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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Ops, sou psicanalista e engoli um ponto de interrogação


Sempre que tenho tempo livre, fico pensando bobeira. E isso é tão bom! Então estava pensando no ofício de ser psicanalista, algo que sempre penso porque escuto muitas coisas na clínica. E eu gosto de ouvir, ah, como eu gosto. Tantas e tantas histórias. E na análise é um lugar em que se pode falar bobeiras, todas as que pensamos e muitas vezes não conseguimos e nem podemos dizer pra qualquer um. Quando a gente cresce, o coração fica duro e as falas precisam de razão. Não se pode dizer besteiras, ou se corre o risco de parecer idiota, quem sabe infantil.
            Na análise, não só podemos como devemos buscar o “criançamento das palavras”, lá onde elas ainda “urinam na perna” [1]. Por que será que quando crescemos a língua também vai ficando dura? Cheia de não me toques e não se podes? Às vezes meu saco enche. Quando estou perto do meu pai, falo com a língua dura, porque se falo besteira ele me corrige. Poxa pai, que saco! Quero falar do jeito que eu quiser. Eu cresci, mas ainda sou criança. E quero ser pra sempre assim, pra não ficar com o coração duro, pra nunca parar de perguntar. Tem gente que tem vergonha de perguntar, acha que já tem que saber tudo.
            Quando a gente cresce, para de perguntar, fica com a língua e o coração duros. Por isso escolhi ser psicanalista, porque não quero ficar dura nunca. Porque pra ser psicanalista tem que ser criança, ouvir como criança, sentir como criança, e fazer perguntas, como criança. Mas não são poucas, são muitas perguntas. É como ouvi esses dias, de uma criança: “parece que eu engoli um ponto de interrogação”. É assim que eu me sinto todos os dias: como se tivesse engolido um ponto de interrogação. E mesmo nos dias duros, em que me dou conta de que não sou mais criança, no café da manhã engulo um ponto de interrogação e viro criança de novo. Como o pó de pirlimpimpim, como a pílula de nanicolina, como o bagulhinho que Alice come na toca do coelho pra ficar pequena.
            Por falar em Alice, esses dias vi um coelho branco saindo do meio de um matinho, do nada, à noite. Do mesmo jeito que apareceu, desapareceu. Olhei pro meu marido e perguntei: “você, por acaso, viu aquele coelho que acabou de aparecer ali?”. Fiquei aliviada quando ele disse que sim, pois ainda não cheguei ao grau de alucinamento infantílico. Não paro de me perguntar “quem sou eu?”, “o que eu quero?”, “o que o Outro quer de mim?”, “será que o outro quer?”, “de que desejo eu vim e para que desejo eu vou?”. E minhas perguntas escorrem pelas mãos e meus pontos de interrogação caminham lesmamente para alguns outros.
            Enfim, nós psicanalistas usamos nossas perguntas como ferramentas de trabalho. A pergunta é sempre sobre o desejo. E nós enquanto analisantes fazemos análise para ouvirmos nossas próprias perguntas, invertidas. Mas só quem é criança sabe que fazer pergunta é necessário para viver, caso contrário adormecemos, adormesomos. Eu descobri que só gosto de gente bocó, que não tem medo de ficar acordada, gente acordecida. Às vezes algum paciente, antes de deitar no divã, diz: “hoje eu vou dormir nesse divã, estou com muito sono”. E eu, mais que depressa, digo: Não vai dormir nada, trate de falar!
            Falar, falar, falar, até amole-ser a língua, o coração, e a dureza da vida. É como se diz: “Rapadura é doce, mas não é mole!”. E eu sempre fiquei pensando: mas se rapa-dura é dura, como fazê-la rapamole? Vem ser bocó comigo, vem?

[1] Manoel de Barros

  Isloany Machado, 28 de outubro de 2014.

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