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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Diálogos do cotidiano - Papo de psicanalistas


A Psicanálise é pra quem gosta de ouvir, mas não só. Os psicanalistas, ainda mais os lacanianos, são bastante falastrões. Gostam de jogos palavréticos, metáforas, metonímias, poesias, prosas...Manoel de Barros é a glória dos Lacanianos. De vez em quando eles se encontram, não só pra falar de psicanálise. Às vezes se metem em entreveros amorosos, mas nada dura muito tempo, pois sabem que a relação sexual não existe. Imaginar um papo casual entre um casal de psicanalistas que acaba de se conhecer não é muito difícil.
            Ele vivia sozinho, rodeado por suas ideias e ruminações mentais. Ela, solteira e doida pra ser o que falta a alguém. Uns amigos em comum achavam que poderia ser uma boa coisa colocá-los para duelar, digo, dialogar.
            De encontro marcado, ele decide comer uma paçoca antes de ir ao encontro, que será dali a meia hora. Ela, inibida, bebe meia garrafa de vinho para soltar as pregas do recalque. No restaurante, ele a vê chegando e, segundo sua fantasia, a moça tem cintura fina, cabelos longos balouçantes ao ritmo do ventilador de parede, vem com os lábios entreabertos e a cabeça levemente projetada para cima. Ou será que tudo isso é pela falta dos óculos, esquecidos sobre o aparador da sala?
            Antes de chegar na mesa em que ele espera, ela vem com seu salto 15 que não sabe usar, mas quer impressionar, afinal ela tem pressa. Já passou dos 35 e, se seu pai não lhe deu um filho, alguém tem que dar. Ela vem mancando. E nesse minuto em que manca pela primeira vez, os olhos dele se fazem cativos. É ela! Por outro lado, a paçoca que ele comera antes do encontro ainda estava entreposta naqueles lindos dentes, e ela não pôde resistir. No primeiro oi, o leve odor de álcool que exalava da boca daquela mulher e os feixes de paçoca a coroar os dentes dele, foram o suficiente para profetizar uma paixão fulminante.
            Depois de algum tempo conversando, ou melhor, falando de psicanálise, já um pouco mais descontraídos, descobrem que estão muito à vontade um com o outro. E desde que chegaram não paravam de pensar, excitadamente, em qual seria a estrutura do outro. Não se enganem, isso é critério para se engajar ou não num relacionamento. Ela dava toda a pinta de ser uma histérica. O próprio falo ambulante. E num momento de descuido, ele diz:
- Como uma boa histérica, você me deixou com mais vontade de saber.
 - Ah, para de me diagnosticar!
- Isso não é um diagnóstico, é um elogio, para dizer que você é um anzol.
- Ao que parece, nessa relação eu estou do lado feminino e não do lado fálico. Não sou nada mais que um anzol para um peixe.
- Um anzol com semblante de objeto a. É sucesso na pescaria, na certa.
            No final da noite, ele fez questão de pagar a conta, sob os protestos da moça. Mas disse a ela:
- Agora você me deve, e não é pouco.
- Não posso ficar em dívida com você.
- Por que não? O negócio é ir pensando em como vai me pagar. Tantos ratos tantos florins.
- Mas pensar não paga!
- Você não é obsessiva, então terá que pagar mesmo.
- Quem te disse que não sou? Você não é meu analista!
- Aposto meu falo como é histérica.
- Mas que falo? Você não tem!!
- Ahá, o teste de histeria deu positivo! Até torci pra uma estrutura perversa da sua parte mas...
- Eu posso ser psicótica!
- Não, nenhum psicótico saberia brincar de ser psicótico. Metáfora não tá acessível pra ele. Teste de histeria já deu positivo, no máximo uma perversão bem encenada. Mas aí não tem problema.
- Está bem, você venceu...
- Merda!
- O que foi?
- Com essa sequência de respostas obsessivas, voltei pro zero.
- Sabe que esses dias fiquei devendo R$ 2,00 num correio? Quase sentei num tonel de ratos.
- Eu adoraria...
             E assim, dividiram o táxi até suas respectivas casas. Dizem por aí que estão juntos até hoje, transando com a’língua.


  

Isloany Machado, 01 de outubro de 2014.

Um comentário:

  1. Sou admiradora da psicanálise, são relatos como esse que deixam o mundo mais interessante. Discussões intelectualizadas que ao contrário do que pensamos acontecem a todo momento. Parabéns pelo texto! Raquel

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