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domingo, 28 de setembro de 2014

Enfim 30

No último dia 15 de setembro fiz 30 anos. Mas eu não fiz 30 anos de repente, como nos filmes que retratam essa passagem. Então, um belo dia se acorda e se está com 30 anos...ah, comigo não! Pra falar a verdade, desde os 27 estava às voltas com a proximidade dos 30. Não era medo, era a consciência de uma passagem. Mas passagem de onde pra onde? Isso que eu não sabia. Quinze dias antes do aniversário comecei os processos comemorativos. Fiz fotos de aniversário. Uma semana antes, dei continuidade aos processos comemorativos indo festejar os 30 com meus familiares, que moram longe. Como sempre fiquei longe deles, nunca tinha tido a oportunidade de comemorar algo meu junto com os primos, as tias, etc.
            É engraçado como às vezes é preciso ficar longe da família para enxergar as coisas mais de perto. E na hora de cortar o bolo eu disse: “Agradeço a todos por estarem comemorando comigo e lembrem-se que, se eu sou doida do jeito que sou, a culpa é de todos vocês”. Em seguida, num ritual antropológico de comer o aniversariante simbolicamente através do bolo, todos comeram um pedacinho de mim. E como foi bom estar com eles o dia todo e até à noite. Todos são muito simples, mas complicados ao mesmo tempo, como todo ser humano, ser de linguagem.
            Contamos histórias, relembramos outras, rimos. Sentimos saudades de quem não está mais entre nós. Meu primo que se foi deixou um buraco sem tamanho e todos andamos meio curvados agora, como grandes pontos de interrogação em forma de gente. Quase todas as histórias familiares são velhas conhecidas minhas, pois já ouvi várias e várias vezes. Entretanto, dessa vez soube de uma que me fez rir litros e eu acho que merece ser contada. O “mundo” precisa saber.
Uma das minhas primas mais velhas, famosa entre nós pelas mordidas que dava nos primos, quase chegando a arrancar pedaço (literalmente), quando criança estava às voltas com sua tarefinha escolar. Como estudava na mesma classe que outro primo, foi fazer tarefa junto com ele, para poder contar com o auxílio da tia. Eis que a tarefa consistia em escrever uma palavra para cada sílaba da família do X: xa, xe, xi, xo, xu. Além disso, escolhida a palavra, a professora solicitava que a criança desenhasse o objeto escolhido.
Temos que admitir que é uma tarefa difícil, já que em nossa língua quase não temos palavras que comecem com X. Mas o problema já fora resolvido com o xa, o xi, o xo e o xu. Faltava o xe. Matutaram, matutaram e, eis que num lampejo, minha prima grita: “Tiiiia, já seeei! Xéxééééca!”. A tia riu e disse: “Ah, sim, xexéca! Então escreva e depois desenhe aí!”. E eu fiquei indignada por não saber dessa história antes. Só descobri aos 30. Tem prazeres que só adquirimos com a idade e esse foi um deles.
Apesar de conhecê-los tão bem, a cada vez percebo o quanto não nos conhecemos direito. Tem o primo que outro dia era bebê e agora tem barba e uma namorada. Tem o tio que, mesmo separado da tia (irmã da minha mãe), continuou na família e é quase um irmão pra minhas tias. Tem a tia que perdeu o filho e perdeu a vontade de fazer as coisas que nós gostávamos de comer quando crianças, provavelmente porque lhe lembram seu filho. Tem o primo elegante sempre, tem o irmão dele, que está sobre duas rodas e tem uma barriga de grávida que fui obrigada a beijar. Tem a irmã deles, sempre tão quieta, que tagarelou dessa vez sem parar e eu pude saber o que ela pensa da vida, graças à cervejinha que ela tomou o dia todo. E a outra irmã deles, que eu carreguei no colo e a danada passou na minha frente e teve um filho. Tem o tio que se ofereceu pra assar a carne, mas se recusou a assar linguiça de porco porque sua religião não permite que ele coma. Tem a prima que quase não foi porque é meio antissocial. Tem o primo antissocial que foi e ficou com fone de ouvido o tempo todo, “anda estudando pra concurso”, disse meu tio. Tem a prima mais velha, adotada por nossa família e que era mais bonita que todas nós. Tem o primo cuja mãe enlouqueceu quando estava grávida dele, trocamos ideia sobre como ser um bom autônomo. Tem meu pai, que viajou para estar comigo nesse dia e roubou a cena, porque fala demais. Tem a mãe, que deixou que fizesse a festa na casa dela, mesmo com toda a bagunça. Tem o marido, que conquistou toda a família (de mulheres que não gostam de cozinhar) com seu Yakissoba delícia e ficou me olhando ser feliz naquela comemoração. Tem as crianças, filhos dos primos, que já estão ficando enormes. Tem o priminho que insiste em enfiar o dedo no bolo antes da hora. Tem minha irmã com sua dedicação ao filho. E eu quis comemorar lá porque segundo minhas tias, eu nunca saio dos 15.    


Mas pensando bem, não é desde os 27 que tenho andado às voltas com a questão dos 30 anos. Me lembro que em minha primeira sessão de análise eu disse à analista: “Eu sei que você não vai responder, mas eu queria saber se você tem 30 anos”. Como eu já suspeitava, ela não respondeu. O tempo passou e lá de sua poltrona ela vê o pipocamento de meus cabelos brancos, semana a semana.
Há uns dois anos li “A mulher de trinta anos”, de Balzac, que deu origem ao famoso termo “balzaquiana”. E ainda não sei que raios de pergunta eu tenho sobre isso. Já queimei minha mufa no divã para tentar descobrir de onde vem isso e não consigo entender. Já pensei que podia ter a ver com a idade em que minha mãe teria tido filhos, mas ela teve minha irmã e eu antes mesmo dos 24.
Já pensei que tem a ver com minha questão com o que é ser mulher. Mulher só depois dos 30? Santa Histeria! Na adolescência eu era o “meninão” do meu pai. Quando ele ficava bravo com a gente, enquanto minha irmã (a menina) chorava, eu (moleque) peitava e ele ficava quieto. Que adolescente chata que eu era. Botava camiseta e calça larga para esconder o corpo. Roía as unhas até o sabugo. Não tinha as orelhas furadas. Não queria usar salto e batom, como pedia minha mãe. Tinha o cabelão na cintura e, pra enfurecer meu pai, cortei joãozinho. Claro que na época eu não sabia que fazia tudo isso para atender à demanda dele de quando minha mãe estava grávida de mim: ele queria um menino. Então toma!
Foi assim que me enrosquei na ordem simbólica, histericamente sendo esse menino, mas com os olhos compridos no desejo pelos meninos, aí ocupando o lugar de menina. Ai que confusão. E mesmo depois de entender todo esse rolo, ainda não sei o que o raio dos 30 anos tem a ver com isso. Menina X Mulher? Menina X Menino? Menino X Mulher? Afe. Como diria Lacan, “A relação sexual não existe”, então vamos deixar pra lá as oposições e ver como é ter 30 anos. No dia do aniversário já tinha comemorado tanto que o susto não foi tão grande.  


  Isloany Machado, 28 de setembro de 2014.

3 comentários:

  1. Parabéns Isloany,
    O aniversário é seu, mas o presente é nosso por ter o prazer de poder ler os seus escritos.
    Gostaria que soubesse que nem sempre consigo comentar sobre o turbilhão de sentimentos e pensamentos e quebra de paradigmas os seus textos me proporcionam, mas sou leitora cativa.

    Felicidades, e que venham mais 30 anos.

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