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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Sobre o Livro absurdamente necessário: O CAPA-BRANCA, de Walter Farias e Daniel Navarro Sonin


Há poucas semanas estava, como de costume, passeando pelo facebook e vi uma publicação que me fez parar a correria do feed das notícias. Parei quando li sobre o livro: “O capa-branca – de funcionário a paciente de um dos maiores hospitais psiquiátricos do Brasil”. Quem me conhece mais de perto, por ser meu familiar, amigo, ou leitor de meus textos, sabe que a história da loucura, a psicopatologia e essas coisas sobre saúde mental me capturam. Não só porque sou psicanalista, nem porque já dei aula de psicopatologia, mas porque a loucura faz parte da minha vida. Digo em breve por que, para quem não me conhece.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Carta 20 - Sobre a fé na humanidade


Meu querido, como está?
Ultimamente tenho sentido pressa em te escrever. Sei que ficarão muitas coisas e muitas palavras por dizer, mas é assim mesmo. Não há como dizer tudo. Bem, não sei se já te disse, em uma das cartas, que as pessoas não são de todo boazinhas nem más. O humano é uma espécie de mistura de várias coisas, nem só de bondade e maldade. Bicho que vive não só de pão, mas essencialmente de palavras. Antes mesmo que você começasse a falar, só viveu até aqui por causa das palavras, nem foi por causa do leite da sua mãe, acredite. Então hoje quando terminei meu trabalho do dia, corri pra casa pra te escrever, porque li uma notícia que restaurou minha fé na humanidade. Isso pode ser meio confuso pra você, mas tentarei te dizer melhor.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

As palavras são indissolúveis no tempo

Não fazia ainda um mês que ele havia partido, quando fui visitá-lo em sua nova morada. Eu que sou avessa a cemitérios, a qualquer coisa que me lembre a morte, ou que vagamente recorde que haverá um fim, não consegui resistir ao impulso de ir saber onde é que estaria ele daqui até o sempre. E quando cheguei, um obscuro respeito colou-se à minha face diante de tantos que ali estavam. Percebi a contragosto que o movimento desses lugares não cessa, sempre haverá um ou outro que partirá, a qualquer hora do dia ou da noite, mesmo que os carros continuem andando, correndo, buzinando, xingando, atropelando, morrendo lá fora. Quando entrei, senti que o tempo estava parado para algumas pessoas que se despediam aqui e ali de alguém que, cedo ou tarde, partia. Agora me parece que partidas assim sempre são adiantadas demais, é sempre cedo. Sempre há algo que não foi dito, uma última conversa que pudesse dizer tudo (doce ilusão).

domingo, 7 de dezembro de 2014

Serpente do medo


E então toda a sua pele foi tomada pelo aspecto gelado e viscoso daquela serpente.
Subitamente surgira sob seus pés e subira lentamente.
Lambendo sensualmente cada gota de suor e lágrima paridas por sua presença.
Cintura envolta, cabeça horrenda a olhar nos olhos e aspirar o hálito seco daquele corpo que já não se sabia mais nada além de corpo.
Olhos arregalados, pés paralisados. A serpente a passear por todo o corpo, sempre quente, mas quase morto.
A serpente não lhe propunha questões éticas, como a tal de Adão e Eva. Mas não deixava de perguntar, com cada centímetro de língua, sobre a vida e a morte.
Que queres? Que deseja? Ande!
Como andar se os pés estão atados e arroxeados, cingidos por ela?
A língua, enquanto endurecida por sua presença terrificadora, cruza com seu veneno prestes a se destilar.
E em segundos já não se sabe mais se o corpo é dele ou dela.
Em segundos jaz um corpo paralisado, tal qual uma árvore atacada por cipó parasitário, morto-vivo, morto em vida.
A serpente sempre ali, a ele abraçada e sem lhe tirar os olhos.

Isloany Machado

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Carta 19 – Sobre o gosto das palavras, a escrita e os passarinhos


Meu querido,
Como foi bom te ver e sentir o hálito das primeiras palavras saindo de sua boca. Cada vez mais eu percebo que minha missão está chegando ao fim, pois na medida em que você se apropria desses familiares sons e consegue dizê-los, mais eu sei que poderá se virar bem. Sabe, as palavras têm poderes mágicos, mas não por algo da ordem do sobrenatural. São mágicas justamente em sua concretude. Eu tentarei te explicar isso.