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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

"Intervenção militar"? Você colou pra passar na escola?

Meu silêncio me bastava até hoje de manhã. Eu estava em silêncio porque não gosto de brigaiada político-partidária. Eu estava em silêncio porque achei que depois do dia das eleições, as pessoas parariam de fazer ataques pessoais aos candidatos à presidência do nosso País, assim como sempre ocorreu em todas as eleições desde que me entendo por gente. Por falar em “desde que me entendo por gente”, eu nasci no ano de 1984. Ano que dá nome a um famoso livro de George Orwell e conta a história de uma sociedade vigiada, ditatorial, em que um Big Brother dava as ordens, em que não havia democracia.
Mas o ano em que eu nasci também tem uma importância nacional, pois foi o ano em que o regime ditatorial militar caiu do poder. Desde que eu nasci, vivemos num país que adotou e briga todos os dias por manter, acima de tudo, a democracia. Às vezes a gente se acostuma com as coisas boas e esquece que pode perdê-las. Assim estava eu, filha de 1984, até hoje de manhã. Achando que a democracia é um bem conquistado pelo povo e que jamais poderia ser perdido.
E afinal, porra, o que aconteceu hoje de manhã? Hoje de manhã eu descobri que tem pessoas saindo nas ruas para pedir “intervenção militar” depois de uma eleição feita democraticamente. Eu estava em silêncio até saber disso, mas não posso mais me calar. Não posso porque sou formada em Direitos Humanos; não posso porque estudei história na escola e ainda tenho na memória as cenas (impressas nos livros) da última vez em que pediram uma intervenção militar em nosso país, e de fato eu estudei, não colei só pra passar de ano. Não posso mais me calar porque agora não se trata mais de defender tal ou tal candidato; não posso guardar silêncio porque agora passaram dos limites da insanidade, da ignorância, da falta de memória, da vontade de repetir e repetir, como faz sempre uma massa acéfala, norteada puramente pela pulsão. Não posso me calar porque sou psicanalista e não se enganem os engraçadinhos que dizem que a psicanálise se restringe ao indivíduo. Uma ova! A Psicanálise tem todo um estudo sobre esse puto mal-estar social. Acho que tenho motivos suficientes para dizer porque não pude mais ficar em silêncio desde hoje de manhã.
Então, esse texto é para todos os que estão pedindo intervenção militar. Queridos, vocês sabem do que estão falando? Têm certeza de que não faltaram as aulas de história para ir jogar bolinha de gude? Vocês se lembram do que causou uma intervenção militar entre os anos de 1964 a 1984? Ah, não eram nascidos? Colaram na prova? Odiavam estudar história? O professor era chato? Ah, que pena...Pois eu me lembro, porque não colei na prova. Você que está aí xingando nordestinos, você que está falando mal dos bolsas-qualquer coisa instituídos para tirar a população da linha da miséria, dói seu bolso, é? Você gostaria que pobre se explodisse, porque se ele não tem as coisas ou não está onde você está, é porque não se esforçou o suficiente, né? Ah tá. Você que chora em frente a tevê quando assiste filme sobre o nazismo, o fascismo, a vida de Jesus, e etc, sabia que pedir intervenção militar é o mesmo que implantar um regime totalitário aqui? Sabia que quando você diz que uma eleição democrática, que elegeu aquele escolhido pela maioria, dá continuidade a um regime ditatorial ou socialista, está dizendo que a vontade do povo não é soberana? Sabia que durante 20 anos uma intervenção militar destruiu nossa economia e fez da tortura uma prática política? E que essa intervençãozinha de 20 anos fez com que muitos problemas sociais se agravassem, marginalizando milhões de brasileiros? E que quem sabe se não fosse isso, hoje não precisaríamos ter programas de bolsa isso ou aquilo para tentar amenizar os estragos causados pela última intervenção militar? Sabia que quando abre sua boca, escreve seu pequeno cartaz pequeno burguês dizendo “intervenção militar já!” porque seu pequeno bolso está doendo por causa das pequenas bolsas, está abrindo mão de boa parte de seu direito de fazer escolhas?
Meu querido corpo massificado e manipulado que pede militarismo de volta ao poder, volte aos livros sobre a ditadura militar e leia: “O caminho escolhido era democrático. O governo encaminhava ao Congresso suas sugestões, que, depois, seriam aprovadas pela votação dos parlamentares eleitos pelo povo. As elites sociais, acostumadas a jamais perder privilégios, responderam violentamente. Desencadeou-se uma campanha alarmista que tachava o governo de demagógico, ditatorial, sindicalista ou comunizante”. (CHIAVENATO, 1994)
Aos que leram isso e tiveram uma leve sensação de dejá-vu, é isso mesmo. Nos bancos da universidade de psicologia ouvi uma frase que nunca esqueci: “A história se repete.” Nós estudantes achávamos graça e até fizemos disso um chavão da faculdade. Mas hoje de manhã a frase caiu no meu colo e quase não consegui me levantar. Estou vendo a história se repetir e, incrédula, achei que minha surpresa ficou sem voz. Mas de tudo que já estudei sobre Direitos Humanos, Cidadania, Psicanálise, tirei forças para levantar e quebrar o silêncio. Fui estudar pra poder escrever isso e tenho que transcrever mais algumas coisas:
“Um sentimento domina nossa época: o sentimento de uma perplexidade impotente. Vemo-nos levados para uma guerra que quase ninguém deseja, e essa guerra seria, sabemos disso, uma catástrofe para a maior parte da humanidade. Mas iguais a um coelho que a cobra fascina, fitamos o perigo sem saber como afastá-lo. Contamos entre nós histórias horríveis de bombas atômicas e de bombas a hidrogênio, de cidades aniquiladas, de hordas russas, de ferocidades e de penúria no mundo inteiro. Essa perspectiva deveria nos fazer tremer de horror, a razão diz isso; mas há algo outro em nós que parece sentir prazer nisso.” (RUSSELL apud FINGERMANN, 2005). Disse Russell sobre a guerra.
            O horror está diante de nossos olhos, o horror de um regime ditatorial está atravessando a soleira da porta. Fingermann pergunta: “Poderia então o humano comprazer-se no horror? Mas como seria possível sofrer assim do pior e no entanto gozar com isso?”. Desde hoje de manhã estou chocada com a possibilidade da repetição. O que essa massa acéfala pede é puramente gozar do horror. Vamos estudar história? Por favor, não vamos esquecer o passado. Termino esse texto-desabafo com uma frase de Elisabeth Roudinesco: “Vivemos numa estranha sociedade ao mesmo tempo perversa e depressiva; uma sociedade doente de suas liberdades mas sem desejo de liberdade; uma sociedade doente de tratamento mas sempre em busca de uma impossível cura” (2009).
            Se o governo está muito ruim, vamos brigar, vamos acompanhar as ações políticas, mas não vamos entregar nossa liberdade de voto assim de mão beijada para esses que passaram de ano na matéria de história na base da cola.

CHIAVENATO, J.J. O golpe de 64 e a ditadura militar. São Paulo: Moderna, 1994.
FINGERMANN, D. & DIAS, M.M.  Por causa do Pior. São Paulo: Iluminuras, 2005.
ROUDINESCO, E.  Em defesa da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.


 Isloany Machado, 02 de novembro de 2014.

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