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domingo, 19 de outubro de 2014

Carta 17 - Sobre tabuadas e tabus


Meu querido, quantas saudades!
Da última vez em que nos vimos eu estava completando 30 anos de idade. Você já tem quase dois e acho que em breve estará se virando bem no mundo das palavras. Então poderemos colocá-lo para dar seu primeiro salto com suas próprias asas, tal como fazem os passarinhos com seus passarinhinhos. O primeiro salto será apenas o primeiro, de muitos que virão. Na verdade, querido, os saltos não param nunca. O mundo dos humanos é tão complicado...mas não impossível. Nunca pense que as coisas são impossíveis. É claro que nada vem de mão beijada.
Você ainda não tem dois e eu, com os 30 nas costas, já deveria estar bem esperta com as palavras, mas ai...vivo capenga. E é difícil explicar, mas com tudo o que temos de recursos, tem coisas que enroscam. Veja essas cartas que te escrevo. Minha intenção é de fazer um certo anteparo entre você e o real da vida. Colocaria essas cartas como amortecedores, entende? São minhas tentativas de te contar sobre o desamparo, mas a conta-gotas, pra doer menos. Engraçado que quando a gente é criança, nossas vacinas são dadas em gotas. O amargor é menos pior do que uma agulhada talvez. Não sei. Na minha época tinha até um tal de Zé Gotinha, que era um personagem que fazia campanha de vacinação. Ele ainda existe?
Com tudo isso, quero te dizer que há muitas coisas difíceis de explicar. E é o que eu tenho feito nessas cartas: tentado te dizer coisas difíceis, que uma hora ou outra você encontraria pelo caminho. Quando eu era criança, tinha muito medo de não conseguir decorar a tabuada, por exemplo. Era um terror. Até hoje eu só sei até a tabuada do cinco. São coisas que nos obrigam a saber, mesmo que não queiramos. Eu consegui deletar da cabeça a tabuada do seis em diante. Quando preciso saber, conto nos dedos. Ou desenho. Nunca gostei de respostas prontas. E o que a escola quer é que tenhamos a resposta na ponta da língua, tipo: “Isloany! Quanto é 7 X 9?”, e eu teria que dizer a reposta. Mas eu sempre fui meio rebelde e quá! Tenho que pensar pra responder.
Bem, a tabuada é uma das coisas difíceis, mas há outras. Esses dias uma pessoa me disse “Eu não tenho nada contra casais homossexuais, acho que cada um deve fazer suas próprias escolhas, mas eu não sei, por exemplo, como explicarei para minha filha que duas pessoas do mesmo sexo estejam juntas”. Eu respirei fundo e pensei: caramba, será que explicar o amor é algo assim tão difícil? Bastaria dizer “minha filha, aqui estão duas pessoas que se amam e estão juntas”.
Depois pensei que entender a tabuada, por exemplo, é mais difícil do que dizer isso. Mais difícil do que isso é entender a mesquinhez humana, mais difícil do que isso é entender porque pessoas maltratam animais, mais difícil do que isso é entender porque tanto ódio. Bem, a lista é gigantescamente infinita. E por que explicar o amor é algo que coloca dúvida na cabeça das pessoas? O amor é a única coisa que pode maquiar nossa triste face destrutiva. O amor é uma coisa plantada, cuidada, ele não nasce como mato em todo canto.
Te parece difícil de entender? Tenho certeza que você, do alto de seus quase dois anos, poderá entender muito melhor do que esses marmanjões que sabem toda a tabuada, mas não sabem falar de amor.
   
Isloany Machado, 07 de Outubro de 2014.

P.S.: Te amo.

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