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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Carta 19 – Sobre o gosto das palavras, a escrita e os passarinhos


Meu querido,
Como foi bom te ver e sentir o hálito das primeiras palavras saindo de sua boca. Cada vez mais eu percebo que minha missão está chegando ao fim, pois na medida em que você se apropria desses familiares sons e consegue dizê-los, mais eu sei que poderá se virar bem. Sabe, as palavras têm poderes mágicos, mas não por algo da ordem do sobrenatural. São mágicas justamente em sua concretude. Eu tentarei te explicar isso.
As palavras têm cor, sabor, peso, forma, diferentes para cada pessoa. Isso nos molda como sujeitos, nos diz quem somos. Percebe como é fantástico toda essa coisa? Pensa que não notei o prazer com que falou a palavra “Peixe” aquele dia em que viu o peixinho estampado na parede do banheiro? E vi que você disse pra sua mãe como se quisesse que ela confirmasse o que você acabava de descobrir. “Peixe”. Você disse tão certinho e encheu a boca pra falar, como se pudesse sentir o gosto da palavra. Quase morri.
Uma coisa que você disse várias vezes e que me fez virar do avesso foi a palavra “Caiu”. Fiquei encantada com os diversos usos que fez dela. Todo barulho que ouvia de algo caindo cabia na palavra “caiu”. Em algum momento uma pessoa disse: “fulano caiu no mundo”. E você repetiu: “Caiu”. E eu fiquei pensando como é incrível que na sua idade o mundo todo caiba em algumas poucas palavras. Depois que a gente cresce o mundo fica gigante e todas as palavras parecem pouco para tudo o que gostaríamos de dizer. Tem coisas que são indizíveis.
E foi exatamente assim que me senti há alguns dias. Lembra do poeta Manoel de Barros do qual eu sempre falo para te explicar as coisas do mundo? Então, ele se foi. Depois eu até fiquei pensando que nunca tinha te dito que ele estava vivo, mas é porque e existência dos escritores que a gente ama independe do tempo, da vida e da morte. É como se as palavras fizessem com que prescindíssemos da carne, do corpo. Mas achei que devia te dizer que ele já não existe mais de carne e osso, só de palavras. E isso é muito. Mesmo assim fiquei muito triste por lembrar que o tempo de todos nós aqui tem data de validade.
Como te disse antes, tem coisas que são indizíveis, mas que, ao mesmo tempo, precisam ser ditas, caso contrário rasgam nossa carne. Como se diz popularmente: vêm à furo. Mas sua cabeça deve estar dando nó. Desculpe, é algo difícil de explicar. O mundo é grande demais para caber nas palavras e às vezes uma bola de angústia atravessa nosso corpo e precisamos fazer algo disso. Tem coisas que sentimos e que não sabemos dar nome. Sabe querido, é por isso que escrevo, porque à vezes falar é soprar letras ao vento para nunca mais encontrá-las. Quando a gente escreve, consegue fazer metáforas sobre o indizível. E mesmo que depois não se saiba o que fazer com isso, outras pessoas podem comer as palavras escritas e sentir alívio de suas dores. As palavras são mágicas meu bem, e vejo que você já descobriu isso e faz um bom uso. Neste momento creio que caberia bem o seu “Achou!”.
Quando Manoel de Barros se foi, algumas pessoas disseram que ele tinha virado passarinho, pois era isso que ele dizia sempre, que queria ser passarinho. No dia seguinte a última visita que me fez, abri minha bolsa para procurar uns papéis e lá no fundo dela encontrei seu passarinho de borracha. Que bela surpresa me fez! Foi seu jeito de me dizer que somos todos passarinhos aprendentes de voo e que sua hora de voar nas palavras está cada dia mais próxima.     

Isloany Machado, 28 de Novembro de 2014.

P.S.: Seu passarinho de borracha já faz parte de mim, não posso mais devolvê-lo.

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