Aqui você encontrará textos sobre psicanálise, literatura e meus escritos literários.

Precisa de revisão ortográfica? Venha para a Oficina do Texto: Clique aqui!

Leia aqui o texto que inspirou o nome do Blog!

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Carta 18 - Sobre o amor


Meu pequeno, como está?
Bom, na última carta te falei um pouco sobre o amor, mas achei que foi insuficiente. Na verdade, pouco depois que você completou um ano de idade eu te falei sobre o amor e a solidão do amor, mas agora que já tem quase dois, poderá entender melhor. Fiquei preocupada porque já soube que você anda de namoro na escolinha e até te dei dicas sobre o que querem as mulheres, mas o amor...ah esse é bicho esquisito.
Eu já te falei que amar é viver um paradoxo, porque não há como não sentir dor. Mas o que eu queria mesmo te dizer é que todos os objetos dos amores que vivemos são substitutos de um objeto que perdemos muito cedo. Então passamos a vida procurando. Há objetos que se parecem mais, outros menos, com aquele que perdemos. Na verdade, nem nós sabemos direito como era esse objeto. Por algum motivo nos envolvemos amorosamente com algumas pessoas e não com outras. Pode ser qualquer coisa, e aí pronto! Estamos apaixonados, amando mesmo sabendo que vai doer. E a pergunta óbvia que deve estar presa em sua garganta é: “Tia, como eu vou saber qual objeto se parece mais com o que eu perdi? Como vou saber se é amor de verdade?”.
Meu pequeno, você saberá que é amor de verdade quando encontrar uma pessoa e tiver a nítida impressão de que já a conhece há muito muito tempo. Quando souber, no minuto em que a conhecer, que era por ela que você esperava há tanto tempo. Saberá que é amor quando perceber que todos os seus conceitos anteriores sobre o amor estão sendo apagados por ela, como se passasse uma borracha. Saberá que é amor quando não tiver dúvida de que poderia mudar sua vida para estar com ela. Saberá que é amor quando tiver a sensação de que já não pode mais usar suas velhas roupas porque elas não lhe cabem mais. Saberá que é amor quando puder saber o que ela sente só de olhar na bolita de seus olhos. Você reconhecerá o amor quando uma saudade doída, fina e cortante percorrer toda a sua barriga e peito no instante em que achar que essa pessoa não te ama, ou quando passar mais de uma hora sem saber nada dela. E essa saudade fina se avolumará de tal forma que em poucos minutos sentirá que seu peito vai explodir. Mas também só será amor se esse objeto amado sentir o mesmo por você, senão vira paixão desvairada, loucura. Seria o mesmo que você passar anos mandando cartas apaixonadas para alguém que não te responde. Com o tempo você para de mandar. Não dá pra viver só a face dolorida do amor, é preciso um refresco de vez em quando: um olhar, um beijo, uma palavra.
Sobre isso das dores do amor, eu estou lendo um livro lindo (um dos mais lindos que já li) que se chama O amor nos tempos do cólera, de um autor que já devo ter comentado com você, Gabriel García Marquez. É a história de um amor não vivido que ultrapassa o tempo. São 50 anos, 9 meses e 4 dias de uma longa espera. Meu querido, você consegue imaginar algo parecido com isso? Meio século amando um mesmo objeto e esperando por ele? É muito tempo né? Um amor doido, desvairado, rasgado e, ao mesmo tempo, parecido com o período de hibernação dos ursos.
Os ursos são animais que hibernam no tempo do inverno, isso quer dizer que eles ficam num estado de dormência em um determinado tempo de espera. Uma espécie de inércia à espera de um período que vai passar. Esse personagem do livro manteve seu amor d’urso adormecido durante 50 anos, 9 meses e 4 dias. Ainda não sei o que vai acontecer depois disso, mas não vejo a hora de saber. Mas eu falei desse personagem para dizer que quando ele começou a amar, num período em que o cólera (doença contagiosa) devastou algumas regiões levando embora milhares de pessoas, seu estado de prostração amorosa foi confundida com a doença. Veja alguns sintomas: Perda de peso intensa; Olhos turvos (olhos fundos com olhar parado e vago); Prostração; Perda de Voz, etc. E nessas alturas você deve estar me perguntando: “Tia, são sintomas do cólera ou do amor?”. Pois é, meu querido, ninguém sabe ao certo, mas o cólera leva à morte em poucos dias, enquanto amar é morrer lentamente de uma agonia insana e profunda quando o objeto de amor não corresponde.
Bem, o mais importante disso tudo é que o amor é um reencontro. Olhe bem nos olhos da pessoa, ouça sua voz, sinta seu cheiro e veja se lhe soa familiar. Pode ser que alguma palavra que ela diga faça com que você a reconheça. Mas já vou logo avisando, pode ser e é bem provável que doa, mas o amor não mata não, eu acho.      
Isloany Machado, 21 de Outubro de 2014.

P.S.: Te amo porque te vi desde bebê e te reconheço como um amorzinho até quando eu estiver velhinha, porque sou sua tia e sempre te amarei. Mas esse amor de família não dói. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário