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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

As palavras são indissolúveis no tempo

Não fazia ainda um mês que ele havia partido, quando fui visitá-lo em sua nova morada. Eu que sou avessa a cemitérios, a qualquer coisa que me lembre a morte, ou que vagamente recorde que haverá um fim, não consegui resistir ao impulso de ir saber onde é que estaria ele daqui até o sempre. E quando cheguei, um obscuro respeito colou-se à minha face diante de tantos que ali estavam. Percebi a contragosto que o movimento desses lugares não cessa, sempre haverá um ou outro que partirá, a qualquer hora do dia ou da noite, mesmo que os carros continuem andando, correndo, buzinando, xingando, atropelando, morrendo lá fora. Quando entrei, senti que o tempo estava parado para algumas pessoas que se despediam aqui e ali de alguém que, cedo ou tarde, partia. Agora me parece que partidas assim sempre são adiantadas demais, é sempre cedo. Sempre há algo que não foi dito, uma última conversa que pudesse dizer tudo (doce ilusão).
Iniciei minha caminhada para chegar até ele, com o novo endereço, bem mais curto do que aquele da Rua Piratininga em que o encontrei em 2012. Agora ele está entre os Pinheiros. Andei, andei, andei, e como é constrangedor pisar na grama alimentada por aqueles que dão sua última contribuição à natureza. Eu não o encontrava, pois tinha que achá-lo entre números desordenados. Avistei um trabalhador local e perguntei: “O senhor sabe onde está Manoel de Barros?”. E ele me disse: “Que número é?”. Saímos em busca do número, e ele, pela força e brutalidade do hábito, pisava sem constrangimento, com suas botas embarreadas, sobre cada um deles. Enquanto andávamos pensei que ao menos poderíamos escolher que número gostaríamos de habitar o sempre. Mas minha cabeça ficou completamente oca tentando escolher que número eu desejaria habitar. Podia ter a ver com algo da nossa história, por exemplo? Eu gosto do número cem, porque me faz lembrar Cem anos de solidão. Pronto, queria escolher o número cem. Mas não sou eu que escolho, e quando me dei conta disso, olhei para toda a extensão do local, que me pareceu infinita, e fui invadida por uma imensidão de sozinhez.
Não encontrávamos. Ele me perguntou: “Faz muito tempo que enterrou?”. Dia 13 de novembro, respondi. Eu olhava e olhava, buscando uma grama recém nascida, uma terra ainda meio remexida, mas por ali tudo parecia bem uniforme.
Quando finalmente achamos, ele olhou a placa e me disse: “É esse, mas o nome dele ainda não está aqui. Se a senhora quiser que coloca tem que pedir na secretaria”. E de repende eu fui alçada ao status de alguém da família. Lá se foi o coveiro, com suas pisaduras sobre a grama, sumiu-se em seu ofício de cuidar e esperar o pó reintegrar a última forma humana. O nome dele não estava lá, encontrei somente o de seus pais: Alice e João Venceslau. Era só pedir pra colocar na secretaria? Me fiz de parente, mas recusei a ideia de colocar seu nome ali. Foi estranhamente confortador pensar que ele ainda não estava. De repente podia ter saído remexendo a terra à procura de matéria de poesia. Mesmo assim fiquei. Percebi que a sua grama já estava bem estabelecida e bem perto dele uma fila de árvores dava abrigo aos diversos cantos de passarinhos. Um silêncio...somente povoado por esses cantos e pelo vento com seu murmúrio surdo.
Fiquei, fiquei, fiquei. Os olhos secos. Li um poema dele, contando sobre sua namorada indiana que passava unguento, passava unguento, para a arte do amor carnal. Não pude conter o riso. Meu coração estava leve e enverdecido pela grama de sua nova morada, tão uniforme já. Não sei por que, achei que estaria ralinha. Mas, apesar da sensação de tempo estático, notei que ele não para. Me lembrei de quando meu avô materno foi embora e da sensação que tive quando foi posto em seu vagão, sob a primeira colherada de terra. Pensei nas palavras todas que herdei dele através da minha mãe e de minhas tias. Escrevi na minha agenda de menina:
Nossa condição é triste, lamentável.
Nossa condição é gelada e roxa.
Nossa condição é apertada e quente.
Nossa condição é escura.
Nossa condição é memorável.
Nossa condição é esquecida...

            Eu ainda não sabia que as palavras são de matéria indissolúvel no tempo. Por isso, palavro loucamente, pra me saber eterna. Depois de não sei quanto tempo, levantei para ir embora. Não falei com ele, não chorei. Só olhei a imensidão de minha sozinhez. Ainda na saída, olhei pra trás em despedida, mas fui invadida pela lembrança de seu riso do dia em que fui a sua casa conhecê-lo pessoalmente, em carne e osso e muita emoção. E enquanto saía, eu só pensava que as palavras são indissolúveis no tempo...



Isloany Machado, 08 de dezembro de 2014.       

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