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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Carta 20 - Sobre a fé na humanidade


Meu querido, como está?
Ultimamente tenho sentido pressa em te escrever. Sei que ficarão muitas coisas e muitas palavras por dizer, mas é assim mesmo. Não há como dizer tudo. Bem, não sei se já te disse, em uma das cartas, que as pessoas não são de todo boazinhas nem más. O humano é uma espécie de mistura de várias coisas, nem só de bondade e maldade. Bicho que vive não só de pão, mas essencialmente de palavras. Antes mesmo que você começasse a falar, só viveu até aqui por causa das palavras, nem foi por causa do leite da sua mãe, acredite. Então hoje quando terminei meu trabalho do dia, corri pra casa pra te escrever, porque li uma notícia que restaurou minha fé na humanidade. Isso pode ser meio confuso pra você, mas tentarei te dizer melhor.
No último domingo eu e seu tio estávamos em um grande supermercado que estava lotado. Eram poucos os operadores de caixa trabalhando e, portanto, as filas estavam imensas. À nossa frente estavam dois adolescentes. Já estávamos cansados de ficar em pé esperando nossa vez de pagar as compras quando um casal passou por nós e cumprimentou os dois adolescentes. Obviamente eram conhecidos, pensei. Dali a dois minutos o casal voltou e propôs pagar aos adolescentes para trocarem de lugar na fila. Trocaram. Passados mais dois minutos, os adolescentes voltaram e entregaram suas compras para o casal passar na fila por eles. Ou seja, furaram fila.
Eu confesso que fiquei muito muito brava porque isso não é certo! Todos estavam esperando, porque eles não podiam esperar também? Eram mais importantes do que as outras pessoas? Isso se chama corrupção, tanto quanto atos de políticos que se privilegiam com seus cargos. Estou te contando calmamente, mas no dia fiquei muito chateada e brava. Quando presencio esse tipo de situação, perco a fé na humanidade, porque penso que todos querem tirar proveito das situações, custe o que custar. E fico achando que as pessoas são ruins. Isso pode parecer bobagem, mas não é.
Mas hoje li uma notícia que restaurou a minha fé. Imagine que hoje pela manhã, na esquina do meu consultório, uma moça se jogou dentro de um córrego em busca da morte. Henrique, foi na esquina do meu consultório, enquanto eu estava provavelmente ouvindo alguém que tenta fugir ou ludibriar a morte. A moça saltou de braços abertos. Um homem viu e saltou atrás. Ele não a conhecia! Mas ele saltou para resgatá-la da garganta da morte. Ele quebrou o joelho, mas a resgatou. Tenho que dizer mais uma vez: ele não a conhecia! Os dois estão sendo acariciados pela vida agora, a moça talvez lamente pelo pouco que faltou para encontrar aquela sua velha desconhecida.
Eu sei, meu querido, que daqui a uns dias posso perder de novo a fé na humanidade, por qualquer besteira egoísta que eu venha a presenciar, mas cada gesto como o desse rapaz me acalenta o coração e me faz seguir adiante. Talvez esse mesmo rapaz já tenha algum dia furado a fila do supermercado, talvez aquele que furou a fila no último domingo já tenha salvado alguém da morte. Eu não sei, mas não há nada que me faça querer desistir de continuar acreditando. Enquanto eu ouço pessoas que tentam fugir da morte, em uma esquina qualquer, outros saltam de braços abertos à sua procura.
Como eu gostaria de te dizer que a vida só é linda e que todas as pessoas são felizes, mas tenho que te dizer, a conta-gotas, que há buracos que nos engolem em cada esquina. Portanto, use colete salva-vidas sempre. Coma palavras todos os dias em todas as suas refeições, isso te salvará da morte, porque as palavras nos fazem flutuar. Lembrei agora da sopa de letrinhas que você comeu na última visita que me fez. Ai que delícia!
Até breve!
Isloany Machado, 02 de dezembro de 2014.

P.S.: Te amo.   

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