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terça-feira, 2 de setembro de 2014

Melhorias para o trânsito

Hoje fiquei emocionada como não ficava desde que comecei a dirigir. Eu já havia desanimado, desistido da humanidade nos corações das máquinas humanas sobre quatro rodas. Quase todos os dias levando uma buzinada, meus ouvidos já estavam ficando calejados. Deixei as unhas crescerem para me defender, caso haja luta corporal no meio da rua. Sem querer comecei a mostrar os dentes para os meus amiguinhos no trânsito. Os cabelos arrepiados como de um leão no meio da selva, assim estava eu. Primeiro não conseguia respirar enquanto dirigia, depois não conseguia pensar, agora me sinto no meio da selva móvel.

            Hoje, enquanto esperava o sinal ficar verde, o ser de cabeça corpo e rodas que estava à minha frente furou o vermelho e foi embora. Vagarosamente fui chegando mais perto da faixa de pedestres. Imediatamente, o cabeça corpo e rodas atrás de mim deu uma buzinada, como quem diz: “anda sua pateta! O sinal já abriu, por que não moveu esse seu traseiro metálico daí?”. Mas o sinal ainda estava vermelho, então olhei pra trás e arreganhei os dentes, emiti um som talvez como: grrrrr. De repende, uma mão saiu pela lateral do carro e fez um sinal de pedido de paz seguido de um joinha. Virei pra frente.


No próximo semáforo, o cabeça corpo braço e rodas parou ao meu lado. Ele me olhou nos olhos e disse: “Desculpe, buzinei sem querer”. Eu disse: “Tudo bem, acontece”. Meu coração ficou enternecido e, mesmo não acreditando que tenha sido sem querer, fiquei emocionada porque foi a primeira vez em meses que alguém falou comigo no trânsito. Eu olhei pro lado e descobri que os carros falam, não só buzinam, se batem e xingam, mas falam! O mundo ficou colorido de novo. E comecei a acreditar em algumas melhorias pro trânsito. Pensei que poderíamos inventar formas de nos comunicarmos para além das buzinadas, sinais de luz, joinhas. Francamente, isso é muito pobre.
Vejam, quando alguém está bravo, dá uma buzinada longa. Quando quer alertar, duas buzinadinhas curtinhas. Quando quer que o outro ande logo que o semáforo já abriu, uma buzinada média. Com os sinais de luz é mais pobre ainda. Pra tudo se dá duas piscadinhas de farol alto: vá amigo, pode fazer seu cruzamento que eu espero. Amigo, fica esperto que tem polícia logo à frente. Amigo, seu farol está apagado. Amigo, espera aí que eu tô passando. Amigo, abaixa aí esse farol que eu tô quase cego, seu filho da mãe! Enfim, fico perdida. Não consigo decodificar. A única coisa que consigo fazer quando me dão duas piscadinhas é, como um bicho, erguer as orelhas.
Outra melhoria que pensei para o trânsito tem a ver com as tecnologias. Em todos os semáforos, as pessoas ficam paradas e mexendo no smartfone. A gente sempre acha que as coisas como estão são ruins e que não podem piorar. Me explico. Antes de inventarem os smartfones com seus aplicativos de bate-papo, uma época em que eu não dirigia ainda, lembro que enquanto as pessoas esperavam o sinal abrir, ficavam tirando meleca do nariz. Eu achava nojento, mas era melhor isso do que ter um índice tão alto de acidentes e brigas no trânsito por causa do Whatsapp. Parece que as pessoas eram mais bocós com seus dedões enfiados nos narizes, mas causavam menos acidentes. Algumas mulheres, finas e educadas, aproveitam o tempo no semáforo para retocar a maquiagem. Eu aproveito o tempo pra pensar bobeira. Ai que tempo precioso!


  Isloany Machado, 15 de agosto de 2014.

Um comentário:

  1. Tem o aplicativo Waze que é para otimizar a comunicação no trânsito. Cooperação entre os motoristas, talvez você possa gostar.

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