eu, que tenho uma história de amor com a escrita e com os livros, imediatamente me enchi de transferência[1] com esse escritor que tem a capacidade de ver o mundo pelo avesso. Passados alguns dias meu livro chegou com uma dedicatória que me agradecia por ter me interessado pela história dessa pessoa tão especial (Walter Farias).
O livro conta a história, que de fato jamais poderá ser apagada, de um funcionário de um hospital psiquiátrico que por fim se tornou paciente. Esse é o enredo principal, como o próprio subtítulo adianta. Mas o livro é muito mais. Trata-se de uma denúncia dos maus-tratos a que os sujeitos ditos loucos são submetidos. Parece clichê repetir uma frase dessas, pois estamos carecas de saber que os hospitais psiquiátricos foram, se ainda não são, palco de cenas de horror. Acontece que nós estamos carecas no sentido figurado. Não podemos imaginar o que é estar careca porque nossos cabelos foram raspados à força, não dimensionamos o que é ter os dentes, TODOS OS DENTES, arrancados como se fôssemos feras a serem amansadas. Os loucos não têm voz.
Primeiro o livro conta as cenas de uma perspectiva de quem trabalhava no local, e achei fantástico o fato de Walter não tentar se colocar como um à parte disso. Ele, como funcionário, teve que dar muitos “cala-bocas” nos “malucos” que cuidava. Fazia provavelmente porque era assim mesmo, porque todos faziam, porque era a ordem que recebiam. Achei no mínimo corajoso da parte dele contar isso. Do hospital psiquiátrico, ele é transferido para o manicômio judiciário, onde haviam verdadeiras feras enclausuradas. E notei que nessa parte a loucura ficou somente como pano de fundo, pois quase não aparece a situação de fragilidade e desamparo que ela imprime nos sujeitos. O que se evidencia é o temor constante da lida diária com os detentos. Um deles me chamou mais à atenção: Sansão. Que dava urros ininterruptos, bem como cabeçadas na porta de metal até que perdesse a consciência, o que demorava muito. Parecia a descrição de um touro bravo.
O desejo de Walter, de não trabalhar mais ali, surge depois que assiste a um filme que se passa em uma penitenciária e, imediatamente, ele se dá conta de que era um carcereiro e não mais um auxiliar de enfermagem. O desejo de não mais ser um carcereiro o invade como uma avalanche e, na impossibilidade de sair, seu corpo torna-se o palco desse desejo. Walter começa a adoecer, mas não de uma psicose, como chamamos em psicanálise. Ele sofre de demasiada humanidade, porque seus olhos se abriram e não poderiam se fechar nunca mais diante das insanidades do “sistema”. Em uma fenda, pra mim, inexplicável, ele sofre na pele, ao ser internado, todos os maus-tratos a que vira os loucos serem submetidos.
 Confesso que desde o começo a leitura me foi difícil porque eu tenho, em minha história familiar, pelo menos uma pessoa que passou por isso. Eu pude ver minha tia sem dentes vagando a esmo no pátio de um hospital psiquiátrico. Depois, durante a faculdade, estagiei em um hospital desses. Não entrarei em detalhes porque esse texto não se trata de mim, mas desse livro absurdamente necessário. O ápice das minhas convulsões de lágrimas se deu no momento em que li o nome de um dos capítulos: “Sorriso arrancado à força”. O maior pavor da minha vida, a pior cena que já vi, foi a boca nua e trêmula da minha tia “louca”. Meu pesadelo mais recorrente é que meus dentes estão caindo, ou se esfarelando. Os dentes de Walter foram arrancados. Com sobreviver a isso? Como não perder a fé na humanidade?
Ao sair de lá depois de nove meses, recupera, de certa forma, sua dignidade e sua identidade. Mas jamais será o mesmo, o que não o coloca grudado à loucura. Digo isso porque não acho que seja louco por estrutura, e falo aqui como psicanalista. Mas penso que Walter é demasiado humano e não poderia passar por tudo isso sem perder algo de si. Agradeço aos dois autores; a Daniel por ter se interessado em ouvir e ajudar a contar essa história; a Walter, porque não se deixou calar pelo sistema. Espero que a escrita e a arte o ajudem a conviver com isso, pois não é algo que possa ou deva ser esquecido. Desejo mais: que a arte e a escrita possam ajudá-lo, cada dia mais, a saber o que fazer com isso. Essa é a verdadeira cura.
Isloany Machado, 22/12/2014





[1] Termo psicanalítico

Um comentário:

  1. Nunca tinha ouvido falar desse livro, mas fiquei meio q interessada
    não interessada ao ponto de sair correndo e comprar ou sai pesquisando para baixa ebook, mas fiquei.http://cantinhodacarolll.blogspot.com.br/2014/12/sombra-e-ossos_29.html

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